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Alívio a conta-gotas na ressaca da votação que deu luz verde ao SPD para negociar com os conservadores

Agora é que são elas, Martin Schulz...

Foto Hannibal Hanschke / Reuters

Todos os líderes dos partidos envolvidos nas negociações para a grande coligação teriam preferido uma maioria favorável no SPD mais substancial, mas foi o resultado possível. Angela Merkel quer começar conversações já esta terça-feira, agora que podem estar afastados os cenários de governo minoritário ou de novas eleições

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

No dia seguinte ao congresso extraordinário do SPD, que votou em Bona a favor do prosseguimento das conversações para elaboração do tratado de coligação para governar a Alemanha nos próximos quatro anos, uma sondagem do Spiegel Online apurou que a maioria está insatisfeita com o resultado e que 32% dos inquiridos consideraram-no “muito mau”.

“O partido [SPD] continua a ser um doente que não sabe como é que vai melhorar”, escrevia esta segunda-feira o jornal suíço “Basler Zeitung”.

A cautelosa luz verde dada ao prosseguimento das negociações representou um alívio para os líderes dos dois maiores partidos e talvez um ainda maior para os líderes europeus, que têm estado em compasso de espera sem poderem avançar com a definição das grandes decisões estratégicas para o futuro da União Europeia.

Andrea Nahles (à esq. de Schulz), representante parlamentar do SPD, fez o discurso que Schulz gostaria de ter feito e foi longamente ovacionada

Andrea Nahles (à esq. de Schulz), representante parlamentar do SPD, fez o discurso que Schulz gostaria de ter feito e foi longamente ovacionada

Foto Hannibal Hanschke / Reuters

Esta evidência era condensada na frase publicada esta segunda-feira no diário italiano “La Repubblica”: “Após um dia difícil, não é exagerado dizer que os 600 delegados votaram pelo futuro da Europa”.

Martin Schulz, para quem os verdadeiros problemas estão agora para começar, de acordo uma coluna de opinião também desta segunda-feira do diário conservador “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, garantiu no final de uma semana frenética em corrida pelas delegações do SPD pelo país: “Se queremos dar forma à Europa, não podemos esperar”, porque “as decisões importantes têm de ser tomadas hoje e não daqui a três, quatro ou cinco anos”.

Falando aos delegados do SPD chamados a votar no domingo, Schulz garantiu que o partido não ficaria diluído na liderança de Angela Merkel: “O SPD tem de ser e será visível, audível e reconhecível” no seio da coligação, declarou.

O presidente dos sociais-democratas defendeu o trabalho já realizado nas conversações com os democratas-cristãos consubstanciado num documento de 28 páginas que, disse, representa “uma revolução” na política da educação alemã, bem como “um manifesto para a Alemanha europeia”.

No entanto, prometeu conseguir negociar alterações a três pontos fundamentais entre os acordados: as crescentes restrições ao emprego de longa duração; passos contra a saúde de duas classes; o endurecimento das condições de reunificação familiar dos refugiados.

Esta revisão do acordo alcançado no passado dia 12 é já comentada nos media como uma potencial ameaça à GroKo (acrónimo alemão para a grande coligação), com os sociais-cristãos da CSU - partido irmão da Baviera da CDU - a recusarem a alteração do texto.

“AfD, partido do povo” foi o título escolhido para a coluna de opinião do Spiegel Online que descreve a ambição do partido de extrema-direita a partir de agora. O colunista defende que o “sim” à grande coligação foi um “não” ao futuro do SPD, anunciando o fim da social-democracia. “Antes [o SPD] foi o partido do povo dos homens pequenos. É esse o papel que a AfD quer representar. A era do partido do povo da social-democracia acabou. É um tempo de mudança”, conclui o comentador.

Schulz vai insistir em três pontos-chave durante a próxima fase de negociações com a CDU

Schulz vai insistir em três pontos-chave durante a próxima fase de negociações com a CDU

Foto Hannibal Hanschke / Reuters

O que se segue

Para o início dos trabalhos já a partir desta terça-feira, e ao contrário do que defende Schulz, Angela Merkel declarou mais cautelosamente que “não haveria muito mais a alterar” no documento de 28 páginas. Este deve servir de pedra de base para a “multitude de questões a aprofundar”, disse a chanceler, citada pelo Spiegel Online.

As conversações vão ocupar as próximas duas ou três semanas, sendo a época do Carnaval a data limite para esta segunda fase de conversações.

Quando o tratado de coligação estiver concluído, será objeto de voto dos 443 mil militantes do SPD, processo que poderá chegar a demorar três semanas. Pode acontecer que tenha de haver novas negociações, o que enfraqueceria perigosamente o futuro político da futura chanceler, Angela Merkel, e do futuro vice-chanceler, Martin Schulz.

Paris e Berlim reforçam aliança de 55 anos

A Assemblée Nationale e o Bundestag, ou seja, os parlamentos de França e da Alemanha, aproveitam esta segunda-feira a passagem de 55 anos sobre a assinatura do Tratado de Amizade Franco-Alemão original, conhecido por Tratado do Eliseu, para, em sessões extraordinárias nos dois parlamentos nacionais, reafirmarem e desenvolverem os termos da amizade entre os dois países.

Para tal, uma delegação da Assembleia Nacional francesa liderada pelo presidente do Parlamento, François Rugy, participará numa sessão plenária no Bundestag em Berlim. No final da tarde, uma delegação do Bundestag alemão sob a direção do seu presidente, Wolfgang Schäuble, participará numa sessão no parlamento em Paris.

Num discurso na Sorbonne, em Paris, pouco depois das eleições alemãs, em 24 de setembro do ano passado, o Presidente francês, Emmanuel Macron, propôs uma alteração do Tratado do Eliseu quando argumentou sobre a necessidade de reformar a União Europeia. Era sua ideia que houvesse um novo tratado pronto para ser assinado quando se comemorassem os 55 anos da sua assinatura, em 22 de janeiro de 1963. Porém, o facto de ainda não ter sido formado um novo governo em Berlim levou os corpos legislativos dos dois países a avançarem para um acordo parlamentar franco-alemão, que aprofunda a cooperação em negócios, sociedade, política e tecnologia.

A AfD boicotou estas comemorações não participando na sessão plenária em Berlim e declarando o novo tratado como uma interferência “nos direitos democráticos das duas assembleias nacionais”, descreve o diário “Frankfurter Allgemeine Zeitung”. O partido que entrou pela primeira vez para o Bundestag em 24 de setembro do ano passado, argumenta que os dois parlamentos devem ser contratualmente vinculados para cooperar, por exemplo, “com reuniões conjuntas de ambos os parlamentos ou com o estabelecimento de um comité diretor franco-alemão permanente”.

As questões importantes relacionadas com defesa, educação e juventude constituem o núcleo dos assuntos que a França e a Alemanha se obrigaram a observar e atualizar em conjunto com a assinatura do Tratado do Eliseu. Em 22 de janeiro de 1963, os então Presidente de França, Charles de Gaulle, e o chanceler alemão Konrad Adenauer estabeleceram uma nova base de relação entre os dois países que pôs fim a séculos de rivalidades. E de guerras.