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Internacional

Coreia do Sul diz que vai continuar a negociar com o Norte “com clarividência”

Kang Kyung-wha é ministra dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul desde junho de 2017

DON MACKINNON

Garantia da chefe da diplomacia sul-coreana surge em resposta a advertências do Japão contra “ofensiva de charme” de Pyongyang. Para Tóquio, Kim Jong-un aproximou-se de Seul para poder dar continuidade aos seus programas nuclear e de mísseis

A Coreia do Sul diz que vai continuar a negociar com a Coreia do Norte "com clarividência" perante avisos da comunidade internacional de que Pyongyang está a usar Seul para comprar tempo enquanto desenvolve os seus programas nuclear e de mísseis.

"Temos de aproveitar ao máximo" esta oportunidade, declarou a ministra sul-coreana dos Negócios Estrangeiros, Kang Kyung-wha, em entrevista à BBC. A conversa com o canal britânico deu-se horas depois de Kang ter participado num encontro internacional dedicado à Coreia do Norte que foi organizado pelo Canadá em parceria com os Estados Unidos.

Na quarta-feira já depois dessa cimeira que juntou delegações de 20 países na cidade canadiana de Vancouver (um encontro para o qual China e Rússia não foram convidadas), as duas Coreias anunciaram que os seus atletas vão marchar em conjunto sob uma bandeira da "Coreia unificada" na abertura dos Olímpicos de Inverno, que vão ter lugar na cidade sul-coreana de PyeongChang em fevereiro.

As negociações intercoreanas, as primeiras desde o final de 2015, começaram depois de Kim Jong-un ter aproveitado o seu discurso de ano novo para se dizer "aberto a dialogar" com Seul e a enviar uma delegação para a competição olímpica.

No mesmo dia, durante o encontro de 20 nações no Canadá, os EUA e seus aliados comprometeram-se em manter a pressão sobre o Norte apesar da recente aproximação entre as duas Coreias. Logo a seguir às reuniões, o chefe da diplomacia dos EUA, Rex Tillerson, sublinhou que as sanções aprovadas contra o regime de Kim estão "a começar a fazer mossa" e que é preciso manter Pyongyang sob pressão para o forçar a negociar os seus programas balísticos com a comunidade internacional.

Nessa cimeira, o ministro nipónico dos Negócios Estrangeiros, Taro Kono, advertiu contra a "ofensiva de charme" da Coreia do Norte, classificando o estender de mão de Kim como uma tentativa de "comprar tempo" enquanto continua a desenvolver mísseis nucleares. A isto Kono acrescentou que "o facto de a Coreia do Norte estar a envolver-se neste diálogo pode ser intepretado como uma prova de que as sanções estão a surtir efeito".

Face a isto, a ministra sul-coreana dos Negócios Estrangeiros disse ontem à BBC que o seu governo está ciente da possibilidade de estar a ser usado pelo Norte, isto numa altura em que continuam a aumentar os receios de uma potencial guerra nuclear entre Pyongyang e os Estados Unidos, depois de Donald Trump ter ameaçado "destruir totalmente" o país num discurso proferido diante de todas as Nações Unidas.

"Penso que entendemos a Coreia do Norte melhor do que ninguém, já lidamos com a Coreia do Norte há décadas e já desenvolvemos várias negociações", lembrou Kang. "Não tínhamos tido nenhum envolvimento significativo no passado recente mas agora temos esta oportunidade. Pode haver todo o tipo de teorias sobre porque é que estamos a participar [nas negociações] e há, obviamente, cálculos da parte dos decisores da Coreia do Norte quanto às suas sações. Mas o facto é que temos de aproveitar [esta abertura] ao máximo."

Na entrevista, a ministra disse que o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, continua empenhado em retomar a distribuição de ajuda humanitária ao vizinho a Norte por causa do impacto das sanções internacionais e deu garantias de que Seul está "no mesmo comprimento de onda" dos aliados quanto ao objetivo de longo prazo que é a desnuclearização da península coreana.