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Narcísico maligno na Casa Branca?

As livrarias não têm mãos a medir para as encomendas de exemplares do livro de Michael Wolff

FOTO Leon Neal/Getty Images

Novo livro sobre Donald Trump reforça diagnósticos sombrios feitos por peritos em saúde mental

Nas várias entrevistas que deu após a publicação do seu livro “Fire and Fury, Inside The Trump White House” (Fogo e fúria, dentro da Casa Branca de Trump), Michael Wolff recordou os mexericos ouvidos nos corredores da residência oficial, sobre a “falta de respeito e consideração que todos nutrem pelo Presidente dos Estados Unidos”. Acima de tudo, lançou um alerta: “Trump é incapaz de exercer o cargo. É mentalmente instável”.

Segundo o autor, o líder americano deixou de reconhecer amigos de longa data e repete as mesmas histórias a cada dez minutos, pormenores que ajudaram a vender o livro (um milhão de exemplares encomendados desde que foi posto à venda, no final da semana passada) e reacenderam o debate sobre o estado de saúde do político mais poderoso do mundo.

Desde a tomada de posse, a 20 de janeiro de 2017, vários peritos tinham comentado este assunto ao Expresso, como John Gartner, psiquiatra e professor na Universidade Johns Hopkins, autor de uma biografia psicológica de Bill Clinton. Conclui que “Trump sofre de narcisismo maligno”. Incurável, a condição distingue-se do narcisismo clássico por incluir paranoia, comportamento antissocial e sadismo. “É como comparar um tumor maligno a um tumor benigno”, esclarece o médico.

O desrespeito pelas mulheres, latinos e deficientes, a obsessão pelos índices de popularidade, pelo tamanho das multidões que o acompanham e a insistência em que venceu as presidenciais em número de votos, embora a contagem oficial atribua uma vantagem de mais de três milhões de votos a Hillary Clinton, são sinais de comportamento suspeito.

Especialistas em Direito Constitucional da Ivy League recordam-nos que a 25ª adenda à Constituição estipula que um chefe de Estado pode ser destituído caso a maioria do seu Executivo ou do Congresso detete incapacidade física ou mental. “Como é que se chega a esta conclusão? Quando a pessoa em causa demonstra ao longo de um extenso período que não tem o temperamento adequado”, afirma Bradford Wilson, da Universidade de Princeton.

Confusão com o hino

Todos os anos, o inquilino principal da Casa Branca submete-se a exames físicos. Barack Obama passou com distinção, queixando-se apenas de uma pequena moinha na planta do pé esquerdo há três anos. “Mas não há testes à saúde mental”, denuncia ao Expresso a psiquiatra Bandy Lee, professora na Universidade de Yale. No mês passado, reuniu-se com um grupo de congressistas em Washington para discutir os indícios de doença mental do magnata nova-iorquino.

“Este assunto foi muito discutido na década de 90, após Ronald Reagan [Presidente entre 1981 e 1989] ter sido diagnosticado com a doença de Alzheimer, cinco anos depois de deixar a chefia do Estado. Surgiram especulações sobre se ele já sofreria da doença nos últimos anos de presidência, mas nada foi feito e os aspetos referentes à doença mental continuam a não ser analisados”, lamenta Lee.

Na segunda-feira, durante a final do campeonato universitário de futebol, Trump pareceu esquecer-se várias vezes da letra do hino dos Estados Unidos. Parte do público detetou o lapso nos ecrãs gigantes espalhados pelo estádio e apupou-o.

No dia seguinte, num encontro com democratas e republicanos para discutir a reforma do sistema de imigração, o Presidente concordou com uns e outros, mesmo quando apresentaram propostas contrárias. Esta quinta-feira Trump foi acusado de se referir ao Haiti, El Salvador e nações africanas como “países de merda” durante uma reunião na Casa Branca, comentários que o próprio desmentiu horas depois no Twitter e que mereceram a condenação imediata do porta-voz das Nações Unidas, Rupert Colville: “A confirmarem-se estas afirmações chocantes e vergonhosas, só podem ser classificadas de racistas”.

O alarme soou do lado conservador quando Dianne Feinstein, senadora democrata do Estado da Califórnia, perguntou a Trump se aceitaria uma “Clean Bill”, uma proposta de lei que não contemple a construção do muro na fronteira com o México, em troca de uma amnistia para os chamados “Dreamers” (menores que entraram nos país com os pais e que, entretanto, passaram a ter um estatuto legal provisório graças a um despacho assinado por Obama, que Trump quer revogar).

Como se nada fosse, depois de ter concordado com Feinstein ao longo de mais de duas horas, Trump prometeu no final: “Iremos construir o muro” e “o México irá pagar a conta”.

Tal cenário não surpreende Wolff. Numa conversa com o comediante Stephen Colbert, na noite de segunda-feira, o autor do livro polémico garantiu que “todos à volta de Trump questionam a sua inteligência e sanidade mental. Todos sem exceção, incluindo Jared e Ivanka [genro e filha]. Todos dizem que ele é uma criança, com necessidade de gratificação imediata”.

A única coisa que espanta o autor é o êxito do seu livro. “Julgava que toda a gente já tinha percebido que Trump é louco e, por isso, não esperava vender tantos exemplares”.

com Cristina Pombo