Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Preparativos, bombas e ameaças, em vésperas da visita papal ao Chile

A visita do Papa Francisco ao Chile decorre entre 15 e 18 de janeiro. Depois seguirá para o Peru

MARTIN BERNETTI / AFP / GETTY IMAGES

Quatro igrejas em Santiago do Chile foram atacadas com explosivos a três dias do início da visita do Papa Francisco ao país. “As próximas bombas serão na tua batina!”, lê-se numa nota deixada numa das igrejas

Margarida Mota

Jornalista

A três dias de iniciar uma visita ao Chile, o Papa Francisco teve a confirmação de que essa deslocação corre riscos de alguma turbulência. Na sexta-feira, quatro igrejas na capital chilena, Santiago do Chile, foram alvo do lançamento de bombas artesanais e objetos incendiários.

Os ataques não foram reivindicados, não provocaram mortos ou feridos, mas deixaram mensagens que visam diretamente o Sumo Pontífice. “Papa Francisco, as próximas bombas serão na tua batina!”, lê-se numa nota deixada na Igreja de Santa Isabel de Hungria.

“Não nos submeteremos nunca ao domínio que querem exercer sobre os nossos corpos, as nossas ideias e atos, porque nascemos livres de decidir o caminho que queremos tomar”, lê-se na mesma nota. “Atacamos com o fogo do combate, fazendo explodir a vossa moral asquerosa.”

Investigação policial em curso junto à Igreja de Santa Isabel de Hungria, com a fachada vandalizada

Investigação policial em curso junto à Igreja de Santa Isabel de Hungria, com a fachada vandalizada

PABLO VERA / AFP / GETTY IMAGES

A mesma mensagem apela ainda à “autonomia e resistência” do povo mapuche — o maior povo indígena do Chile (cerca de 1,5 milhões de pessoas), que vive, maioritariamente, em condições miseráveis na região de Araucania, que o Papa visitará.

Num outro ponto da capital chilena, os muros da Igreja de Cristo dos Pobres foram pichados com mensagens alusivas aos custos da viagem: “Para o Papa $10.000 milhões e nós, pobres, morremos nas cidades”.

Ataque “muito estranho”

Em entrevista a uma rádio local, a Presidente Michelle Bachelet considerou o ataque “muito estranho”. “Sabemos que sempre haverá um ou outro grupo, mas isto é muito estranho, porque não é algo que possamos identificar como sendo de um grupo específico.”

Numa ação de protesto separada, um grupo de membros da Associação Nacional de Devedores Habitacionais (Andha), um movimento de pessoas em risco de serem desalojadas, invadiu e ocupou o edifício da sede da Nunciatura Apostólica do Chile — sendo depois dali expulsos pela polícia. A líder do movimento, Roxana Miranda, candidata às eleições presidenciais de 2013, disse, no Twitter que, o grupo pretendia protestar contra os custos da viagem papal.

O Chile é um país maioritariamente católico, mas muitos cristãos chilenos têm expressado descontentamento em relação ao seu líder espiritual, na sequência de uma decisão polémica tomada em 2015 que causou grande revolta.

Em março daquele ano, a Santa Sé nomeou bispo de Osorno o padre Juan Barros, acusado por paroquianos, deputados e vítimas de abuso sexual, de proteger um padre pedófilo. A agência Reuters refere-se a Juan Barros como “um dos mais notórios predadores sexuais do país”.

A 21 de março de 2015, a primeira missa celebrada por Juan Barros na Catedral de Osorno ficou marcada por protestos contra o novo bispo

A 21 de março de 2015, a primeira missa celebrada por Juan Barros na Catedral de Osorno ficou marcada por protestos contra o novo bispo

Carlos Gutierrez / Reuters

Oriundo da América Latina (nasceu em Buenos Aires, na Argentina), Jorge Mario Bergoglio não esperaria enfrentar tanta contestação num continente esmagadoramente cristão.

Do Chile, Francisco seguirá para o Peru, onde o Vaticano tem em mãos o caso de Luis Fernando Figari, um leigo católico fundador, em 1971, da sociedade apostólica Sodalitium Christianae Vitae. Acusado de comportamentos impróprios, físicos e verbais, contra membros da associação.

Esta diz não ter jurisdição para o expulsar, remetendo a questão para o Vaticano. Mas a Congregação para a Doutrina da Fé, que lida com os casos de abuso sexual no seio da Igreja, diz não poder excomungar um leigo.