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“Esta viagem poderá fundar uma nova ordem mundial”

Macron empreendeu uma ofensiva de charme no país dos guerreiros de terracota

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Líder gaulês propõe liderança global franco-chinesa perante o vazio americano

Muito ativo na cena internacional, o Presidente Emmanuel Macron falou na passada quinta-feira ao telefone com o seu homólogo dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as relações do Ocidente com o Irão e também sobre a Coreia do Norte, no seguimento da visita de três dias que o chefe de Estado francês fez, esta semana, à China.

Em ambos os casos, foi o dossiê nuclear que esteve no centro da conversa. Sobre o Irão, o Palácio do Eliseu informou que Macron defendeu a aplicação “estrita” do acordo nuclear assinado em 2015 e o prosseguimento de um diálogo “reforçado” com Teerão sobre o seu programa balístico e a sua política no Médio Oriente. No que respeita à Coreia do Norte, realçou o sinal “positivo” dos recentes contactos deste país com a Coreia do Sul e defendeu uma solução política que, segundo ele, permita avançar no caminho da desnuclearização da península coreana.

No decorrer da viagem de Macron à China, a questão coreana foi relegada, em público, para o segundo plano. A assinatura de avultados contratos comerciais bilaterais e o desejo de Paris de instaurar uma “parceria estratégica equilibrada” com Pequim atraíram todas as atenções. Ainda assim, Macron e o Presidente chinês, Xi Jinping, confirmaram que o programa nuclear norte-coreano foi discutido. O dirigente francês disse, designadamente, de forma algo vaga, que a França apoia a China “no seu esforço” de aplicar sanções contra a Coreia do Norte e realçou que Pequim tem, neste aspeto, um papel fundamental por ser o maior parceiro internacional de Pyongyang.

Macron realçou também, na capital chinesa, que nota sinais positivos depois do anúncio de que a Coreia do Norte participará nos Jogos Olímpicos de Inverno, em Pyeongchang (Coreia do Sul), entre 9 e 25 de fevereiro deste ano.

Durante os três dias da visita, durante os quais proferiu cinco discursos, por vezes em tom marcadamente empolado, o Presidente francês não abordou qualquer tema que pudesse prejudicar os seus objetivos: vender produtos franceses e lançar as bases de um arrojado plano de liderança mundial franco-chinês, que defendeu sem pestanejar. Numa das suas etapas no imenso país asiático, chegou a comentar, com o ar mais sério do mundo: “Esta viagem poderá ser fundadora de uma nova ordem mundial”.

Num dos seus longos discursos, o dirigente gaulês acrescentou: “Nós [a França e a China] somos a memória do mundo, cabe-nos decidir sermos o futuro (...), chegou o tempo em que a França e a China podem pensar em sonhar em conjunto”.

Não se falou de direitos humanos

Macron não pronunciou qualquer apreciação sobre o respeito pelos direitos humanos no país de Mao Tsé-Tung. Sobre este tema comentou, depois de ser interrogado por jornalistas: “Poderia dar-me prazer a mim próprio dando lições à China. Já se fez isso no passado, sem nenhum resultado”.

Para Macron, a França e a China não são países vulgares: “Somos duas civilizações, dois povos que, desde há séculos, põem em andamento, em todos os domínios, uma certa conceção do ser humano”. Segundo o chefe de Estado francês, o que interessa desenvolver é o que chamou o “diálogo íntimo” entre as duas nações. A seu ver, manifestar indignação sobre os direitos humanos em Pequim seria “ignorar as distâncias culturais e as escolhas profundas de sociedade” dos dois países.

Contratos de dezenas 
de milhares de milhões

Sem se desviar um milímetro das intenções com que partiu de Paris, a 8 de janeiro, Macron não se cansou de sublinhar a sua admiração pela “China milenária”. Acompanhado por 50 grandes empresários, entre eles os patrões das empresas Areva, Airbus, Safran e EDF, pretendia vender fábricas de tratamento de resíduos nucleares, aviões e outros produtos. Meia centena de contratos, no valor global de dezenas de milhares de milhões de euros, foi assinada no decorrer da visita.

Ficou-se a saber, também, que o reator nuclear EPR, da nova geração, construído pela EDF no sul da China, deverá começar a funcionar dentro de seis meses. Será o primeiro EPR a ficar operacional no mundo, mesmo antes dos que já estavam previstos para a França e a Finlândia, cuja construção está atrasada. Pequim decidiu também pôr fim, definitivamente, ao embargo à importação de carne de vaca francesa, que estava em vigor desde 2001 devido à crise das “vacas loucas”.

Emmanuel Macron afirmou que as relações comerciais vão ser aprofundadas nos próximos anos, no quadro da “parceria estratégica”. Voluntarioso, garantiu que as relações de Paris com Pequim têm bases sólidas. “É preciso estruturar as relações (...), estruturar um acesso mais forte ao mercado chinês, permitir os investimentos chineses em França e abrir o jogo de maneira recíproca”, explicou.

A visita foi marcada por símbolos fortes e mesmo por alguns shows que franceses e chineses apreciaram. Macron ofereceu aos seus anfitriões um cavalo da Guarda Republicana, desenvolvendo desta forma o que se poderia chamar a “diplomacia animal”, que foi no passado inventada pela China através da oferta de pandas a alguns países amigos.

A visita correu bem e o regime chinês vai mesmo abrir as suas portas à cultura francesa, nomeadamente através do lançamento, em Xangai, nos próximos meses, do projeto de um “Centro Pompidou provisório”, que será uma filial da grande instituição parisiense, naquela cidade chinesa, por um período experimental de cinco anos.

Na China, Macron também se apresentou como líder europeu, mas reconheceu aos jornalistas que “não tinha mandato” para falar em nome da União Europeia. Assegurou, porém, que falou sobre a viagem com a chanceler alemã, Angela Merkel.