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A hora do degelo em que o calor ainda é pouco

Souvenirs no Parque da Paz de Paju, perto da Zona Desmilitarizada

FOTO ED JONES/GETTY IMAGES

Pyongyang aposta em dividir Seul e Washington e, apesar da aproximação, não debate programa nuclear

António Caeiro

Ao contrário do que fez nos Jogos Olímpicos de Seul, há 30 anos, a Coreia do Norte vai participar nos próximos Jogos de Inverno, que decorrerão na Coreia do Sul de 9 a 25 de fevereiro. “É um grande passo em frente no espírito olímpico”, disse o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, acerca do acordo alcançado esta semana entre as duas Coreias. “Temos agora de tomar as decisões necessárias para tornar este compromisso político uma realidade”.

Responsáveis dos comités olímpicos dos dois países e da Comissão Organizadora dos Jogos de Pyeongchang deverão reunir-se no próximo sábado, dia 20, na sede do COI, em Lausana (Suíça), para acertar pormenores. A hora é de degelo e otimismo, mas com a Coreia do Norte não há nada que seja apenas um pormenor.

A comitiva olímpica norte-coreana incluirá atletas, dirigentes desportivos, altos funcionários, jornalistas, um grupo artístico e uma claque: cerca de 450 pessoas, calculam os anfitriões. É um quebra-cabeças logístico e, sobretudo, diplomático. Devido às sanções internacionais em vigor, a comitiva não poderá viajar de barco diretamente da Coreia do Norte para um porto sul-coreano. Os aviões da companhia norte-coreana, Air Koryo, estão proibidos de voar para a Coreia do Sul. Na lista negra estão, ainda, altos cargos do regime envolvidos no programa nuclear e de mísseis balísticos.

Na terça-feira passada, pela primeira vez em mais de dois anos, ministros das duas Coreias reuniram-se em Panmunjom, no coração da Zona Desmilitarizada que divide a península. Tecnicamente, os países continuam em guerra (o armistício assinado em 1953 não foi substituído por um tratado de paz e os Estados Unidos mantêm cerca de 28.500 soldados na Coreia do Sul).

Além da participação do Norte nos Jogos Olímpicos de Inverno, as duas partes “concordaram concertar esforços para aliviar a tensão militar, criar um ambiente pacífico na península coreana e promover a reconciliação nacional e a unidade”. A Coreia do Norte rejeitou, contudo, debater o seu programa nuclear. “Isso não é uma questão entre o Norte e o Sul da Coreia”, protestou o líder da delegação norte-coreana, Ri Son-gwon. “Todas as nossas armas, incluindo bombas atómicas, bombas de hidrogénio e mísseis balísticos visam apenas os Estados Unidos, e não os nossos irmãos, nem a China ou a Rússia.”

A reunião de famílias separadas desde a guerra da Coreia (1950-53), proposta pelo Sul, também não se concretizou. Segundo a imprensa sul-coreana, a Coreia do Norte exigiria, em troca, o repatriamento de doze empregadas de um restaurante norte-coreano na China que fugiram, em 2016, para a Coreia do Sul. A última reunião do género ocorreu em outubro de 2015. Entretanto, milhares de pessoas que se encontravam na lista de espera, a maioria das quais com mais de 80 anos de idade, acabaram por morrer, indicou a agencia noticiosa Yonhap.

Moon quer ver Kim

Mesmo assim, a reunião de Panmunjong foi considerada “histórica”. No dia seguinte, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, mostrou-se disponível para uma cimeira com o líder norte-coreano, Kim Jong-un. O próprio chefe de Estado americano, Donald Trump, que já ameaçou “destruir totalmente” a Coreia do Norte, manifestou idêntica disponibilidade durante uma conversa telefónica com o homólogo sul-coreano e assegurou ter uma “boa relação” com Kim.

Comentadores alertaram que “mais do que assegurar o êxito dos Jogos de Pyeongchang, o Norte pretende afastar Seul de Washington”. Na quarta-feira, Moon respondeu a essa dúvida: “O diálogo com a Coreia do Norte começou mas, como a questão nuclear não foi resolvida, a Coreia do Sul continuará a alinhar com a pressão e as sanções decretadas pela comunidade internacional”. Elogiou a “forte liderança” de Trump nas relações com Pyongyang.

Quando os ministros das Coreias se encontraram em Panmunjom estava a nevar. “Não será exagerado dizer que o relacionamento intercoreano está mais gelado do que o tempo”, comentou Ri Son-gwon, coronel que chefiava a delegação de Pyongyang. “Apesar do frio, o desejo do povo de melhorar as relações permanece descongelado”, acrescentou. Em Seul, o primeiro-ministro sul-coreano, Lee Nay-yom, foi ainda mais caloroso: “Tal como os Jogos Olímpicos de 1988 contribuíram para o fim da Guerra Fria, esperamos sinceramente que os de Pyeongchang melhorem o estado de coisas na Península Coreana, que está numa grave situação de segurança, e contribuam para a paz mundial”.