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O arquiteto do amanhã

Justin Chin/Bloomberg/Getty Images

Elon Musk não é apenas um dos empresários mais bem sucedidos do mundo, com empresas de ponta na área dos automóveis elétricos (Tesla) e nos foguetões (SpaceX). É também um homem preocupado: com as alterações climáticas e com os riscos 
da inteligência artificial, sobretudo. O lançamento do Falcon Heavy estava agendado para 6 de fevereiro. Nesta entrevista, revela ainda um lado pessoal surpreendentemente vulnerável

texto Neil Strauss/Rolling Stone*

Uma sexta-feira a meio da tarde. Na sede da SpaceX em Hawthorne, Califórnia, três dos filhos de Elon Musk juntam-se à volta dele — um dos trigémeos e dois dos gémeos. Musk veste uma T-shirt cinzenta e está sentado à secretária numa cadeira giratória, não numa sala privada atrás de uma porta fechada, mas num muito acessível cubículo a um canto — decorado com novidades do espaço exterior, fotografias dos seus foguetões e lembranças da Tesla e das suas outras companhias. Mais significativo é um poster emoldurado de uma estrela cadente, com uma legenda em baixo onde se lê: “Quando vemos uma estrela cadente e fazemos um desejo, os sonhos podem tornar-se realidade. Exceto se houver um meteorito a cair que vai destruir toda a vida na Terra. Aí estás basicamente feito, o que quer que tenhas pedido. A não ser que fosse a morte por meteorito.”

Para a maioria das pessoas, isto não passaria de humor negro. Mas, no contexto, remete para o grande plano de Musk: criar habitats para a Humanidade noutros planetas e luas. Se não enviarmos a nossa civilização para outra Idade das Trevas antes de Musk ou de algum herdeiro do seu sonho conseguir realizá-lo, Musk será provavelmente recordado como uma das figuras seminais deste milénio. Crianças de planetas com forma de Terra pelo universo fora celebrarão o Dia Musk, quando lhes derem folga para comemorar o nascimento do terrestre que sozinho lançou a era da colonização espacial.

E isso é apenas uma das ambições de Musk. As outras incluem converter automóveis, casas e tanto da indústria quanto for possível à energia sustentável, afastando-os dos combustíveis fósseis; implementar uma nova forma de transporte de alta velocidade, usando um tubo de vácuo; aliviar o congestionamento de tráfego com uma intrincada rede de túneis subterrâneos equipados com patins eletrónicos para carros e viajantes; criar um interface mente-computador para incrementar a saúde e o poder cerebral humano; e salvar a Humanidade de uma futura ameaça da inteligência artificial que poderá um dia transviar-se e decidir, muito racionalmente, eliminar a irracional espécie humana. Até agora, aos 46 anos, Musk ainda não atingiu nenhum desses objetivos.

Mas fez algo de que poucas pessoas vivas se podem gabar: entrou à bruta e com esforço, sem qualquer tipo de experiência prévia, em duas áreas com barreiras de entrada ridiculamente elevadas: a fabricação de carros (Tesla) e os foguetões (SpaceX). Criou os melhores produtos nessas indústrias, medidos por qualquer padrão sério que possamos imaginar. Pelo caminho, conseguiu convencer o mundo da sua capacidade para atingir objetivos tão elevados que, na boca de outra pessoa, seriam considerados fantasias.

Pelo menos para a maioria das pessoas. “Estou a ver as perdas das apostas negativas”, diz Musk, fascinado pela CNBC no seu iPhone. Fala aos filhos sem olhar para cima. “Malta, vejam isto. A Tesla tem as apostas negativas mais altas em toda a Bolsa. Uma posição de 9 mil milhões.” Os filhos inclinam-se sobre o telefone, vendo um quadro cheio de números que não compreendem. O que tem 13 anos, Griffin, explica-me: “Eles apostam que as ações vão descer e recebem dinheiro por isso. Mas subiu muito, portanto perderam imenso dinheiro.” “São idiotas que querem que morramos”, desenvolve Musk. “Estão constantemente a tentar inventar falsos rumores e a amplificar quaisquer grandes rumores. É realmente um grande incentivo para mentir e atacar a minha integridade. É horrível. É...”

Para a meio, como costuma fazer quando um pensamento o inquieta. Tento ajudar: “Pouco ético?”

“É...” Abana a cabeça e procura a palavra certa. Suavemente, diz: “Prejudicial.”

É fácil confundir o que uma pessoa é com aquilo que faz, transformando-o numa caricatura que encaixa bem numa visão infantil do mundo. A nossa cultura precisa sempre de vilões e de heróis, tolos e génios, bodes expiatórios e modelos. Porém, e apesar de opiniões em contrário, Musk não é um robô que o futuro enviou para salvar a Humanidade. Nem um sábio de Silicon Valley cujo afeto emocional foi substituído por uma inteligência de supercomputador. Ao longo de nove meses de reportagem, vendo Musk a fazer tudo, desde preparar estratégias para aterrar em Marte até planear os próximos avanços em inteligência artificial com especialistas, percebi que ele é alguém muito, muito diferente do que o mito e a sua reputação sugerem.

“The New York Times” chamou-lhe “provavelmente o empresário mais bem-sucedido e mais importante do mundo”. É fácil defender essa ideia. Ele é talvez a única pessoa que criou quatro empresas de milhares de milhões — PayPal, Tesla, SpaceX e Solar City. Mas, no fundo, não é um homem de negócios nem um empresário. É um engenheiro, um inventor e, como ele diz, um “tecnologista”. E enquanto engenheiro com dons naturais, consegue descobrir as ineficiências, falhas e completas lacunas no design dos instrumentos que alimentam a nossa civilização.

“É capaz de ver as coisas mais claramente, de uma forma que ninguém que eu conheça pode perceber”, diz o irmão, Kimbal. Fala do amor do seu irmão pelo xadrez na infância, e acrescenta: “No xadrez, se conseguirmos ver 12 movimentos à frente, somos grandes mestres. Em cada situação particular, Elon consegue ver 12 movimentos à frente.”

As crianças depressa partem para casa da mãe, a ex-mulher de Musk, Justine. “Gostava que pudéssemos tirar a Tesla da Bolsa”, murmura Musk quando saímos. “Ser uma companhia pública [nos EUA chama-se pública a uma companhia que está em Bolsa] torna-nos menos eficientes.”

O que se segue é... silêncio

Musk senta-se à secretária, olhando para o telefone, mas sem ler ou escrever nada. Esgueira-se até ao chão e estica as costas num rolo de espuma. Quando acaba, tento retomar a entrevista falando sobre o lançamento do Tesla Model 3 uma semana antes, e como foi dizer ao mundo que tinha acabado de concretizar um plano com 14 anos: dar início ao mercado em massa de carros elétricos com um veículo de luxo. O feito não é apenas ter criado um carro elétrico de 35 mil dólares; é ter criado um carro elétrico de 35 mil dólares [€29.690] que é tão bom e tão procurado que obriga outros fabricantes de carros a eliminar gradualmente a gasolina para competirem. Dois meses após o lançamento, tanto a GM como a Jaguar Land Rover anunciaram que estavam a planear acabar com os carros a gasolina e tornarem-se completamente elétricos.

Musk pensa um pouco, começa a responder, mas para: “Hã, na verdade, deixe-me ir à casa de banho. Depois vou pedir-lhe para repetir a pergunta.” Uma pausa mais longa. “Também tenho de descarregar outras coisas da minha cabeça.”

Cinco minutos depois, Musk ainda não voltou. Sam Teller, o seu chefe de gabinete, diz: “Já volto.”

Passados mais alguns minutos, os dois reaparecem e ficam a segredar um com o outro. Então Musk regressa para a secretária.

“Podemos remarcar para outro dia se for má altura”, concedo.

Musk põe as mãos na superfície da secretária, endireita-se e recusa. “Posso demorar um pouco a entrar no ritmo das coisas.”

Então exala um suspiro e para de tentar manter as aparências. “Acabo de me separar da minha namorada”, diz com hesitação. “Estava realmente apaixonado, e dói muito.”

Detém-se e emenda: “Bem, ela rompeu comigo mais do que eu rompi com ela, acho.”

Portanto, a resposta à pergunta feita antes: ele sentia-se desesperado e incontrolavelmente horrível quando lançou o Model 3: “Tenho estado em dor emocional severa nas últimas semanas”, explica. “Severa. Foi preciso cada bocadinho de vontade para fazer o evento do Model 3 e não parecer o tipo mais deprimido que lá estava. Andei mórbido durante grande parte do dia e tive de me animar: beber umas Red Bulls, andar com pessoas positivas e no final dizer a mim mesmo: Tenho toda esta gente que depende de mim. Muito bem, vamos a isso!” Minutos antes do evento, após meditar na vida a fim de se concentrar, escolheu uma canção muito significativa para o acompanhar enquanto conduzia até ao palco: ‘R U Mine’, dos Arctic Monkeys.

Musk discute o rompimento durante mais alguns minutos, e depois pergunta, em tom sério: “Há alguém com quem ache que eu devia sair? Conhecer pessoas é muito difícil para mim.” Engole em seco e clarifica, gaguejando um pouco: “Estou à procura de uma relação de longo prazo. Não quero uma relação de uma noite. Procuro uma companheira ou alma gémea séria, esse tipo de coisa.”

Por fim, digo-lhe que talvez não seja muito boa ideia saltar já para outra relação. Talvez ele queira guardar algum tempo para si próprio e descobrir porque é que as relações anteriores não resultaram no longo prazo: o seu casamento com a escritora Justine Musk, o seu casamento com a atriz Talulah Riley, e agora este novo rompimento com a atriz Amber Heard.

Musk abana a cabeça e faz uma careta: “Se não estou apaixonado, se não estou com uma companheira de longo prazo, não posso estar feliz.”

Explico que precisar de alguém a tal ponto que a pessoa se sente nada sem isso é a codependência que vem nos manuais.

Musk discorda. Veementemente. “Não é verdade”, diz com petulância. “Jamais serei feliz sem ter alguém. Ir dormir sozinho mata-me.” Hesita, abana a cabeça, tem uma quebra, continua. “Não é que eu não conheça a sensação. Estar numa grande casa vazia, os passos a ressoar no hall, ninguém mais ali — e ninguém na almofada ao lado da nossa. F…! Numa situação assim, como é que conseguimos ser felizes?” Há verdade no que ele está a dizer. Estar no topo é solitário. Mas não para todos. É solitário no topo para aqueles que estavam solitários lá em baixo.

“Quando eu era criança, havia uma coisa que eu dizia”, continua Musk. O seu aspeto é rígido, mas no brilho dos olhos e no tremor dos lábios é visível uma onda de emoção a bater nas paredes que a retêm. “Não quero nunca estar sozinho — era o que eu dizia.” A sua voz baixa até um murmúrio. “Não quero estar sozinho.”

Círculos vermelhos formam-se à volta dos seus olhos. Olha em frente e fica em silêncio. Musk é um titã, um visionário, uma alavanca humana que empurra inevitabilidades históricas maciças para a frente — o tipo de pessoa que aparece apenas algumas vezes num século —, mas neste momento parece uma criança com medo de ser abandonada. Poderá estar aí a origem das superambições dele, mas falaremos disso mais à frente. Entretanto, Musk tem algo que me quer mostrar.

“Se disser alguma coisa sobre o que está prestes a ver vai custar-nos milhares de milhões”, diz levantando-se da secretária. “E você irá para a cadeia.”

Visionário. Conseguiu convencer o mundo da sua capacidade para atingir objetivos tão elevados que, na boca de outra pessoa, seriam considerados fantasias

Visionário. Conseguiu convencer o mundo da sua capacidade para atingir objetivos tão elevados que, na boca de outra pessoa, seriam considerados fantasias

FOTO Benjamin Lowy/Getty Images

A atração turística mais interessante do condado de Los Angeles não vem em muitos guias de viagem. Fica na cidade muito pouco turística de Hawthorne, junto à SpaceX.

Se percorrer o Crenshaw Boulevard desde o Jack Northrop Boulevard até à Rua 120, o que verá é uma cidade do futuro em construção. É a Musk City, uma realidade alternativa, um triunfo de imaginação futurista mais aliciante do que qualquer coisa num parque Disney. No lado oeste da cidade, um foguetão de 47,5 metros paira sobre a sede da SpaceX, simbolizando o sonho de viagens interplanetárias relativamente baratas. Este particular propulsor de foguetão é o primeiro na história humana que foi lançado no espaço e a seguir recuperado intacto após a separação para tornar a ser novamente lançado.

No lado leste da rua, um estacionamento dos empregados foi escavado e transformado no primeiro túnel da Boring Company, a solução subterrânea de Musk para os engarrafamentos, e base futura de todos os seus projetos de transporte terrestre. Estendendo-se por quilómetro e meio em paralelo ao Jack Northrop Boulevard, há um tubo de vácuo branco. É a pista de testes para o Hyperloop, a forma de viajar cidade a cidade em alta velocidade que Musk inventou. No seu conjunto, os sonhos da cidade Musk prometem ligar o planeta e o sistema solar de formas que vão mudar profundamente a relação da Humanidade com duas das facetas mais importantes da sua realidade: a distância e o tempo. Mas há um edifício em particular na cidade que poucos visitaram, e é onde Musk me leva. É o estúdio de design da Tesla, onde ele deve inspecionar o camião Tesla e outros protótipos de veículos futuros com a sua equipa de designers e engenheiros.

Um guarda cá fora leva o meu telefone e o meu gravador, e recebo o velho papel e caneta para tirar notas. Musk segue pelo edifício adentro e revela o camião Tesla que visa ajudar a indústria de camionagem a aderir ao verde. (Musk anda mesmo a pensar criar um jato elétrico supersónico, com descolagem e aterragem vertical, no futuro.) Quatro membros-chave da equipa Tesla estão presentes — Doug Field, JB Straubel, Franz von Holzhausen, Jerome Guillen —, olhando excitados para Musk, que explora uma nova configuração do lugar do condutor pela primeira vez.

Guillen explica a ideia por trás do camião: “Pensámos: o que é que as pessoas querem? Querem fiabilidade. Querem o custo mais baixo. E querem conforto para o condutor. Portanto, imaginámos o camião.” Isto é um exemplo perfeito de ideia que aspirantes a visionários inspirados por Musk adoram como uma religião. Pensamento assente em primeiros princípios. Por outras palavras, se deseja criar ou inovar, comece com uma folha limpa. Não aceite nenhumas ideias, práticas ou padrões só porque toda a gente o faz. Por exemplo, se quiser construir um camião, antes de mais tem de poder levar carga de um sítio para outro, e de seguir as leis da física tal como existe. Tudo o resto é negociável, incluindo regulamentações oficiais. Desde que estejamos cientes de que o objetivo não é reinventar o camião, mas criar o melhor possível, seja ou não parecido com camiões do passado. Como resultado desta forma de pensar, Musk consegue ver uma indústria muito mais objetivamente do que outros que têm passado a vida toda nesse campo.

“Disseram-me literalmente que era impossível e que eu era um grande mentiroso”, recorda Musk sobre os primeiros dias da Tesla. “Mas agora tenho um carro e você pode conduzi-lo. Não é como a porcaria de um unicórnio. É real. Dê uma volta. É espantoso. Como se pode continuar em negação?”

Um triste facto da natureza humana é que, quando as pessoas formam a sua opinião sobre uma coisa tendem a não a modificar — mesmo quando confrontadas com factos em sentido contrário. “É muito não científico”, diz Musk. “Existe esta coisa chamada física, este método científico que é de facto bastante eficaz a descobrir a verdade.”

O método científico é uma expressão que Musk usa com frequência quando lhe perguntam como teve uma ideia, resolveu um problema ou decidiu começar um negócio. Eis como ele o define para estes propósitos, essencialmente nas suas palavras:

1. Formule uma questão.

2. Reúna tantas provas quanto possível sobre ela.

3. Desenvolva axiomas baseados nas provas, e tente atribuir uma probabilidade de verdade a cada uma.

4. Tire uma conclusão baseada na coerência a fim de determinar: são estes axiomas corretos, são relevantes, levam necessariamente a esta conclusão, e com que probabilidade?

5. Tente desmentir a conclusão. Procure refutação de outros para ajudar a quebrar ainda mais a conclusão.

6. Se ninguém conseguir invalidar a sua conclusão, então provavelmente estará correto. Mas não estará correto de certeza.

“É o método científico”, conclui Musk. “E é realmente útil para perceber as coisas difíceis.”

“Mas a maioria das pessoas não o usa”, diz. Embarcam em falsas esperanças. Ignoram contra-argumentos. Formam conclusões baseadas naquilo que outros estão ou não a fazer. O raciocínio que resulta “é verdade porque eu disse que é verdade, não por ser objetivamente verdade”.

“A intenção fundamental da Tesla, ou pelo menos a minha motivação”, explica na sua voz aos solavancos, “foi acelerar o desenvolvimento da energia sustentável. Foi por isso que deixei as patentes abertas. É a única forma de melhorar a transição para a energia sustentável”.

“As alterações climáticas são a maior ameaça que a Humanidade enfrenta neste século, à parte a inteligência artificial”, continua. “Estou sempre a dizer isto às pessoas. Odeio ser a Cassandra, mas é tudo muito divertido até alguém perder a porcaria de um olho. Esta visão (das alterações climáticas) é partilhada por praticamente toda a gente não maluca na comunidade científica.”

Nos 20 minutos seguintes, Musk examina o camião Tesla. Começa por comentar os detalhes técnicos, mesmo alguns tão minuciosos como as vantagens e desvantagens dos diferentes tipos de soldadura. A seguir passa ao design, especificamente a um elemento de conforto do condutor que não vamos referir aqui, devido à já referida ameaça de irmos parar à cadeia. “Talvez ninguém o compre por causa disto, mas se é para fazer um produto, faça-se bonito”, diz ele à equipa. “Mesmo que não afete as vendas, quero que seja bonito.”

criado por livros e a seguir pelos pais

Segundo a melhor estimativa de Musk, as nossas personalidades devem ser 80% natureza e 20% ambiente. Qualquer que seja a proporção, se queremos perceber o futuro que Musk está a construir, é essencial compreender o passado que o construiu, incluindo os seus medos da extinção humana e de ficar sozinho.

Nos primeiros oito anos de vida, Musk viveu com a mãe, Maye, uma dietista e modelo, e o pai, Errol, um engenheiro, em Pretória, na África do Sul. Raramente os via. “Não tive uma ama nem nada”, recorda. “Tinha só uma empregada que estava lá para garantir que eu não partia nada. Não estava, por assim dizer, a vigiar-me. Eu andava a fazer explosivos e a ler livros e a construir foguetões e a fazer coisas que me podiam ter morto. Fico chocado de ainda ter todos os meus dedos.” Levanta as mãos e examina-as. A seguir baixa os dedos. “Fui criado por livros. Livros e a seguir os meus pais.”

Alguns desses livros explicam o mundo que está a construir, em especial a série Fundação de Isaac Asimov. Os livros centram-se no trabalho de um visionário chamado Hari Seldon, que inventou um método científico para prever o futuro, baseado no comportamento das multidões. Ele antevê uma Idade das Trevas que durará 30 mil anos, e concebe um plano que envolve instalar colónias científicas em planetas distantes para ajudar a civilização a mitigar esse cataclismo inevitável. “Asimov teve de certeza influência, pois fazia sérios paralelos com o ‘Declínio e Queda do Império Romano’ de Edward Gibbon, mas aplicado a uma espécie de moderno império galáctico”, explica Musk. “A lição que tirei dele foi que devemos tomar uma série de ações suscetíveis de prolongar a civilização, minimizar a probabilidade de uma idade negra, se houver uma.” Musk tinha cerca de dez anos na altura, e mergulhou na sua própria idade negra pessoal. Tinha recentemente feito um gesto que mudou a sua vida. Foi uma decisão errada que veio de um lugar certo.

Aquando da separação dos pais dois anos antes, ele e os irmãos mais novos — Kimbal e Tosca — tinham ficado com a mãe. Mas, conta Musk, “fiquei com pena do meu pai, porque a minha mãe tinha os três filhos. Ele estava triste e solitário. Pensei, posso fazer-lhe companhia. Para, enquanto um filme inteiro parece atravessar-lhe a mente. “Sim, estava triste pelo meu pai. Mas na altura não compreendia realmente que tipo de pessoa ele era.”

Dá um longo suspiro triste, e diz sobre ter ido viver com o pai: “Não foi boa ideia.”

Elon explica que Errol tem um QI extremamente elevado — “brilhante na engenharia, brilhante” — e foi supostamente a pessoa mais nova a obter uma qualificação de engenheiro profissional na África do Sul. Quando Elon foi morar com ele em Lone Hill, um subúrbio de Joanesburgo, Errol estava, segundo ele próprio conta, a ganhar dinheiro nos mundos muitas vezes perigosos da construção e da mineração de esmeraldas. Às vezes tanto dinheiro que nem conseguia fechar o seu cofre, garante.

“Sou naturalmente bom em engenharia e é porque herdei isso do meu pai”, diz Musk. “Aquilo que é muito difícil para outros é fácil para mim. Durante algum tempo, pensava que as coisas eram tão óbvias que toda a gente as sabia.”
“Bem, como funcionam os fios numa casa. E um disjuntor, e a corrente alterna e a corrente contínua, o que eram amperes e volts, como misturar um combustível e oxidantes para criar explosivo. Eu achava que toda a gente sabia disso.”

Sucesso. “The New York Times” chamou-lhe “provavelmente o empresário mais bem sucedido e mais importante do mundo”

Sucesso. “The New York Times” chamou-lhe “provavelmente o empresário mais bem sucedido e mais importante do mundo”

FOTO William Callan/Getty Images

Mas havia outro lado do pai de Musk que foi igualmente importante para o tornar quem ele é. “Era um ser humano tão horrível”, partilha Musk. “Não faz ideia.” A sua voz treme e ele refere algumas coisas, mas sem entrar em detalhes específicos. “O meu pai faz planos cuidadosamente pensados para o mal”, diz. “Ele planeia o mal.”

Além do abuso emocional, havia abuso físico?

“O meu pai não era fisicamente violento comigo. Só foi fisicamente violento quando eu era muito novo” (Errol respondeu via e-mail que apenas deu “palmadas” em Elon uma vez, “no rabo”).

Enquanto Elon fala do pai, os seus olhos vão ficando vermelhos. “Não faz ideia de quão mau ele é. Praticamente todos os crimes em que possa pensar, ele cometeu. Quase todas as coisas más em que possa pensar, ele fez. Um...” Há claramente algo que ele quer partilhar, mas não consegue dizer as palavras, pelo menos não para ficarem registadas “É tão horrível, não pode acreditar.”

Lágrimas escorrem-lhe silenciosamente pela cara. “Não me lembro da última vez que chorei.” Vira-se para Teller a pedir confirmação. “Tu nunca me viste chorar.”

“Não”, diz Teller. “Nunca te vi chorar.”

O fluxo de lágrimas para tão de repente como começou. E, uma vez mais, Musk tem o rosto de pedra, frio, impassível, mas gentil que é familiar ao mundo exterior.

Agora, porém, ficou claro que não é o rosto de alguém sem emoções, e sim o de alguém com muitas emoções que teve de reprimir para conseguir sobreviver a uma infância dolorosa.

Quando lhe pergunto sobre crimes cometidos, o pai de Musk diz que jamais magoou ou ameaçou intencionalmente ninguém, exceto naquele caso em que, diz ele, disparou e matou três de cinco ou seis pessoas que entraram em sua casa, sendo mais tarde absolvido por o seu ato ter sido considerado autodefesa.

No seu e-mail, Errol escreve: “Fui acusado de ser um gay, um misógino, um pedófilo, um traidor, um rato, um merdas (com frequência), um bastardo (por muitas mulheres cujas atenções não retribuí) e muito mais. A minha própria (maravilhosa) mãe disse-me que eu não tinha escrúpulos e devia aprender a ser mais ‘humano’”. Mas, conclui, “amo os meus filhos e faria tudo por eles”.

Já adulto, Musk, com o mesmo otimismo com que tinha ido viver com o seu pai em criança, levou-o e à sua então mulher, mais os filhos deles, para Malibu. Comprou-lhes uma casa, carros e um barco. Mas o pai não tinha mudado, diz Elon, e ele cortou a relação.

“Na minha experiência, não há nada que se possa fazer.” Diz ter aprendido finalmente a lição de que o seu pai nunca mudaria. “Nada, nada. Eu bem queria. Tentei tudo. Ameaças, recompensas, argumentos intelectuais, argumentos emocionais, tudo para tentar mudá-lo para melhor, e ele... de maneira nenhuma. Só ficou pior.”

Algures neste vínculo de trauma encontra-se a chave para a visão que Elon tem do mundo — criação contra destruição, ser útil contra ser danoso, defender o mundo contra o mal.

Na escola, as coisas não iam muito melhor do que em casa. Musk era uma vítima brutal de bullying — até aos 15 anos.

“Durante imenso tempo, fui o miúdo mais novo e mais pequeno na turma, pois acontece que o meu aniversário cai quase no último dia em que nos aceitam na escola, 28 de junho. E eu desabrochei tardiamente. Portanto, fui o mais novo e o mais pequeno, durante anos e anos. Os gangues da escola andavam a caçar-me — literalmente a caçar-me!”

Musk pousou os livros e começou a aprender a defender-se — karaté, judo, luta livre. O treino físico, combinado com um salto no crescimento que o levou até ao metro e oitenta aos 16 anos, proporcionou-lhe alguma confiança. Conforme ele diz, “passei a dar tão duro como me davam a mim”.

Quando lutou com o maior bruto da escola e o deitou abaixo com um murro, reparou que ele nunca mais se voltava a meter consigo. “Ensinou-me uma lição: se vais lutar com um bruto, não tentes apaziguá-lo.” Musk diz as palavras seguintes com força. “Dá-lhe um murro no nariz. Os brutos procuram alvos que não respondam. Se te transformares num alvo difícil e lhe espetares um murro no nariz, ele pode-te dar uma tareia mas nunca mais se mete contigo.”

Aos 17 anos, Musk deixou a universidade e mudou-se para o país natal da sua mãe, o Canadá. Mais tarde, obteve passaportes para a sua mãe, o irmão e a irmã se juntarem a ele lá. O pai não lhe desejou boa sorte, recorda. “Ele disse num tom bastante agressivo que eu ia estar de volta em três meses, que nunca ia conseguir, que nunca me havia de tornar nada. Chamou-me sempre um idiota. A propósito, isso é a ponta do icebergue.”

problemas familiares

Após Musk ter sucesso, o seu pai reclamou crédito por o ajudar — a tal ponto que isso aparece como facto no artigo da Wikipédia sobre Elon. “Ele alega que nos deu uma data de dinheiro, a mim e ao meu irmão, para começarmos a nossa primeira empresa (a Zip2, que fornecia guias online de cidades a jornais). Não é verdade. Ele foi irrelevante. O meu irmão e eu pagámos a universidade com bolsas, empréstimos e tendo dois empregos ao mesmo tempo. O financiamento que angariámos para a nossa primeira empresa veio de um pequeno grupo casual de angel investors [literalmente, investidores-anjo, os que investem em empresas na fase inicial] em Silicon Valley.

A história da carreira de Musk domina a sua secretária. Há um objeto de quase cada uma das suas companhias, até uma caneca da X.com, o primeiro banco online que ele criou e que se tornaria o PayPal. A venda da Zip2 resultaria num cheque de 22 milhões — €18,65 milhões — pago diretamente a Musk, que usou parte para começar o X.com. Dos cerca de 180 milhões [€152 milhões] que lhe rendeu a venda da PayPal, 100 serviram para fundar a SpaceX, 70 foram para a Tesla, 10 para a Solar City, e um pouco ficou para si próprio. Um dos mal-entendidos que mais irrita Musk é ser estereotipado, seja como um Tony Stark [o personagem de banda desenhada conhecido como Homem de Ferro] da vida real ou como o segundo advento de Steve Jobs. Quando, numa sessão fotográfica, lhe pediram para usar uma camisola preta de gola alta, a imagem de marca de Steve Jobs, reagiu. “Se estivesse a morrer e tivesse uma camisola de gola alta vestida”, diz, “com o meu último alento, despiria a gola alta e tentaria atirá-la o mais possível para longe do meu corpo”.

Então o que é ele?

“Procuro fazer coisas úteis”, explica. “É uma aspiração simpática. Útil significa que é de valor para o resto da sociedade. São coisas úteis que funcionam e melhoram as vidas das pessoas, fazem o futuro parecer melhor e são de facto, também, melhores. Acho que devemos tentar melhorar o futuro.”

Quando lhe peço que defina ‘melhor’, Musk desenvolve: “Seria melhor se mitigássemos os efeitos do aquecimento global e tivéssemos ar mais limpo nas nossas cidades e não estivéssemos a extrair vastas quantidades de carvão, petróleo e gás em zonas do mundo que são problemáticas e que de qualquer forma se vão esgotar. E se fôssemos uma espécie multiplanetária, isso reduziria a possibilidade de um único evento, seja natural ou por obra humana, extinguir a civilização que conhecemos, tal como aconteceu aos dinossauros. O registo fóssil mostra cinco eventos de extinção maciços. As pessoas não entendem estas coisas. Quem não for uma barata ou um cogumelo — ou uma esponja — está lixado.” Ri-se com força. “É um seguro de vida, e torna o futuro bastante mais inspirador se andarmos lá em cima pelas estrelas e pudermos mudar-nos para outro planeta se quisermos.”

FOTO Stephen Lam/REUTERS

É esta, então, a ideologia de Musk. E embora básica, é de facto bastante rara. Pensem nos outros nomes que associamos a evolução neste século. São pessoas que construíram sistemas operativos, aparelhos, websites ou plataformas de redes sociais. Mesmo quando não começou assim, a ideologia na maior parte dos casos tornou-se: como posso converter a minha empresa no centro do mundo dos meus utilizadores? Em consequência, sites de redes sociais como o Facebook e o Twitter usam um certo número de truques para ativar os centros de recompensa no cérebro de um utilizador.

Se os empregados de Musk lhe sugerissem fazer algo semelhante, ele provavelmente olharia para eles como se fossem loucos. Esse género de pensamento não computa. “É realmente inconsistente não sermos como queremos que o mundo seja”, diz, “e por meio de alguma artimanha, operarmos segundo um código moral enquanto o resto do mundo opera segundo outro. Obviamente, isto não funciona. Se toda a gente tentar enganar os outros ao mesmo tempo, há uma data de barulho e confusão. É melhor simplesmente ser direto e tentar fazer coisas úteis”.

Ele fala de construir uma base na Lua e de continuar a financiar a SpaceX criando foguetões de passageiros capazes de viajar para qualquer cidade do mundo em menos de uma hora, uma forma de transporte a que chama Terra-Terra. Pergunta o que é que, entre aquilo que ele acredita, surpreende as pessoas.

“Acho que ser preciso a respeito da verdade funciona. Verdadeiro e preciso. Procuro dizer às pessoas que comigo não precisam de ler entre as linhas. Eu digo as linhas!”

Noutra ocasião, vejo Musk na reunião semanal da equipa de engenheiros da SpaceX, onde oito especialistas se sentam à volta de uma mesa em cadeiras altas vermelhas, mostrando a Musk um PowerPoint com as últimas atualizações do design do veículo destinado a Marte. Mantendo-se a par dos detalhes técnicos com algumas das mentes mais brilhantes do aeroespacial, Musk também acrescenta um elemento que vai além da logística e da engenharia.

“Assegurem-se de que não parece feio”, aconselha a certa altura. E mais tarde: “A estética deste não é assim tão boa. Parece um lagarto assustado.” E, num momento caracteristicamente sardónico: “Quando aterrarmos em Marte, queremos que a lista daquilo com que nos temos de preocupar seja suficientemente curta para não estarmos mortos.”

Em termos gerais, há um tema nos comentários de Musk. Primeiro, as coisas têm de ser úteis, lógicas e cientificamente possíveis. A seguir, ele procura melhorar a eficiência a todos os níveis: o que é que as pessoas aceitam como padrão da indústria quando há lugar para melhorias significativas?

Daí pressiona para o produto final ser esteticamente belo, simples, cool e elegante (“Ele detesta costuras”, diz um empregado) e, como Musk diz a certa altura na reunião, “espantoso”. Ao longo deste processo, há um elemento que muito poucas companhias se permitem: personalização. Isto geralmente implica Musk juntar ovos de Páscoa e referências pessoais aos produtos. Por exemplo, fazer o volume do sistema de som no Tesla ir até 11 (em homenagem aos Spinal Tap) ou enviar para o espaço, no primeiro lançamento do Dragon, uma “carga especial” que afinal era uma roda de queijo (em homenagem aos Monthy Python).

Além de tudo isto — mais enervante ou excitante para os empregados de Musk, dependendo de quem fala — é a escala temporal em que ele frequentemente espera que o trabalho seja realizado. Por exemplo, numa sexta-feira em que eu estava de visita, alguns empregados da SpaceX corriam freneticamente de e para o escritório no estacionamento do outro lado da rua. Aconteceu que, durante uma reunião, ele perguntou-lhes quanto tempo demoraria a retirar os carros dos funcionários do parque e começar a escavar o primeiro buraco para o túnel da Boring Company. A resposta: duas semanas.

Musk perguntou porquê. Recolhida a informação necessária, concluiu: “Vamos começar hoje e ver qual é o maior buraco que conseguimos cavar entre agora e domingo à tarde, trabalhando 24 horas por dia.” Três horas depois, os carros tinham desaparecido e havia um buraco no chão. Por outro lado, Musk é conhecido por estabelecer prazos ambiciosos que frequentemente não consegue cumprir.

O Roadster, o Modelo S e o Modelo X atrasaram-se todos em relação ao prazo inicial, e agora o Modelo 3 — com uma lista de espera de quase meio milhão de pessoas — está a ter as suas próprias demoras de produção. Há muitas razões para isso, mas Musk resume: “É melhor fazer algo bom e chegar tarde do que mau e chegar cedo.” Esperem que Musk faça aquilo que diz, ainda que não quando o diz. Porque se ele não puder fazê-lo, não vai fingir o contrário.

a IA não tem remorsos, nem moralidade

“Espero perder”, diz Musk. Ele encontra-se em São Francisco, num prédio de três andares que só recentemente foi mobilado. Antes pertencia à Stripe, o processador de pagamentos por cartão de crédito, mas agora é de Musk, que instalou duas das suas empresas lá: a Neuralink e a OpenAI.

Este é o aspeto que a Tesla ou a SpaceX terão tido quando começaram. Um pequeno grupo de pessoas excitadas a trabalhar com recursos limitados para atingir um objetivo distante e ambicioso. Mas, ao contrário da Tesla e da SpaceX, aqui não há um mapa para chegar aos objetivos, nem eles são assim tão claros.

A OpenAI é uma organização sem fins lucrativos que visa minimizar os perigos da inteligência artificial, enquanto a Neuralink está a trabalhar em formas de implantar tecnologia nos nossos cérebros para criar interfaces mente-computador.

Se estas ideias lhe parecem contraditórias, pense outra vez. A Neuralink permite aos nossos cérebros manterem-se na corrida da inteligência. As máquinas não poderão ultrapassar-nos se tivermos tudo o que elas têm mais tudo aquilo que nós temos. Pelo menos assumindo que aquilo que nós temos é realmente uma vantagem.

É um dia pouco habitual no escritório. Musk está a mostrar um documentário sobre inteligência artificial à equipa da Neuralink. Eles sentam-se espalhados por sofás e cadeiras, e Musk expõe-lhes as probabilidades não animadoras daquilo que assumiu como missão: tornar a IA segura. “Talvez haja uma chance de sucesso de cinco a dez por cento”, diz.

O desafio que enfrenta com a OpenAI é duplo. Primeiro, o problema de construir algo mais inteligente do que nós é que... isso é mais inteligente do que nós somos. Acrescente-se o facto de que a IA não tem remorsos, nem moralidade, nem emoção — e a Humanidade pode estar bem lixada. Esta é a segunda oportunidade do bom filho contra o pai sem remorsos que ele não conseguiu mudar.

O outro desafio é que a OpenAI é uma organização sem fins lucrativos e concorre com os imensos recursos da DeepMind da Google. Musk explica ao grupo que, de facto, investiu na DeepMind com a intenção de manter um olhar vigilante sobre o desenvolvimento da IA na Google.

“O Facebook, a Google e a Amazon — e, provavelmente, a Apple, mas ela parece preocupar-se com a privacidade — têm mais informações sobre nós do que nós próprios recordamos”, explica-me. “Há o risco da concentração de poder. Se a IGA (inteligência geral artificial) representa um nível extremo de poder, devia ser controlada por uns poucos indivíduos na Google, sem qualquer supervisão?”

“Durma bem”, ironiza Musk quando o filme termina. A seguir conduz uma discussão sobre ele, anotando algumas ideias e rejeitando outras sem cerimónia. Enquanto fala, deita a mão a uma tigela, agarra numa pipoca, mete-a na boca e começa a tossir.

“Estamos a falar de ameaças para a Humanidade”, murmura, “e vou morrer sufocado por uma pipoca”.

São 9h da noite numa quinta-feira, e estou à espera de Musk, no foyer da sua casa em Bel Air, para a entrevista final. Uns minutos depois ele desce as escadas, usando uma T-shirt que mostra Mickey Mouse no espaço. Uma mulher alta e loira segue-o.

Fiel às suas palavras, ele não está sozinho.

A mulher afinal é Talulah Riley, a sua segunda esposa. Conheceram-se em 2008 e Musk propôs-lhe casamento após 10 dias juntos. Casaram em 2010, divorciaram-se dois anos depois, voltaram a casar no ano seguinte, pediram novamente o divórcio, retiraram o arquivamento, voltaram a fazê-lo, e finalmente levaram-no até ao fim.

Musk sugere fazermos algo que nele é raro: beber. “A minha tolerância ao álcool não é muito alta”, diz. “Mas costumo ser um ursinho de peluche quando bebo. Um ursinho feliz.”

Prepara dois copos de whisky, e vamos os três para a sala de estar, onde se vê um fonógrafo mecânico Edison, uma máquina Enigma e um rádio de onda curta da Primeira Guerra Mundial. Durante a entrevista, Riley fica no sofá mais próximo, prestando atenção à conversa enquanto vai também olhando para o telemóvel.

Musk está com um humor diferente do que tinha na SpaceX, e isso é algo que quem o conhece repara. Num momento ele pode estar a citar frases favoritas de um desenho animado que acabou de ver na televisão, no momento seguinte dá instruções curtas e detalhadas a alguém, no seguinte ignora-nos enquanto divaga mentalmente, no seguinte pede conselhos sobre um problema, no seguinte pode rir convulsivamente numa tirada humorística de cinco minutos, no seguinte pode comportar-se como se nunca nos tivéssemos conhecido. E aprendemos a não levar nada disso pessoalmente, porque é provável não ter a ver connosco.

Começamos a conversar (ou pelo menos eu tento conversar) sobre IA. Umas semanas antes, Musk tuitara: “Competição por superioridade na IA a nível nacional é a causa mais provável da terceira guerra mundial.”

Quando lhe faço uma pergunta sobre isso, fica irritado. “Não tenho todas as respostas. Não estou a dizer que tenho todas as respostas. Deixe-me ser muito claro sobre isso. Estou a tentar perceber o conjunto de ações que posso tomar e que é mais provável resultarem num futuro bom. Se tiver sugestões a esse respeito, por favor diga-me quais são.”

Riley apoia: “Acho que a forma como foi visto foi ‘Elon Musk diz que vamos todos morrer’, por contraste com ‘Queremos um pouco de regulamentação’.”

Depressa se torna evidente que Musk não está com disposição para falar sobre o seu trabalho. Em lugar disso, tem alguns conselhos retirados da sua experiência pessoal que gostaria de oferecer ao mundo: “Acho que uma pessoa aprende lições ao longo da vida”, começa com um meio sorriso irónico. “E uma lição que aprendi é: não tuíte no Ambien. Fica registado: tuitar com Ambien [Ambien é um conhecido sedativo] é imprudente. Podemo-nos arrepender.”

Agarra um livro de mesa publicado pelo The Onion e começa a folheá-lo, rindo histericamente. “Para entender a verdade essencial das coisas”, teoriza, “acho que podemos procurar no The Onion e ocasionalmente no Reddit”.

A seguir, pergunta excitado: “Alguma vez viu Rick and Morty?” E a conversa passa desse desenho animado para o South Park para os Simpsons e para o livro “The Hitchhikers Guide to the Galaxy”. Uma das frases de Hitchhiker’s, diz Musk, acabou por ser a sua regra de família número um: “Não entre em pânico.” Os miúdos eram bastante ariscos a todo o tipo de coisas”, explica Riley.

“É a nossa outra regra”, continua Musk. “Segurança em terceiro. Não há sequer uma regra número dois. Mas embora não haja nada em segundo lugar, a segurança não vai ser promovida a número dois.”

Somos interrompidos por Teller, o chefe de gabinete de Musk, que o informa de que, enquanto estávamos a falar, a assembleia municipal de Hawthorne terminou um debate de horas com um voto de 4-1 autorizando Musk a escavar o seu túnel três quilómetros adentro.

“Bom”, diz Musk. “Agora podemos escavar para lá da nossa própria linha de propriedade. Escavar como uns demónios!”

Ri-se da expressão, e agora compreendo que Musk não me recebeu para falar dos seus projetos e da sua visão. Não há vantagem nenhuma em falar sobre problemas da ciência a quem não os entende. No fundo, ele só quer descontrair e rir-se do mundo que anda a tentar melhorar.

Quando deixo a sua casa, ainda ouço os risinhos na entrada, e espero que quando a colónia em Marte construir as primeiras estátuas de Musk, não mostrem um homem rígido com uma expressão fechada a olhar para o espaço, mas um ursinho de peluche.

*Tradução de Luís M. Faria