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Internacional

Trump ameaça cortar ajuda externa aos territórios palestinianos por causa de Jerusalém

SAUL LOEB

Embaixadora norte-americana na ONU sugeriu horas antes que os EUA podem vir a cortar o financiamento à agência das Nações Unidas para os palestinianos (UNRWA) por estes terem declarado que os EUA já não mediadores neutros no processo de paz, no rescaldo da decisão do Presidente norte-americano declarar que a disputada cidade é a capital de Israel

O Presidente norte-americano sugeriu na terça-feira à noite que pode vir a cortar os fundos atribuídos aos palestinianos porque estes "já não estão dispostos a negociar a paz", num tweet em que sublinhou que Washington não tem recebido "qualquer estima ou respeito" em troca dessa ajuda externa. A sugestão surgiu um dia depois de Donald Trump ter enviado uma mensagem semelhante ao Paquistão, quando começou o ano a dizer que, em troca dos "milhares de milhões de dólares de ajuda externa" a Islamabade, os EUA só têm recebido "mentiras e dolo".

"Não é só ao Paquistão que pagamos milhares de milhões de dólares para nada, mas também a muitos outros países e outros", escreveu ontem. "Por exemplo, pagamos aos palestinianos CENTENAS DE MILHÕES DE DÓLARES por ano e não obtemos qualquer estima ou respeito. Eles nem sequer querem negociar um há muito esperado tratado de paz com Israel. Tirámos Jerusalém da mesa, a parte mais difícil da negociação, mas Israel, por causa disso, terá de pagar mais. Mas com os palestinianos a dizerem que já não querem negociar a paz, porque é que haveríamos de manter estes pagamentos maciços no futuro?"

A possibilidade de Trump vir a cortar o financiamento é uma resposta ao chefe da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, depois de este ter declarado que os Estados Unidos já não são neutros e que portanto já não se qualificam para mediar as negociações com o Estado hebraico, na sequência da decisão de Trump declarar Jerusalém a capital de Israel e de anunciar que vai mudar a embaixada norte-americana de Telavive para a disputada cidade — um passo inédito até hoje.

A decisão sobre Jerusalém continua a ser contestada pela maioria da comunidade internacional. Em dezembro, uma semana depois do anúncio de Trump, 128 dos 193 países da ONU aprovaram uma resolução contrária à vontade dos Estados Unidos, na qual a decisão dos norte-americanos é descrita como "nula e vazia". Desde a sua criação em 1948, o Estado de Israel defende que Jerusalém é a sua capital por direito, uma posição que foi oficializada num voto parlamentar no Knesset em 1980. Os palestinianos, cujos territórios estão ocupados pelos israelitas desde 1967, continuam a defender que Jerusalém Oriental deve ser a sua capital quando a solução de dois Estados for implementada.

Contra a postura oficial das sucessivas administrações norte-americanas, Trump decidiu há um mês reconhecer formalmente Jerusalém como a capital do Estado hebraico, apesar de avisos de uma série de especialistas, dentro e fora do país, sobre os riscos inerentes a essa tomada de posição. Em resposta a isto, Abbas declarou que "os EUA provaram que são uma mediador desonesto no processo de paz" e sublinhou que Jerusalém é "a capital eterna do Estado da Palestina".

Esta quarta-feira, em resposta à ameaça de Trump, a Organização para a Libertação da Palestina, que integra a Autoridade Palestiniana, acusou Trump de estar "a sabotar a busca pela paz" na região. "Os direitos dos palestinianos não estão à venda", sublinhou o grupo político no Twitter. "Ao reconhecer a Jerusalém Ocupada como a capital de Israel, Donald Trump não só violou a lei internacional [à luz da qual a cidade é tida como um território ocupado] como, sozinho, destruiu os próprios alicerces da paz, aceitando a anexação ilegal da cidade por Israel. Não seremos chantageados. O Presidente Trump sabotou a nossa busca pela paz, a liberdade e a justiça. Agora atreve-se a culpar os palestinianos pelas consequências das suas ações irresponsáveis."

Os tweets de Trump na terça-feira surgiram horas depois de a embaixadora dos EUA na ONU ter avisado que, se os palestinianos não aceitarem continuar a negociar com Israel, Washington vai cortar os fundos à agência da ONU para o povo da Palestina (UNRWA), um braço da organização internacional que gere programas de educação, saúde e apoio social nos territórios desde 1949, um ano depois da fundação de Israel no território.

Até agora, os norte-americanos eram os que mais dinheiro contribuíam para a agência, quase 370 milhões de dólares (307 milhões de euros) em 2016 — 30% do total de fundos operacionais e mais do dobro do dinheiro fornecido pelo segundo maior dador em 2016, a União Europeia. Em conferência de imprensa, já depois de ter sugerido que a administração Trump pode vir a cumprir a promessa de reduzir a sua contribuição para o Orçamento da ONU, Nikki Haley declarou ontem: "O Presidente disse basicamente que não quer dar fundos adicionais, ou que quer suspender o financiamento [da UNRWA], até que os palestinianos aceitem voltar à mesa de negociações."

Na mesma conferência, Haley condenou a tomada de posição da maioria dos Estados-membros da ONU, classificando a resolução não-vinculativa como "pouco útil para a situação". "Os palestinianos agora terão de mostrar a sua vontade de vir para a mesa. Neste momento, não estão a fazê-lo mas pedem ajuda. Não vamos ajudar, vamos garantir que eles voltam à mesa [de negociações]."