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Repressão dos ativistas anglófonos nos Camarões resulta em mortes e detenções

Uma refugiada no centro de acolhimento da aldeia de Agbokim Waterfalls, que faz fronteira com os Camarões

REUTERS TV

As Nações Unidas estão à espera de pelo menos 40 mil refugiados dos Camarões na Nigéria, pessoas em fuga à repressão dos grupos separatistas das regiões anglófonas

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

O que começou como um simples pedido de que a língua inglesa passasse a ser usada nas escolas públicas e tribunais das duas regiões anglófonas dos Camarões acabou numa crise na qual morreram “dezenas de pessoas, centenas foram presas e milhares fugiram para território nigeriano”.

O pedido foi entendido como um ato descriminatório e desencadeou manifestações de milhares de pessoas, que marcharam contra a discriminação e a favor da maioria francófona em Bamenda, a capital de uma das duas regiões anglófonas.

No próximo outono haverá eleições nos Camarões e se a via do diálogo não for acionada é previsível que todo o país acabe desestabilizado, adianta um relatório da organização não-governamental de prevenção de conflitos International Crisis Group (ICG), datado de 21 de dezembro.

“Contando com apoio internacional, o Governo deveria dar início a um diálogo com os líderes anglófonos pacifistas para discutir a descentralização e a governação do país”, lê-se no documento intitulado “Uma revolta em formação”.

O ICG alega ter “soado o alarme” sobre o risco de insurreição em agosto, e a crise, “que esteve a desenhar-se ao longo de um ano”, escalou em novembro quando as forças de defesa sofreram ataques armados.

“Desde então, pelo menos 16 soldados e polícias foram mortos em 13 ataques liderados pelos separatistas”, lê-se no relatório onde se sublinha o facto de este número equivaler a quatro vezes o das vítimas militares feitas pelo grupo terrorista que atua no nordeste da Nigéria em igual período.
Os 12 meses referidos pelo ICG começaram com as manifestações pacíficas de advogados em Bamenda após a nomeação de pessoal francófono para os tribunais, conta o jornal britânico “The Guardian”. Logo se lhes juntaram professores argumentando com a contratação de professores francófonos para as escolas com formação insuficiente em língua inglesa.

Os protestos passaram rapidamente à violência e “Como de costume, o nosso Governo que não faz ideia como resolver um conflito, virou-se para a repressão”, disse Ngo Mbe, diretor de uma coligação de defensores dos direitos humanos na África Central chamada Rehac, citado pelo “Guardian”.

O site francófono Cameroon Tribune chama aos eventos “atos terroristas” e afirma esta quarta-feira que a autoridade do Estado foi restaurada no sudoeste.

“Grupos armados, que reivindicam pertencer a uma organização secessionista, assassinaram uma dezena de militares, gendarmes e polícias em diversas localidades de Manyu [unidade administrativa da região sudoeste]”, lê-se no relato feito pelo responsável do ministério da Defesa (Mindef), Joseph Beti Assomo, depois de três dias de visita à região, publicado naquele site.

“Os soldados do Mindef ficaram muito contentes por receber diretamente as felicitações do Presidente da República, que reconheceu que as operações contra os terroristas na região sudoeste tiveram excelentes resultado”, lê-se ainda.

Na mensagem ao país por ocasião do ano novo, o Presidente Paul Biya citou o diálogo como o melhor meio para resolver a crise e prometeu descentralizar o poder, após meses de atitude beligerante.

No entanto, escreve o “Guardian”, não citou os 40 mortos nem os 100 feridos que resultaram dos protestos pacíficos de 1 de outubro de 2017. Foi o dia em que ativistas da Frente Unida dos Camarões do Sul declararam simbolicamente como independentes as duas regiões anglófonas, chamando-lhes Ambazónia.

A repressão que se seguiu àquele dia em cidades e vilas fronteiriças causou o êxodo para o estado de Cross Rivers, na Nigéria, de pelo menos sete mil pessoas. Ativistas dizem que o número pode chegar a 20 mil e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados está a preparar-se para ver chegar pelo menos 40 mil pessoas em fuga.

Ativistas dos direitos humanos adiantam números muito mais altos que os oficiais: 100 mortos e mil detidos.