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Internacional

Criar pontes a partir da influência regional

Achadinha, um bairro da Praia com numerosa população a clamar por requalificação e mais segurança

Cristina Peres

Investir a partir da geografia favorável do país para ser plataforma de ligação à Europa, América e África

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Não há inauguração em Cabo Verde sem festa e não há festa nas ilhas sem dança. É por isso essencial que um primeiro-ministro acrescente à informalidade da roupa escolhida para a ocasião um ritmo de passo capaz de dar a ilusão de pegar um par aqui, outro ali, enquanto conversa com “todos” ao seguir por entre a multidão animada.

Isto se o político quiser manter-se popular, o que é o caso de Ulisses Correia e Silva, tão aclamado na inauguração da requalificação da encosta da Achadinha e Eugénio Lima, como numa sondagem publicada recentemente na qual obteve sete pontos numa escala de dez.

O primeiro-ministro encabeçou a procissão da numerosa comitiva no trajeto que atravessava o mar de casas que cobrem aquelas duas encostas da Cidade da Praia. Os elementos das polícias nacional e municipal que vigiavam o desfile ficaram mais visíveis ali na zona onde o chefe do Governo descerraria a placa comemorativa na companhia do presidente da CMP, Óscar Santos. Presença discreta, a da polícia, porém firme, mesmo considerando a informalidade cabo-verdiana.

Ao lado da parede expressamente pintada de branco para receber a placa esperavam comes e bebes sobre uma mesa posta. E um palco orlado por potentes colunas de som antecipava um final de dia de intenso funaná.

Foi pelo meio do casario contínuo que o projeto de requalificação realizado pela câmara municipal da capital abriu uma escadaria para funcionar como via de drenagem das águas das chuvas e passagem das pessoas entre os dois bairros “informais”. Até agora, os milhares de moradores tinham de dar a volta grande para irem de um lado ao outro. A dificuldade de acesso naquele amontoado de casas coladas umas às outras resumia-se nas únicas letras à vista além das que cobriam a lápide camarária. “Mais segurança”, lia-se numa folha grande de papel, improvisando um cartaz exposto pelos moradores para aproveitar a ocasião.

A “obra foi difícil”. Tão evidente como a relevância de requalificar estes bairros, dizia Rafael Fernandes, do pelouro do urbanismo da CMP: “Trabalhamos para as pessoas e obras como esta mudam a vida delas. É muito importante para a conciliação das pessoas e para a segurança”.

Falar pouco e fazer

“Apostamos no crescimento inclusivo”, diria mais tarde ao Expresso um primeiro-ministro resoluto na decisão política do seu Governo em realizar a inclusão territorial das ilhas e de fazer a obra chegar às pessoas. Vale-lhe a experiência de quase dois mandatos à frente da CMP interrompidos para tomar conta da liderança do MdP, Movimento para a Democracia, e candidatar-se ao cargo que agora ocupa há menos de um ano e meio. Ulisses Correia e Silva tem fama de ser pessoa de poucas palavras. Uns dizem que é timidez. Outros enaltecem-lho em virtude: “O Ulisses não fala, faz”.

Confrontado com essa reputação, o primeiro-ministro defende a eficácia sobre a comunicação. Quer à força modernizar um país vulnerável a choques climáticos que mal recupera das cheias de 2016 e já tem de antecipar as consequências da seca de 2017. Se chovesse por esses dias, ainda daria para assegurar alguns pastos fundamentais para alimentar o gado. A continuar assim, “tudo perdido, nem milho, só feijão pedra e feijão congo de cultura de sequeiro”, diz Franco Freire, motorista profissional que divide o tempo entre o serviço ao Governo e ao seu camião, o que lhe permite descrever as estradas de Santiago de cor.

As ilhas herdaram um forte investimento em infraestruturas dos três governos anteriores do PAICV. Estradas, barragens, aeroportos, portos são agora base para planos futuros e uma dor de cabeça pelo desperdício do que foi mal feito. Com o MpD em ciclo pleno no Governo e na câmara da capital (foi também o partido que apoiou a candidatura independente do Presidente Jorge Carlos Fonseca em 2011), Ulisses vê nisso uma oportunidade. “É favorável, mas é uma grande responsabilidade”. Mesmo assim, não hesitou em declarar ao jornal espanhol “El País” que precisaria de (apenas) cinco anos para levar o país a dar “o salto” e comprometeu-se a alcançar um crescimento médio de 7% ao ano no final do mandato, em 2021.

“Num país pobre”, quando as coisas pioram, piora tudo, “aumentam a criminalidade, a prostituição e os problemas sociais”, diz o artista visual César Schofield Cardoso, atualmente envolvido no projeto de turismo inclusivo, comunitário e sustentável na Achada Grande Frente e Lém Ferreira, na Praia, Xalabas di Komunidadi. A pressão do turismo de negócios e dos grandes empreendimentos na capital tende a segregar os habitantes de bairros desfavorecidos, estimulando grupos de artistas e ativistas sociais a desenvolver projetos de nicho que permitam inscrever as suas populações na atualidade do país. “Cabo Verde está num ponto de viragem, ou dá um salto em frente ou perde-se”, conclui Schofield Cardoso.

O Governo acredita que haverá lugar para todos nos planos que traçou e executa em passo acelerado. O Estado e os municípios estão implicados no investimento privado no turismo a três velocidades - all inclusive no Sal e Boavista, business na Praia e de menor escala. Para isso, o primeiro-ministro quer desenvolver cidades atrativas, uma produção mais exigente que forneça a hotelaria e melhor mobilidade entre as ilhas. De volta à sua experiência de autarca, argumenta com o sucesso dos pequenos gestos que, com pouco, tiveram ganhos grandes. À segunda, as pessoas acreditam e ficam do lado dos políticos, defende. Tem pouco mais de dois anos e meio para consegui-lo.