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O dia em que Donald Trump ameaçou todos os países do mundo

Estados Unidos estão isolados na tomada de posição sobre Jerusalém

Drew Angerer

Esta quinta-feira, a assembleia-geral da ONU vai votar uma resolução não vinculativa para rejeitar a declaração feita pelo Presidente norte-americano sobre Jerusalém ser a capital de Israel. A embaixadora dos EUA avisou os outros 192 Estados-membros que Trump lhe pediu “os nomes” de todos os que derem luz verde ao documento

A embaixadora norte-americana nas Nações Unidas avisou na quarta-feira os restantes 192 países da organização que Donald Trump vai prestar atenção à forma como cada um vai votar esta quinta-feira à tarde uma resolução na assembleia-geral que rejeita a declaração de Jerusalém como capital de Israel.

O aviso foi feito primeiro numa carta enviada por Nikki Haley a todas as delegações da ONU, incluindo aos aliados europeus dos Estados Unidos, na véspera da votação simbólica (a resolução é não-vinculativa). "Enquanto consideram como votar, quero que saibam que o Presidente e os EUA vão levar esta votação a peito", lê-se na carta, citada pelo "The Guardian". "O Presidente vai acompanhar esta votação de perto e pediu-me que o informe sobre todos aqueles que votarem contra nós."

Logo a seguir, Haley foi ao Twitter assumir publicamente a ameaça, escrevendo: "Na ONU, é-nos sempre pedido que demos mais e mais. Por isso, quando tomamos uma decisão com base na vontade do povo americano sobre onde sediar a NOSSA embaixada não esperamos que aqueles que nos ajudarem nos apontem a mira. Na quinta vai haver um voto a criticar a nossa escolha. Os EUA vão tomar nota dos nomes [de quem votar contra]."

A ameaça surge duas semanas depois de Trump ter declarado oficialmente Jerusalém como a capital de Israel e ter anunciado que pretende mudar para a disputada cidade a embaixada dos EUA em Israel, até agora instalada em Telavive tal como as missões diplomáticas de todos os países que mantêm relações com o Estado hebraico.

A beligerância dos norte-americanos reflete a crescente frustração da administração Trump sobre o estatuto de Jerusalém, cidade sagrada para judeus mas também para muçulmanos e cristãos. Quando o Presidente anunciou a mudança, contra décadas de consenso diplomático, a comunidade internacional uniu-se numa condenação em uníssono ao governo norte-americano, por estar a pôr em causa o processo de paz no Médio Oriente.

Sob as sucessivas resoluções aprovadas pela ONU ao longo dos anos, Jerusalém Oriental é tida como um "território ocupado" cujo estatuto deve ser definido entre Israel e a Palestina nessas negociações. A zona leste, onde os palestinianos almejam ter a sua capital numa futura solução de dois Estados, está ocupada desde 1967 pelas forças israelitas; os hebraicos, por sua vez, defendem desde a fundação do país em 1948 que a cidade é sua por direito, uma postura que foi oficializada pelo Knesset (parlamento) em 1980 mas nunca reconhecida por qualquer país do mundo até este mês.

Na segunda-feira, os EUA usaram o seu poder de veto pela primeira vez em seis anos no Conselho de Segurança da ONU para bloquear uma resolução que pretendia anular a decisão de Trump sobre o estatuto de Jerusalém — uma votação que provou o quão isolada a administração Trump está neste ponto.

Todos os outros 14 países com assento no Conselho, entre eles grandes aliados de Washington como o Reino Unido, França, Japão, Itália e Ucrânia, aprovaram a resolução apresentada pelo Egito. No rescaldo desse voto, Haley condenou o "insulto" aos EUA e garantiu que a união de forças entre todos os Estados-membros do Conselho "não será esquecida".

Esta quinta-feira, o assunto será revisitado numa sessão de emergência da assembleia-geral da ONU, na qual os 193 países que integram a organização vão votar uma resolução semelhante mas, no caso, não-vinculativa. Num rascunho do documento, consultado pelo "The Guardian", é pedido a todos que declarem a decisão de Trump "nula e vazia" e insiste-se na ideia de que os países devem evitar quaisquer decisões unilaterais que alterem o estatuto de Jerusalém.

Face à ameaça de Haley, a Bloomberg consultou diplomatas de vários países nos corredores da sede da ONU em Nova Iorque para saber o que pretendem fazer e todos disseram que a carta enviada pela embaixadora dos EUA não terá impacto na sua orientação de voto.

Entretanto, e segundo informações apuradas pela Reuters, Trump estará a preparar-se para fechar a torneira de financiamento aos países, sobretudo os menos desenvolvidos, que votem contra os EUA. "Eles levam centenas de milhões de dólares, até milhares de milhões de dólares, e depois votam contra nós", terá dito o Presidente numa reunião na Casa Branca. "Bom, vamos acompanhar com atenção esses votos. Eles que votem contra nós. Vamos poupar muito [dinheiro]. Nós não nos importamos."