Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Minha loucura, outros que a tomem”

É tão-só a formação de um novo país que está em causa – ou um travão a fundo nesse sonho milenar. Escrevemos e mostramos – não necessariamente por esta ordem –porque é preciso acompanhar o que se há de passar esta quinta-feira na Catalunha. Mais de cinco milhões de pessoas vão votar o que pensam

Ana França

Ana França

texto

Jornalista

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

guião do vídeo

João Santos Duarte

João Santos Duarte

realização do vídeo

Jornalista

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

coordenação de grafismo do vídeo

Infográfico

Carlos Paes

Carlos Paes

grafismo animado do vídeo

Infografia

André de Atayde

André de Atayde

sonorização do vídeo

Jornalista

São 5.553.983 cidadãos - 136.444 a mais dos que anteriormente estavam registados para votar -, 8.247 mesas de voto abertas para os receber e mais de 17 mil agentes de autoridade - entre Mossos d’ Esquadra, Guarda Civil e Polícia Nacional - para controlar as coisas. Porque esta quinta-feira a Catalunha escolhe os seus novos líderes, depois de o governo de Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, ter dissolvido a Generalitat.

Ninguém parece querer que se repita o cenário de 1 de outubro, quando Madrid enviou a sua polícia para impedir que se votasse pela independência - ou contra ela, paradoxalmente. As imagens, transmitidas em direto por centenas de canais de televisão internacionais, estavam a ser filmadas em Espanha, o nosso vizinho democrático, mas a violência levou vários analistas a comparações com a repressão dos piores dias das autocracias europeias.

getty

Esta quinta-feira não se espera que aconteçam aquelas imagens que espantaram e revoltaram no 1 de outubro. Pela primeira vez em décadas, vota-se num dia útil, de trabalho. A última sondagem do Centro de Pesquisa Sociológica (CIS) mostra que duas forças opostas podem estar, na realidade, muito próximas. A formação unionista de Inés Arrimadas, o Cidadãos, está perto dos 22,5% nas intenções de voto (entre 30 a 32 assentos parlamentares) e a Esquerda Republicana (ERC) está nos 21% (como o mesmo número de lugares possíveis).

Esperam-se manifestações mas um regresso à confusão não seria bom nem para unionistas nem para independentistas, porque poderia pôr em causa a seriedade de ambas as ideologias e o seu compromisso com a estabilidade da Catalunha.

Num Ocidente laisser faire no que à participação diz respeito, a possibilidade de que cerca de 84,6% dos catalães estejam a pensar votar são boas notícias para a democracia. Muitos catalães têm-se manifestado nas redes sociais pedindo que seja como na Escócia, onde as filas para votar no referendo pela independência começaram a formar-se ainda de madrugada.

getty

“Minha loucura, outros que a tomem”

É o título de um livro do dramaturgo e advogado português, já falecido, Jaime Gralheiro, sobre os seus dias de luta antifascista em Coimbra, mas podia ter sido proferida por Carles Puigdemont, que, a partir do seu exílio na Bélgica, disse nas redes sociais que não votará - uma jovem não identificada vai fazê-lo por ele, anulando assim a sua própria oportunidade de votar.

O ex-presidente da Generalitat fugiu para a Bélgica para evitar ser preso com os restantes arquitetos da declaração unilateral da independência, que desencadeou então a dissolução do governo. A partir de lá pediu “um voto útil no Juntos pela Catalunha”, porque “qualquer outro voto é a derrota por décadas” e seria como “entregar a soberania catalã a Mariano Rajoy”.

GETTY

O vice-presidente demitido da Generalitat, cabeça de lista da ERC, Oriol Junqueras já enviou o seu voto por correio...a partir da prisão de Estremera.

Mas, para as forças independentistas, loucura é a Catalunha continuar submetida aos desígnios de Madrid. No último comício, a CUP (Candidatura de Unidade Popular, fortemente de esquerda independentista e antissistema) disse que as instituições do Estados “gostam de submeter à sua vontade” a vontade popular porque “são alérgicas à democracia”. Anna Gabriel, porta-voz do partido, disse que apenas os separatistas valorizam os cidadãos da Catalunha e que são os únicos com inteligência para entender que “a lei não vem primeiro que a democracia”.

O próprio Puigdemont também criticou a mão pesada do Estado espanhol e já pediu uma clarificação sobre o futuro a Mariano Rajoy. “Se o conjunto de forças independentistas ganha as eleições, será que o Estado espanhol vai respeitar o resultado?”, perguntou numa entrevista em novembro. “Insisto em fazer esta pergunta ao Estado espanhol, porque o que se tem passado até agora é que nós podemos levar a votos um programa eleitoral em que se pode dizer ‘se eu ganhar vou proclamar a independência’, mas se depois fizermos isso mesmo vamos passar 30 anos à prisão.”

Possibilidades pós-eleitorais

As últimas sondagens dão um parlamento dividido. O Cidadãos está na frente mas é seguido de perto - de muito perto - pela ERC. Arrimadas já disse que “se o movimento independentista perder a maioria, ninguém perdoará se não chegarmos a um acordo que acabe com o separatismo”, o que mostra que o seu partido, neste momento na pole position, está aberto a qualquer coligação nesse sentido.

Inés Arrimadas, a grande favorita

Inés Arrimadas, a grande favorita

getty

Ambos os blocos fazem as suas contas para atingirem os 68 deputados precisos para uma maioria. E as contas estão tão renhidas que um ou dois assentos podem mudar tudo. Há várias possibilidades para pactos pós-eleitorais. A soma das três candidaturas independentistas pode não chegar a uma maioria absoluta - Juntos pela Catalunha, de Puidgmont, ERC e CUP têm os mesmos ideais mas não apresentaram uma candidatura comum e por isso os votos podem pulverizar-se. A sondagem do CIS, de qualquer forma, parece afastar a possibilidade de uma repetição da coligação separatista.

Uma outra opção é a que junta estas forças separatistas ao CeC-P (Catalunha em Comum - Podemos), o partido da presidente da Câmara de Barcelona, Ada Colau, que conta com o Podemos, que tem como líder nacional Pablo Iglésias. As últimas sondagens dão nove lugares a esta formação, o que, junto com os 64 lugares esperados para as forças independentistas, poderia levar a um domínio do hemiciclo - com 73 lugares. O problema é que o CeC-P não é um partido separatista como os outros e tem entre os seus apoiantes pessoas que apoiam a rutura e outras que não, como é o caso da própria Colau. Se, por um lado, se opõem à secessão unilateral, por outro defendem a realização de um referendo aprovado por Espanha e, por isso, de resultado vinculativo.

Ada Colau, presidente da Câmara de Barcelona

Ada Colau, presidente da Câmara de Barcelona

getty

Também pode acontecer uma coligação entre o Partido Socialista Catalão, o CeC-P e a ERC, mas a soma dos três fica a dois lugares da maioria, segundo as últimas projeções. Além disso, os republicanos consideram os socialistas “parte do problema”, uma vez que não se opuseram à aprovação do infame artigo 155 da Constituição espanhola, que suspende o estatuto da Catalunha como região autónoma. “Não vejo possibilidade de entendimento com a ERC. Não vou apoiar a ERC nem eles me apoiariam”, disse Miquel Iceta, líder dos socialistas catalães, sobre esta hipótese.

Para Iceta, o ideal seria uma coligação entre os seus socialistas, os Cidadãos de Arrimadas e o CeC-P, de Xavier Domènech - com o próprio Iceta na presidência. O partido de Arrimadas não afastou a possibilidade de investir o líder socialista se eles forem os mais votados - o que parece improvável, atualmente têm apenas 16% - mas Domènech sim, e sem discussão. Para o líder do CeC-P, estar num pacto com o centro-direita e os socialistas, que até agora se têm revelado pouco aptos na luta conta Rajoy, é como “assinar um acordo com o PP”. E, neste cenário, Domènech teria de passar da suposição ao ato físico da tal assinatura que o repugna, porque esta coligação também não teria os assentos necessários sem o apoio do partido de Rajoy.

Xavier Domènech

Xavier Domènech

getty

A última hipótese é um governo francamente “espanholista”: o Partido Popular une-se aos Cidadãos e contam com a abstenção do CeC-P. Isto arrasaria os apoiantes dos últimos, que, não sendo um partido independentista “de gema”, não admitem coligar-se com dois que desvalorizam tanto o “procés”.

Para os independentistas, este cenário é o mais triste. Martina Marquez, uma professora primária chilena de 43 anos que vive em Barcelona há mais de 20, diz que a possibilidade de um voto constitucionalista tão forte não a tem deixado dormir: “Nem quero imaginar isso. É como se estivéssemos a andar para trás, seria horrível. Tratariam a Catalunha como outra qualquer parte de Espanha e até nem sei se não se reverteriam algumas das nossas regalias. Espero um consenso mas não este consenso”, diz ao Expresso numa conversa pelo Whatsapp. Esta quinta-feira vai levantar-se cedíssimo para votar antes de ir trabalhar.

  • O quebra-cabeças da Catalunha

    Mais de cinco milhões de catalães votam, esta quinta-feira, nas eleições mais atípicas da história da região. Com candidatos presos e autoexilados, a luta pela independência em pano de fundo e as sondagens a prever ingovernabilidade, parece sobrar radicalismo onde faltam a política e o diálogo. 2 minutos e 59 segundos para explicar o que se passa na Catalunha

  • A jovem sensação da política catalã que preferia o Barça às Barbies

    Tem 36 anos, seis de política e apenas 10 de Catalunha. Sim, está a concorrer à presidência de uma das regiões mais apaixonadamente “bairristas” da Europa e não é “do bairro”. É espanhola e quer a Espanha unida. Inés Arrimadas está à frente nas sondagens e pode destronar o independentismo catalão