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Presidente turco aterra na Grécia para visita histórica — e potencialmente tensa

Alguns graffiti anti-Erdogan foram pintados em paredes da capital grega antes da chegada do Presidente turco

LOUISA GOULIAMAKI

Encontros esta quinta e sexta-feira em Atenas marcam a primeira viagem oficial de um líder turco ao país em 65 anos e também uma rara incursão de Recep Tayyip Erdogan ao Ocidente desde o golpe falhado de 2016

O Presidente da Turquia aterrou esta quinta-feira de manhã em Atenas para se encontrar com os líderes da Grécia, naquela que é a primeira viagem em 65 anos de um líder turco ao país simultaneamente seu rival e seu aliado na NATO.

Acompanhado dos seus 200 guarda-costas, Tayyip Recep Erdogan terá proteção adicional de 2800 soldados destacados para patrulhar a capital grega hoje e amanhã, até a visita terminar. “Estamos a tomar todas as precauções”, declarou ao “Guardian” o ministro grego da Ordem Pública, Nikos Toskas. “A segurança estará a um nível semelhante ao da visita de Barack Obama [em novembro de 2016]. Cada pormenor está assegurado e planeado.”

A histórica visita de dois dias marca ainda uma rara incursão de Erdogan a um país ocidental desde que sobreviveu a uma tentativa de golpe em julho do ano passado, na sequência do qual impôs um Estado de emergência no país criticado por governos estrangeiros e organizações não-governamentais, por ter aberto a porta a violações de direitos democráticos dos críticos e opositores do Presidente.

A viagem oficial acontece no rescaldo das detenções de nove cidadãos turcos em Atenas no início da semana, por pertencerem ao DHKP-C, um grupo de militância marxista que reivindicou atentados bombistas na Turquia. Apesar de Toskas negar que o reforço do aparato de segurança está ligado a essas detenções, não foi excluída a hipótese de os suspeitos terem planeado um ataque contra o Presidente turco durante a sua visita à Grécia.

Um contexto carregado

“A visita acontece num momento especialmente delicado, a nível diplomático, perante o crescente criticismo da campanha de repressão [encetada por Erdogan] contra os participantes reais ou suspostos no golpe e contra outros opositores domésticos”, explica Hubert Faustmann, professor de História e Ciência Política na Universidade de Chipre, também citado pelo “Guardian”.

A questão cipriota é um dos espinhos nas relações bilaterais entre a Turquia e a Grécia, mas as hostilidades entre as duas nações remontam a várias décadas antes, quando os gregos foram subjugados pelo império otomano até a uma sangrenta guerra pela independência que, em 1821, culminou na criação do Estado grego como é hoje conhecido.

Desde esse ano, os dois lados travaram sucessivos conflitos, um deles em 1922, quando o Exército grego sofreu uma pesada derrota na Ásia Menor, onde se deu aquela que alguns especialistas consideram ter sido a primeira "experiência de limpeza étnica" do século XX (também conhecida como genocídio dos gregos pônticos) — a vitória dos otomanos acabaria por conduzir à fundação da República da Turquia. Décadas depois, em 1996, as duas nações quase entraram novamente em guerra por causa da disputa por um conjunto de ilhas inabitáveis no Mar Egeu.

As tensões ressurgiram em anos recentes no contexto da crise de refugiados na Europa e da fronteira partilhada entre os dois países, a par das negociações falhadas sobre a reunificação de Chipre e do que as autoridades gregas classificam como sucessivas violações dos seus espaços aéreo e naval pelas forças turcas — segundo o Ministério da Defesa da Grécia, mais de três mil desde o início de 2017, mais do que em qualquer outro ano desde 2003. A piorar a situação, as declarações públicas de Erdogan a questionar a forma como a fronteira entre os dois países foi criada em 1923.

EUA e Europa estão à espera para ver se Erdogan vai aproveitar a visita para adotar um tom mais conciliatório

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Sean Gallup/Getty Images

“Antecipamos um avanço substancial na nossa relação com a Turquia e conversas construtivas”, declarou o porta-voz do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, antes da chegada de Erdogan a Atenas. Aos jornalistas, Dmitris Tzanakopoulos avançou ainda que Tsipras pretende abordar com o líder turco as tensões no Egeu, a crise dos refugiados e o aprofundar das relações bilaterais económicas, comerciais e relativas ao setor dos transportes.

Um golpe e um risco

A partir de Ancara, fontes oficiais turcas disseram por sua vez que a histórica visita de Erdogan servirá para pressionar a postura da Grécia após o golpe falhado na Turquia, quando o país aceitou que oito militares turcos entrassem no seu território de helicóptero para escaparem às suas iminentes detenções.

Tribunais gregos têm rejeitado sucessivos pedidos do Governo de Erdogan para que os soldados sejam repatriados, sob o argumento de que não há garantias de que venham a ser julgados com Justiça.

Oposição grega antevê uma "humilhação para o Governo" de Tsipras se Erdogan usar Atenas para voltar a atacar o Ocidente

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reuters

“Erdogan está isolado e o governo [grego] quer claramente acomodá-lo na esperança de que ponha fim às suas explosões verbais e comece a comportar-se de forma menos irracional com a Grécia”, explicava esta quinta-feira o deputado independente Harry Teocharis. “Isso está longe de ser um resultado [destes encontros].”

O “Guardian” sublinha que esta visita de Erdogan será acompanhada de perto quer pelos Estados Unidos quer pelos Estados-membros da UE, onde os diplomatas estão à espera para ver se o Presidente turco vai usar o palco grego para lançar um novo ataque verbal ao Ocidente ou, pelo contrário, adotar um tom mais conciliatório.

Para Giorgos Koumoutsakos, ministro-sombra dos Negócios Estrangeiros, membro do principal partido da oposição grega, “esta visita a uma capital europeia e a um Estado-membro da UE permite à Turquia melhorar a sua imagem internacional que, no Ocidente, não podia ser pior”.

Pelo contrário, ajuiza o deputado do Nova Democracia e também membro do Parlamento Europeu, “se Erdogan vier aqui só fazer declarações contra o Ocidente e contra a Europa, isso será um problema e uma humilhação para o Governo [de Tsipras]”.