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“É catastrófico”

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A disputada Jerusalém – cidade sagrada para judeus, muçulmanos e cristãos – volta a ser o berço de um potencial conflito de proporções míticas. Com a comunidade internacional a tentar demover Donald Trump de considerar a cidade como a capital de Israel, o Irão já avisou que “não vai tolerar” tal “violação” da parte de Washington

Depois de uma promessa eleitoral com mais de um ano e de especulações a amontoarem-se nas últimas semanas, Donald Trump anunciou ao final desta tarde que Jerusalém é a capital de Israel. Antes de o fazer, não era certo se o líder norte-americano também ia confirmar a mudança da embaixada dos EUA no Estado hebraico de Telavive para a disputada cidade — algo que prometeu fazer no “dia um” do seu governo, há mais de um ano, quando ainda era aspirante a Presidente.

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Certo é que, para o mundo árabe e para os muçulmanos, não é tanto a mudança física de instalações que tem importância. Como referia ao “Washington Post” esta manhã Ilan Goldenberg, ex-funcionário da administração Obama e diretor do Programa de Segurança no Médio Oriente do Center for a New American Security: “A embaixada é pouco importante. O reconhecimento de Jerusalém como capital [israelita] é o que importa ao mundo árabe.”

Desde que foi fundado, em 1948, Israel define a cidade como a sua capital “indivisível e sagrada”. Por outro lado, os palestinianos continuam à espera que Jerusalém Oriental, ocupada pelos israelitas desde 1967 e atribuída aos palestinianos nos Acordos de Oslo de 1993, venha a ser a sua capital quando a ansiada solução de dois Estados for para a frente.

O passo que Trump deu esta quarta-feira vem colocar essa solução em risco, mas acima de tudo fomentar mais divisões, que ameaçam a estabilidade mundial. Para tabloides como o jornal britânico “Express”, a III Guerra Mundial vai estalar por causa desta decisão. Mais cautelosos mas não menos alarmados, vários líderes mundiais já pediram ao Presidente norte-americano que repense o passo — entre eles Theresa May, a primeira-ministra britânica, que esta manhã declarou aos deputados do seu país que pretende falar com o líder dos EUA sobre a questão. “A nossa posição não mudou”, garantiu. A posição de Londres é a de toda a comunidade internacional, consagrada em sucessivas resoluções da ONU: o estatuto de Jerusalém deve ser definido em negociações entre israelitas e palestinianos.

O que está em causa

Sob esse princípio, os 86 países com representações diplomáticas em Israel têm-nas em Telavive, não na cidade santa. Algumas dessas nações costumavam ter as suas embaixadas na cidade, mas foram mudando as moradas para a outra capital do país, aquela que é reconhecida por quase todo os países do mundo. Essa decisão aconteceu após os israelitas terem aprovado uma lei em 1980 que declara Jerusalém sua capital — na prática uma forma de pôr travões ao expansionismo hebraico. Os últimos a fazerem essa mudança foram a Costa Rica e El Salvador, em 2006.

Ammar Awad/ REUTERS

Os Estados Unidos nunca integraram essa lista, mas em 1995 o Congresso aprovou uma lei que exigia o estabelecimento da sua embaixada em Jerusalém. Desde esse ano, os sucessivos Presidentes dos EUA assinaram uma renúncia de seis em seis meses para manter o statu quo, citando “razões de segurança nacional” para, na prática, continuarem a forçar israelitas e palestinianos a negociar uma solução de paz. Em junho, Trump seguiu o exemplo dos antecessores. Esta segunda-feira, quando o prazo voltou a expirar, já não o fez.

“Toda a gente com bom senso sabe que isto não tem sentido nenhum e que vai criar total instabilidade no mundo árabe e no resto do mundo”, dizia esta manhã ao Expresso Manuel Pechirra, fundador e presidente do Instituto Luso-Árabe para a Cooperação. “Quero acreditar que o senhor Trump, refletindo um pouco melhor, vai voltar atrás na decisão. Julgo que toda a comunidade internacional espera uma atitude equilibrada da América, porque a paz no mundo depende também da estabilidade do Médio Oriente. Reverter esta decisão é a melhor prenda de Natal que o sr. Trump pode dar ao mundo.”

Nervosismo, alertas e avisos

A estabilidade do mundo árabe continua longínqua. A Síria está em guerra pelo sétimo ano consecutivo. O bloco sunita ao leme da Arábia Saudita continua envolvido numa guerra por procuração no Iémen contra o Irão, xiita, e a manter o Qatar sob bloqueio, por manter relações bilaterais com Teerão. Contra todos os avisos da comunidade internacional, Trump continua a pôr em risco o histórico acordo sobre energia nuclear com os iranianos, que nos últimos dois anos permitiu uma aproximação destes ao Ocidente. Agora, e novamente contra todos os alertas, volta a deitar achas para a fogueira da instabilidade geopolítica e religiosa.

As consequências de definir Jerusalém como a capital de Israel, embora imprevisíveis, serão terríveis e nos últimos dias foi esse o aviso que ecoou por todo o mundo. “É catastrófico”, declarou a ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, Margot Wallström. “Esta decisão vai obviamente resultar em inquietação e efeitos massivos.” Ao longo desta manhã, o assunto dominou as manchetes de jornais em toda a Europa, em particular em países como a Alemanha, França e o Reino Unido, onde o número de incidentes antissemitas e islamofóbicos tem estado a aumentar em anos recentes.

Entre os líderes que pediram sangue frio e a preservação do statu quo de Jerusalém — cidade de importância extrema para judeus e muçulmanos mas também para cristãos — contou-se o Papa Francisco. “A terra sagrada é para nós, cristãos, a terra por excelência do diálogo entre Deus e a humanidade. A condição primária desse diálogo é o respeito recíproco e um compromisso em reforçar esse respeito, a bem de se reconhecerem os direitos de todos os povos, onde quer que esse compromisso tenha lugar.”

A declaração surgiu depois de o líder da Igreja Católica ter telefonado ao presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, para tentar apaziguar o representante máximo dos territórios da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, ambos sob ocupação israelita há meio século.

O telefonema deu-se na terça-feira, antes da pré-anunciada proclamação de Trump; nesse mesmo dia, o Presidente norte-americano ligou a Abbas para o informar da sua decisão — que também transmitiu por telefone ao Presidente do Egito, país árabe com quem Israel assinou um tratado de paz em 1978, e ao rei da Jordânia, que é o guardião oficial de Jerusalém Oriental e dos locais da cidade que são sagrados para os 1.800 milhões de muçulmanos que vivem espalhados pelo mundo. Ambos tentaram demovê-lo, mas sem sucesso.

Face ao “grave erro” dos norte-americanos, assim classificado pelo porta-voz do Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, este convocou para 13 de dezembro um encontro extraordinário da Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), um grupo de 57 Estados islâmicos que temem as “graves consequências” deste passo, nas palavras do rei Abdullah, da Jordânia. Mas até lá, já muito pode ter acontecido.

Ainda sem se conhecerem os contornos específicos do anúncio de Trump, o inimigo maior de Israel — o Irão — deixou um aviso ao país e ao seu alijado norte-americano. “Não vamos tolerar esta violação do que é sagrado para os muçulmanos”, declarou o Presidente Hassan Rouhani. “Os muçulmanos têm de se manter unidos face a esta conspiração.”