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“Vai inflamar o mundo islâmico”: as consequências da mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém

THOMAS COEX/ Getty Images

A Palestina e a Jordânia a trouxeram a novidade: a embaixada dos EUA em Israel ia passar de Telavive para Jerusalém. A intenção de Donald Trump não é de agora (longe disso, aliás há muito que anda a adiá-la). A decisão, que pode ser anunciada a qualquer momento, chega numa altura “em que o Médio Oriente se está a redesenhar”, e pode fazer toda a diferença

Há muito que Donald Trump falava no assunto: mudar a embaixada dos Estados Unidos da América em Israel de Telavive para Jerusalém. A questão foi promessa eleitoral e agora, mais de um ano após as eleições, parece que vai ser cumprida (a decisão oficial da Casa Branca deve chegar ao final do dia desta quarta-feira). Mas a medida levanta uma série de problemas e tensões, começando logo pelo facto de Jerusalém ser um território disputado por israelitas e palestinianos.

“Trump está a tomar uma posição muito forte ao declarar Jerusalém como capital de Israel, ou pelo menos ao reconhecê-la como tal. Isto é uma medida fortíssima de apoio [ao Estado hebraico]. Vem legitimar a pretensão de Israel de ter Jerusalém reconhecida como sua capital. Neste momento, temos a Palestina a querer a mesma coisa. É simbólico e tem um peso político enorme, especialmente quando estamos a caminho de um volte-face no Médio Oriente”, explica ao Expresso Maria João Tomás, diretora do projeto Casa Árabe Portugal e investigadora no ISCTE-IUL para as regiões da Ásia Ocidental e Norte de África, especializada nas áreas de política, economia e religião.

Jerusalém foi ocupada por Israel em 1967, durante a Guerra do Seis Dias, e anexada ao território hebraico três anos depois. Os israelitas continuam defender que toda a cidade é seu domínio, mas sob a lei internacional a área é considerada um território ocupado. Os palestinianos consideram-na a capital do futuro Estado da Palestina.

A acrescentar ao importante reconhecimento da cidade como capital de Israel, a investigadora acredita que a decisão “vai inflamar o mundo árabe”, sobretudo numa fase em que este se está a redesenhar. Além da tradicional separação entre sunitas e xiitas no mundo islâmico, dentro do sunismo verifica-se uma divisão: por um lado o movimento wahabbi (descrito como mais conservador e extremista), do lado da Arábia Saudita; por outro a Irmandade Muçulmana (um grupo mais radical que pretende recuperar os ensinamento do Corão), no Qatar, Síria e Turquia, por exemplo.

Embaixada dos EUA em Israel

Embaixada dos EUA em Israel

JACK GUEZ/ Getty Images

É uma cisão de ideologia e de poder entre dois ramos do mundo islâmico, que depois arrastam os países de acordo com a ideologia dominante. Esta separação entre sunitas tem de ser tomada em consideração para perceber a importância da decisão a que estamos a assistir”, explica Maria João Tomás, que relembra a recente aproximação da Arábia Saudita a Israel, os bombardeamentos israelitas na Síria (“que não gostaram da vitória de Bashar al-Assad”) e a instabilidade política no Líbano (em que o primeiro-ministro renunciou ao cargo enquanto se encontrava em Riade, a capital saudita, levando muitos a questionar se aquela teria sido uma decisão livre; entretanto já recuou).

A investigadora receia que a mudança da embaixada possa levar ao esquecimento da Palestina e que os seus parceiros árabes, sobretudo países da Irmandade Muçulmana, não “tenham força suficiente” para a apoiar.

“[A decisão de Trump chega] numa altura em que a Palestina está a tentar o caminho da abertura, que está a tentar virar a página. Numa altura em que a Palestina está a querer fazer a paz, Israel está a provocar”, refere Maria João Tomás. “Receio de que esta cisão entre sunitas tenha consequências no crescente escalar da violência e que a Palestina seja abandonada pelos parceiros, porque não lhes interessa cobrar uma guerra com Israel e EUA –sobretudo os grandes parceiros, como a Arábia Saudita”, acrescenta.

Trump já falou com líderes do Médio Oriente

Na terça-feira, Palestina e Jordânia disseram que foram contactadas por Tump, que as informou da “intenção” de mudar a embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém. Embora não tenham sido avançados mais detalhes, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, alertou o Presidente norte-americano para as “perigosas consequências que esta decisão pode ter no processo de paz, segurança e estabilidade na região e no mundo”.

A opinião é partilhada pelo rei da Jordânia, Abdullah II, que citado pela Al-Jazeera sublinhou: “Pode trazer repercussões perigosas à estabilidade e segurança da região” e ainda aumentar a “tensão entre muçulmanos e cristãos”.

SAUL LOEB/ Getty Images

Na última semana, a especulação em torno desta mudança foi aumentando e a imprensa internacional referiu uma decisão iminente. Da parte da Casa Branca nem uma declaração oficial. Contudo, na terça-feira à noite fontes da administração confirmaram os rumores de que Trump vai formalizar o anúncio esta quarta, levando a assessoria da presidência norte-americana a declarar que hoje Trump fará "um comentário referente a este assunto".

“Esta [terça-feira de] manhã o Presidente falou com vários líderes e continuará a falar com as partes interessadas. Mas, no final, tomará a decisão que sente que é a melhor para os Estados Unidos”, confirmou a porta-voz da Casa Branca no habitual briefing diário. Questionada pelos jornalistas, Sarah Sanders rejeitou as notícias de que Trump tem estado a receber feedback negativo dos restantes líderes mundiais (“falou apenas com cinco pessoas”). “Vamos manter-vos informados desses telefonemas e informar-vos-emos assim que o Presidente tomar uma decisão”.

Ao inicio da madrugada desta quarta-feira, funcionários da Casa Branca davam como certo que Trump vai reconhecer formalmente Jerusalém como a capital de Israel. A notícia surgiu poucas horas depois de a administração norte-americana ter aconselhado o seu pessoal diplomático a evitar a Cisjordânia ocupada e a parte antiga da capital disputada pelos dois lados do conflito.

Uma vontade antiga

Durante a campanha para as presidenciais de 2016, Trump prometeu mudar a embaixada norte-americana em Israel de Telavive para Jerusalém assim que chegasse ao poder. Passou um ano e agora, e após sucessivos adiamentos, uma decisão parece estar iminente.

“Quando os Estados Unidos estiverem ao lado de Israel, as possibilidades de paz aumentarão exponencialmente. Isso é o que acontecerá quando Donald Trump for Presidente dos Estados Unidos. Vamos mudar a embaixada norte-americana para capital eterna do povo judeu: Jerusalém. E vamos deixar um sinal claro de que nada separa a América do seu mais fiável aliado, o Estado de Israel”, declarou o então candidato republicano em novembro de 2016.

Netanyahu, primeiro-ministro israelita, com Trump num encontro em setembro

Netanyahu, primeiro-ministro israelita, com Trump num encontro em setembro

BRENDAN SMIALOWSKI / Getty images

Há mais de duas décadas que as sucessivas administrações dos EUA assinam, a cada seis meses, um documento que confirma a permanência da sua embaixada em Telavive. O prazo terminava na passada sexta-feira, mas foi esticado até segunda. Trump deixou passar a data limite e não assinou o papel, sob o argumento de que ainda estava a decidir qual seria o seu próximo passo.

Desde 1948, quando o Estado de Israel foi criado, a Casa Branca tem mantido que o estatuto de Jerusalém deve ser decidido através de negociações entre as duas partes, recusando-se a agir de formas que possam parecer enviesadas a favor dos hebraicos. Aliás, nenhum outro país tem embaixada naquela cidade, existindo um consenso internacional com o apoio das Nações Unidas.

“Os EUA estão a ir contra tudo e contra todos, mas têm uma série de países que os apoiam", sublinha Maria João Tomás. "Não há dúvidas que esta decisão vai trazer consequências em termos da comunidade internacional. Vamos ver como se vão portar França e Grã-Bretanha, os países que definiram o destino do Médio Oriente há cem anos.”