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Síria. Toda a gente sabe o que vai acontecer

Representantes da oposição em Genebra, na Suíça.

DENIS BALIBOUSE/GETTY IMAGES

Exigências a que ninguém se verga, atrasos e saídas bruscas de Genebra, sem regresso anunciado. Uma sucessão de acontecimentos inesperados que parecem não surpreender ninguém. O que esperar das negociações entre a oposição e o regime, quando já não esperamos nada? O que esperar de Bashar al-Assad e o que esperar da Síria?

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Ao fim de mais de seis anos de guerra civil e de várias rondas de negociações de paz que nenhuma paz trouxeram ao país, a oposição e o regime sírio liderado pelo Bashar al-Assad continuam distantes, sem conseguirem entender-se. Depois de na quarta-feira passada, 30 de novembro, a delegação do Governo de Damasco ter abandonado a cidade de Genebra, na Suíça, onde decorria a oitava ronda de negociações, por não concordar nem querer aceitar a exigência da oposição quanto à saída do Presidente sírio, esperava-se que as negociações fossem retomadas entretanto. Mas isso ainda não aconteceu. Os representantes do regime mantêm-se na capital síria, Damasco, e ninguém sabe quando voltarão a Genebra - se é que vão voltar.

Apesar de inesperados, os acontecimentos não surpreendem quase ninguém. Não surpreendem os especialistas que ao longo das últimas semanas foram expressando o seu pessimismo em declarações a vários meios de comunicação social. E não surpreendem Yezid Sayigh, investigador no Carnegie Middle East Center, em Beirute. “O processo que decorre em Genebra não resultará em absolutamente nada”, diz em entrevista ao Expresso. Para Yezid Sayigh, é muito claro que o regime sírio “não irá concordar nem legitimar qualquer intervenção internacional na resolução do conflito”, por considerar “que se trata de assuntos internos” que devem ser resolvidos a partir do próprio país. Daí que o investigador não acredite que esta ronda de negociações, “ou qualquer ronda futura”, tenha um desfecho diferente das anteriores.

Staffan de Mistura, enviado especial da ONU para a Síria

Staffan de Mistura, enviado especial da ONU para a Síria

FABRICE COFFRINI/GETTY IMAGES

A ideia de ter a oposição, representada pela Comissão Suprema para as Negociações (HNC, na sigla em inglês), e os representantes do regime sentados à mesma mesa em Genebra é convencer as duas partes a discutir assuntos como a elaboração de uma nova Constituição para a Síria, a escolha de um governo “credível, inclusivo e não sectário” (palavras usadas recentemente por Staffan de Mistura, enviado especial das Nações Unidas), a preparação de eleições supervisionadas pelas Nações Unidas e o combate ao terrorismo. A agenda de negociações inclui ainda uma série de alíneas sobre o futuro dos opositores ao regime que continuam detidos ou foram raptados e estão desaparecidos, bem como a entrada de apoio humanitário em áreas de difícil acesso ou ocupadas pela oposição e cercadas pelo regime. É o caso do leste de Ghouta, nos arredores da capital do país, Damasco, onde cerca de 500 pessoas continuam à espera de ser transportadas para o exterior para receber tratamento. Cercada desde 2013 pelas forças governamentais, a região síria está sem acesso a comida, medicamentos e outros bens essenciais desde abril, mês em que o regime lançou uma ofensiva em bairros vizinhos, cortando o acesso ou abatendo os túneis usados até ali pelos rebeldes da oposição e comerciantes para transportar mercadoria.

“Falta de unidade e incapacidade de liderança”: as falhas da oposição

Apesar de pôr o ónus no regime sírio, Yezid Sayigh também culpa a oposição pelas falhas sucessivas nas negociações de paz, desvalorizando o facto de, pela primeira vez desde o início das negociações, os opositores ao regime terem chegado a Genebra com uma delegação unificada, unida e coesa, composta por cerca de 50 representantes, entre membros da Coligação Nacional Síria (a principal formação política da oposição) e de plataformas de Moscovo e do Cairo, toleradas pelo regime de Damasco. “A oposição revelou falta de unidade, incapacidade de liderança e um conhecimento inadequado do regime e dos desafios colocados por este”, aponta o investigador. Mas há mais, mais críticas a fazer, mais aspetos negativos a salientar.

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Yezid Sayigh acusa ainda a oposição de ter sido “incapaz” de propor um programa político com vista a uma transição realista que pudesse eventualmente “abrir brechas ou dividir aqueles se mantêm leais ao regime” e de não ter entendido as “diferentes agendas e os limites dos seus apoiantes externos”, ou seja, aquilo que podiam ou queriam ou não fazer, e até onde estavam dispostos a ir.

O investigador não só não acredita no sucesso das atuais negociações, como não vê como é que a oposição possa vir a forçar a saída de Bashar al-Assad do poder e ter algo a dizer sobre o futuro político da Síria. “A tendência é para que o regime assuma gradualmente o controlo de todas aquelas regiões” que em tempos perdeu ou para a oposição ou para os combatentes do Daesh. “Isto pode levar até cerca de três anos, mas o Presidente Assad irá continuar a lutar, se for essa a única forma de evitar acordos políticos que claramente não lhe agradam.”

Oposição está numa “posição difícil”, mas ainda tem margem para negociar

Embora concorde que a oposição tem agora a vida muito dificultada perante os avanços contínuos do regime sírio, que tem contado com o apoio da aviação russa e de milícias iranianas, Ibrahim al-Assil, investigador do Middle East Institute, em Washington D.C., acredita que os opositores de Bashar al-Assad, “que são agora mais diversos e mais organizados”, ainda têm condições para manter as suas exigências. Ou pelo menos para não as abandonar já. Isso, claro, se puderem continuar a contar com o apoio da Turquia, Arábia Saudita e Qatar. Caso contrário, “será muito difícil manterem a sua posição e serão praticamente obrigados a suavizar o tom”.

Questionado sobre qual seria a melhor solução para a Síria do seu ponto de vista, se tornar-se um estado federal e descentralizado ou um estado sob governação mista, partilhada por membros do atual regime e da oposição e outros grupos locais, Ibrahim al-Assil defende a primeira hipótese. Assume, porém, que será difícil percorrer esse caminho, uma vez que o Presidente sírio irá colocar muitos entraves. “Assad não parece estar disposto a aceitar isso e o seu Exército quer continuar a lutar”.

O que tem acontecido no leste de Ghouta, diz o especialista, “é prova disso”. “Assad continua a privar a população de comida e a bombardeá-la indiscriminadamente como forma de punição”, algo que só irá acabar se os EUA e a comunidade internacional “aumentarem para a sua influência na Síria” para pressionar o Presidente sírio a sentar-se à mesa das negociações, diz o investigador. “A Síria não será estável enquanto Assad for Presidente. A população não irá esquecer os crimes de guerra que ele cometeu. Nunca antes na história uma população aceitou ser governada por um criminoso de guerra”, acrescenta.

Perante a mesma pergunta sobre o futuro político da Síria, Yezid Sayigh é ainda mais perentório. “Obviamente que o melhor para a Síria seria que Bashar al-Assad saísse, mas é óbvio que isso não vai acontecer. E enquanto o regime se mantiver, também a Síria vai manter-se fraca e instável.” Por outro lado, o único país com alguma influência na Síria que poderia eventualmente forçar a adoção de uma solução política, como a implementação de um estado federal, seria a Rússia, mas mesmo a Rússia poderá facilmente tornar-se “dispensável” para Bashar al-Assad, que tem o apoio quase incondicional do Irão. Perante estes que dá como factos, o investigador diz mesmo não entender a utilidade da pergunta. Toda a gente sabe o que vai acontecer.