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Lesbos. “Sabia que a ilha era má mas nunca imaginei que pudesse ser tão horrível”

Campo de refugiados de Moria, ilha de Lesbos, Grécia. No inverno do ano passado, oficialmente, morreram três pessoas

STRATIS BALASKAS / EPA

Eis o desabafo de um refugiado sírio ao repórter da Al-Jazeera no campo de Moria, na ilha grega de Lesbos. Em contagem decrescente para o inverno, milhares de candidatos a asilo temem sucumbir ao frio. Oficialmente, no ano passado morreram três pessoas

É um retrato absolutamente arrepiante, impensável, devastador. E, no entanto, não haverá um único adjetivo que consiga colorir a pardacenta imagem que o repórter da Al-Jazeera foi encontrar no campo de refugiados da ilha de Lesbos, Grécia. Com o inverno à porta, muitos dos ali residentes temem ceder às baixas temperaturas. No ano passado, pelo menos três refugiados perderam a vida.

Na tentativa de dar cor à sua história, Patrick Strickland recolheu diversos testemunhos. E todos apontam para uma desumanidade sem sentido. Al-Talaa, um sírio de 30 anos que chegou a Lesbos no mês passado, foi apenas um, entre várias centenas de refugiados, que se viu obrigado a trocar do campo de Moria por um olival próximo. E se pensava que chegar são e salvo à Europa era o maior desafio que teria pela frente, percebe agora que sobreviver em Moravia não é menos duro.

Sonhava chegar com a sua família à Alemanha, onde há cerca de dois anos o seu irmão encontrou refúgio. Mas por estes dias dorme numa tenda com a mulher e o filho nascido há cerca de um mês, à mercê de baixas temperaturas noturnas, fora do campo para fugir das doenças, da brutalidade policial e das agressões de outros refugiados.

“Sabia que a ilha era má mas nunca imaginei que pudesse ser tão horrível”, conta Al-Talaa, enquanto a sua mulher tenta lavar algumas peças de vestuário com a água de uma garrafa. “Nunca imaginei que tivéssemos de esperar duas horas para poder usar a casa de banho.” Tal como outros refugiados, este sírio passa os dias, ora sentado junto da tenda, ora em longas filas para receber alimentos ou tratamento médico. “Sempre que dizemos ao doutor que algo está mal, ele apenas responde que devemos beber mais água.”

“A comida é horrível”

Do mesmo se queixa Abu Mohammed al-Qallab, um outro sírio de 41 anos. O repórter da Al-Jazeera foi ao seu encontro quando apanhava lenha. “Faz muito frio durante a noite.” Este antigo professor do ensino secundário chegou a Lesbos no mês passado e desde então tratou de recolher rochas e pedaços de madeira para reforçar a tenda que agora lhe serve de casa, tornando-a mais resistente à força dos elementos.

“A comida é horrível. Temos de esperar duas horas [de manhã] por um pedaço de pão e uma maçã”, lamenta-se. E apontando para o campo dispara: “Isto é uma enorme prisão.”

O repórter Patrick Strickland chegou ainda à fala com uma jovem afegã que consegui fugir de Moria, onde pernoitou durante cerca de duas semanas numa tenda com cerca de 20 pessoas. Ely Qias, de 16 anos, vive agora, juntamente com outros afegãos e iranianos, num edifício em Mitilene, capital da ilha de Lesbos.

“As casas de banho estão imundas e nem um animal consegue usar aqueles chuveiros”, desabafa. “Antes de irem para Moria as pessoas estão bem de saúde, mas todos adoecem assim que lá chegam. E de noite temos medo de sair das tendas por causa das lutas entre refugiados”, conta a jovem afegã.

Com o inverno a caminho, a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR, na sigla inglesa) teme o pior. “Neste momento, [Moria] é um lugar perigoso para crianças, famílias e para pessoas vulneráveis”, afirma o porta-voz desta organização à Al-Jazeera. “As condições poderão agravar-se se o campo continuar sobrelotado e o frio do inverno chegar”, alerta Boris Cheshirkov.

Construído para receber cerca de duas mil pessoas, a UNHCR estima que vivam atualmente em Moria cerca de seis mil candidatos a asilo.