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Internacional

Tratado antiminas faz 20 anos. E tem um aliado essencial: os ratos

RAUL ARBOLEDA / AFP / Getty Images

Quem diria que os pequenos roedores podiam tornar-se colaboradores valiosos de uma grande tarefa humanitária internacional?

Luís M. Faria

Jornalista

As minas antipessoais já mataram e mutilaram centenas de milhares de pessoas pelo mundo fora. A luta contra esse flagelo ficou associada na mente popular a uma imagem da princesa Diana em Angola, com equipamento protetor, caminhando ao lado de um matagal onde se viam sinais vermelhos que diziam "PERIGO MINAS!" Com a ajuda de um especialista, a princesa fez explodir uma mina, e assim se tornou instantaneamente um ícone da campanha internacional que no final desse mesmo ano, 1997, levaria ao Tratado de Otava, oficialmente a Convenção sobre a Proibição do Uso, Armazenamento, Produção e Transferência de Minas Antipessoais e sobre a sua Destruição.

Dado que as minas existem desde a I Guerra Mundial – apareceram na sequência das minas antitanque, para evitar que os soldados retirassem estas últimas – continua a haver milhões desses artefactos escondidos em campos, estradas e outros lugares pelo mundo fora. Tão importante como não instalar novas minas é limpar as que já existem. Mas antes de poderem ser destruídas em condições de segurança, é necessário encontrá-las, procurando fazê-lo sem as detonar acidentalmente. O que nem sempre é fácil. As minas são normalmente feitas em plástico, para não serem detetadas, e num terreno pode haver muitos objetos que dão origem a falsos alarmes.

Entra em jogo aqui uma imagem menos glamorosa do que a da princesa Diana: ratos. Altamente sensíveis não apenas aos cheiros habituais como aos de produtos químicos, os ratos podem ser treinados para reconhecer o cheiro de explosivos. Falando à BBC, um responsável que supervisiona esse treino explica que, numa determinada área, os ratos fazem o trabalho de deteção de minas quarenta vezes mais depressa que os detetores de metais existentes no mercado. Um dos países a beneficiar dos talentos dos ratis foi Moçambique, que em 2015 foi declarado limpo de minas – um de 29 países a ficar nessa situação desde 1997.

Heroísmo sim, martírio só raramente

O Tratado de Otava pode ser considerado um dos maiores sucessos da comunidade internacional no último meio século. Assinado a 3 de dezembro de 1997, proibiu a produção e utilização desses engenhos que são usados tanto por exércitos regulares (mais de vinte Estados, incluindo EUA, Rússia e China, recusaram aderir) como por forças rebeldes. As minas antipessoais faziam então cerca de 20 mil vítimas por ano. Nas duas décadas após 1997, o número caiu para seis mil, tendo voltado a subir nos últimos tempos devido às guerras em curso no Médio Oriente, em África, na Ucrânia e noutros lugares.

Diana durante a viagem a Angola, em janeiro de 1997, à conversa com uma jovem mutilada por uma mina

Diana durante a viagem a Angola, em janeiro de 1997, à conversa com uma jovem mutilada por uma mina

ANTÓNIO COTRIM / AFP / Getty Images

As minas, além de mutilarem e matarem, inutilizam grandes extensões de terreno. Basta uma única mina para impedir que um campo inteiro seja cultivado, por exemplo. Dados os milhões de minas espalhados pelo mundo fora, sobretudo desde os anos 60, o trabalho de limpeza ainda não tem fim à vista.

O papel dos ratos tem sido oficialmente reconhecido em dezenas de países, e eles são considerados heróis. Felizmente, é o heroísmo ir até ao martírio. Embora os ratos em causa normalmente sejam grandes, podendo atingir o comprimento de um metro (cauda incluída), são demasiado leves para fazer explodir as minas. Conforme explica o treinador, além de considerações humanitárias, esses animais são demasiado valiosos para se poder deixar que morram. Afinal, cada um deles leva cerca de nove meses a treinar.