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Que fará May com a fronteira irlandesa?

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Theresa May muito pressionada a apresentar uma solução para o impacto do ‘Brexit’ na Irlanda até segunda-feira. O problema da fronteira não é fácil de resolver. "Há casas em que se entra pela sala na Irlanda do Norte e sai-se pela cozinha na República da Irlanda

Cinco vezes por semana, Henrique Brazão sai de casa às 8h, entra no carro e apanha a estrada para ir trabalhar numa escola para crianças problemáticas em Enniskillen, na Irlanda do Norte. Natural de Almada, Brazão vive há quatro meses em Cavan, 50 quilómetros mais a sul, na República da Irlanda. Nem nota quando, a um terço do percurso, entra em território britânico. “Nem sei bem onde fica. Só sei que estou na Irlanda do Norte quando passo a primeira estação de serviço e vejo o preço da gasolina em libras”.

Brazão é uma das 30 mil pessoas que todos os dias circulam entre as duas Irlandas porque vivem de um lado da fronteira e trabalham no outro. Além disto há mercadorias, serviços ou por turismo. São 1,9 milhões de carros ligeiros, 205 mil carrinhas e 177 mil camiões por mês.

Evitar que o ‘Brexit’ resulte num enorme transtorno para este livre trânsito, hoje isento de controlos ou postos aduaneiros, é uma espada suspensa sobre a primeira-ministra britânica, Theresa May. Nas negociações com Bruxelas, a questão dos direitos dos cidadãos está a avançar e Londres já terá concordado em pagar uma fatura mais elevada para sair da UE. Falta a fronteira de Irlanda, e May tem até segunda-feira para dizer à UE o que propõe.

Um levantamento conjunto do Reino Unido e Comissão Europeia identificou pelo menos 142 questões que podem resultar de controlos fronteiriços pós-‘Brexit’. Muitas têm que ver com o dia a dia dos 15% da população que vivem junto à divisão das duas Irlandas, como ir a um hospital do outro lado da fronteira.

O empresário John James O’Hara, por exemplo, vive na República da Irlanda, onde tem uma estalagem e dirige uma empresa de turismo. Mas costuma apanhar o avião em Belfast, na Irlanda do Norte, que fica a 45 minutos. O de Dublin está a duas horas e meia. 70% dos seus clientes fazem o mesmo.

O turismo na Irlanda, diz O’Hara, é uma das áreas que vão ser afetadas. A desvalorização da libra já provocou uma queda de 6% nos visitantes britânicos este ano, até julho. E a situação pode piorar se for reintroduzido algum tipo de controlo na fronteira, afetando excursões, criando eventuais problemas com vistos e até inspirando receios de que volte a violência na zona fronteiriça, comum antes dos acordos de paz de 1998. “O medo influi negativamente no turismo”, diz O’Hara.

Como parte integrante do Reino Unido, a Irlanda do Norte deixará, com o ‘Brexit’, a união aduaneira da UE. Mas 36% das suas exportações são para a República da Irlanda. Esta, por sua vez, exporta pouco (1,7%) para o Norte. Mas parte das exportações para outros países, sobretudo da indústria agroalimentar, depende de produtos importados do Reino Unido, que ficarão mais caros.

Os controlos fronteiriços de um “Brexit duro” teriam um impacto de 3,4% no PIB irlandês, segundo uma avaliação recente do Parlamento Europeu. “Conseguimos lidar com isso”, antecipa Brian Lucey, professor de Finanças Internacionais no Trinity College, em Dublin. Os efeitos da crise bancária a partir de 2008, que quase levou a Irlanda à falência, foram muito piores mas o país recuperou, justifica Lucey.

Fechar completamente a fronteira, que tem mais de 200 pontos de passagem rodoviária, é irrealista. “É impossível. Há casas em que se entra pela sala na Irlanda do Norte e sai-se pela cozinha na República”, diz Lucey.

May está num xeque-mate. Prometeu cortar o cordão umbilical com a UE. Um estatuto especial para a Irlanda do Norte, que a mantivesse na união aduaneira, poderia ser uma solução. Mas perderia do Partido Unionista Democrático o apoio à sua magra maioria no Parlamento. A eventual entrada na segunda fase de negociações UE-Reino Unido será tomada pelos Estados-membros no próximo Conselho Europeu, dia 15 de dezembro.