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“Falsas, fraudulentas e fictícias”: a confissão que abre uma nova porta na investigação sobre interferência russa nas eleições americanas

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Foi conselheiro de Trump durante 25 dias e, quando caiu em desgraça por alegado conluio com o lado russo, o presidente Trump defendeu-o. Agora, Michael Flynn quer colaborar com o FBI e o advogado de Trump responde: "Nada na confissão ou acusação implica outra pessoa que não Flynn"

Era sexta-feira de manhã quando o homem de fato escuro e gravata às riscas entrou no tribunal federal de Washington, onde esteve 45 minutos, tempo suficiente para abalar a administração Trump e fazer notícias um pouco por todo o mundo. Bastaram duas palavras: "Sim, senhor".

Foi desta forma que Michael Flynn, que foi conselheiro de segurança nacional de Trump - já depois de ter sido membro ativo da campanha do atual presidente norte-americano -, respondeu ao juiz nesta sexta-feira, quando questionado sobre se mentiu ao FBI no âmbito da investigação a suspeitas de interferência russa nas eleições norte-americanas. "Tem sido extraordinariamente doloroso suportar tantos meses de falsas acusações de traição. Mas reconheço que as ações que admiti em tribunal foram erradas e, através da minha fé em Deus, estou a trabalhar para as corrigir", admitiu Flynn. Ao fazê-lo, poderá ter aberto um novo caminho para a investigação conduzida pelo procurador especial Robert Mueller, que o acusou de fazer declarações "falsas, fictícias e fraudulentas".

O caso de Flynn começou a ser investigado escassos dias depois de Trump ter tomado posse como presidente dos Estados Unidos, por haver suspeitas de se ter coordenado com Moscovo em várias matérias quando ainda fazia parte da campanha do multimilionário. Nos dias 22 e 29 de dezembro do ano passado, Flynn encontrou-se com o embaixador russo em Washington, Sergei Kislyak, para pedir a colaboração da Rússia no adiamento do voto de uma resolução da ONU e para influenciar os russos no sentido de não reagirem às sanções que acabavam de ser anunciadas pela administração de Obama, por o país de Putin ter interferido com hackers na campanha. A ação de Flynn teve o resultado esperado: a Rússia acabou mesmo por decidir não reagir às sanções.

Mas o FBI não demorou a lançar suspeitas sobre Flynn, suspeitas essas que acabaram mesmo por determinar o fim da sua curta estada na administração Trump. O então conselheiro nacional de segurança segurou o cargo durante apenas 25 dias, até sair e admitir ter dado "informação incompleta" sobre os seus contactos com os russos ao vice-presidente Mike Pence. Agora, diz estar disposto a cooperar com as autoridades, com quem chegou a acordo - acusado apenas de ter mentido ao FBI, Flynn deve submeter-se ao teste do polígrafo e testemunhar quando for preciso no caso das suspeitas de interferência russa, adianta o "New York Times". Assim, sujeita-se, depois de se ter declarado culpado, a uma pena máxima de seis meses e multa de 9500 dólares, conta o "The Guardian" - penas bastante mais leves do que as que teriam lugar se as acusações estivessem diretamente relacionadas com os contactos com os russos ou até uma possível traição ao país.

Uma relação que azedou

A confissão de Flynn pode ser o primeiro grande rombo para a administração atual, uma vez que Flynn se prepara para cooperar com as autoridades e a relação com Trump parece esfriar cada vez mais. Na altura em que Flynn se demitiu, dizia Trump: "Não acho que ele tenha feito nada de errado. Até fez algo correto. Ele estava só a fazer o seu trabalho. O problema é que não contou corretamente ao vice-presidente e depois disse não se lembrar". Em fevereiro, o presidente reclamou sobre o "tratamento injusto" que estaria a ser dado a Flynn. E em março tweetou sobre a "caça às bruxas" que estaria a ser levada a cabo pela imprensa e pelos democratas, uma "desculpa pela grande perda nas eleições".

Agora, o advogado de Trump, Ty Cobb, citado pelo "New York Times", sublinha que "nada na confissão ou acusação implica outra pessoa que não Flynn". Isto apesar de Flynn ter confessado que recebeu instruções de membros "seniores" da equipa aquando dos seus contactos com os russos - um deles será, segundo um advogado que está a par do processo e foi ouvido pelo mesmo jornal, Jared Kushner, genro de Donald Trump e marido da sua filha Ivanka.

A equipa de Trump descreve agora Flynn como um "antigo membro da administração Obama" - Flynn foi chefe da Agência de Defesa até 2014, altura em que foi despedido por Obama, que, segundo a imprensa norte-americana, chegou mesmo a deixar avisos sobre Trump sobre o antigo general, que se juntou então à campanha do atual presidente. Já neste sábado, Trump escreveu no Twitter: “Tive de despedir o general Flynn porque ele mentiu ao vice-presidente e ao FBI (polícia federal). Ele declarou-se culpado dessas mentiras. É triste, porque as suas ações durante a transição foram legais. Não havia nada a esconder!”.

No âmbito das investigações do FBI - que são conduzidas por Robert Mueller depois de Trump ter despedido o seu antecessor, James Comey, a quem terá pedido, segundo o próprio, para "deixar cair" a investigação a Flynn - o circulo mais próximo do presidente norte-americano está a ser atingido. Flynn é já a quarta pessoa da campanha ou administração Trump a ser acusada pelo FBI, somando-se ao antigo diretor de campanha Paul Manafort, ao membro da campanha Richar Gates e ao antigo conselheiro George Papadopoulos (que também confessou ter prestado falsas declarações ao FBI).