Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Os Romanov foram mortos num ritual judeu? Confessor de Putin acha que sim

Imagem de Nicolau II e da sua família presente na Catedral do Sangue Derramado, em Yekaterinburg, Rússia, erigida no exato local onde os bolcheviques executaram o czar e a sua família em 1918, pondo fim à dinastia dos Romanov

MLADEN ANTONOV / AFP / Getty Images

Uma das calúnias antissemitas mais infames e terríveis está de volta, aparentemente com o beneplácito oficial

Luís M. Faria

Jornalista

A Rússia vai investigar se o czar Nicolau II e a sua família foram mortos num ritual judaico. A teoria é tão velha como absurda, e já tinha sido rejeitada oficialmente pelas autoridades nos anos 90. Mas o gabinete do procurador-geral vai voltar a explorá-la, em grande parte, sem dúvida, por iniciativa da Igreja Ortodoxa Russa, que em 2000 declarou santos Nicolau II, a sua esposa e os seus cinco filhos, todos executados em 1918. “Levamos a teoria do assassínio um ritual muito a sério”, diz o bispo Tikhon Shevkunov, confessor pessoal do Presidente Vladimir Putin.

O bispo exigiu que as alegações fossem “substanciadas e provadas” através de uma “avaliação psicológica e histórica”, notando que o tanto o líder dos assassinos como o homem que lhe deu a ordem eram judeus. O bispo não referiu o nome do principal responsável, Lenine, sem cuja aprovação as execuções jamais teriam acontecido. Lenine não era judeu.

Além do bispo Tikhon, outros responsáveis da igreja afirmaram-se igualmente convencidos da teoria. Numa altura em que o governo russo tem uma aliança estratégica com a Igreja Ortodoxa e o poder judicial cumpre ordens do Kremlin, não surpreende que um membro da comissão de investigação estatal sublinhe a necessidade de “resolver questões sobre se o assassínio da família Romanov teve uma possível componente ritual”.

O velho libelo de sangue

Uma deputada pró-Putin também chamou à execução dos Romanov “um terrível assassínio ritual”, acrescentando: “Muitas pessoas têm medo de falar disso, mas toda a gente sabe que aconteceu. É maligno”. Uma das provas invocadas é que, no pelotão de fuzilamento que matou os Romanov, cada membro tinha um alvo destinado, mas todos quiseram disparar contra o czar, tendo o líder do pelotão supostamente explicado que eles encaravam o ato como um ritual.

Representantes judaicos no país reagiram com indignação. Lembrando a longa e infame tradição histórica do libelo (ou calúnia) de sangue, que justificou de massacres de judeus ao longo dos séculos – dizia-se que os judeus matavam crianças para usar o sangue delas na fabricação de pão –, o presidente da Federação das Comunidades Judaicas, Alexander Boroda, afirmou que era lamentável tratar ideias desse tipo como merecedoras de uma investigação séria.

A ideia de que a revolução bolchevique foi obra dos judeus foi partilhada por muita gente, a começar pelos fascistas e os nazis que a tomaram como o seu grande inimigo a partir dos anos 20. A presença de vários intelectuais judeus entre os líderes bolcheviques – o mais proeminente dos quais Trotsky – alimentou essa teoria conspirativa durante bastante tempo. E nem as sucessivas perseguições lançadas por Estaline contra os judeus conseguiram destruí-la.