Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

França pede à ONU que sancione responsáveis por leilões de escravos na Líbia

Suecos saíram à rua no sábado em Estocolmo para exigirem medidas de combate à escravatura na Líbia

CLAUDIO BRESCIANI

Na reunião de emergência convocada pelo Conselho de Segurança para debater o flagelo denunciado pela CNN em vídeo, o embaixador francês pediu que "se identifiquem os indivíduos e entidades ligados ao tráfico [humano] em todo o território líbio"

O embaixador de França na ONU pediu na terça-feira aos membros do Conselho de Segurança que aprovem sanções contra as pessoas envolvidas no tráfico e escravatura de refugiados e migrantes africanos encurralados na Líbia.

Durante a reunião de emergência do Conselho, convocada por Paris após a CNN ter divulgado vídeos onde se vêem migrantes a serem leiloados como gado em Trípoli, François Dellatre declarou que "França vai propor-se a apoiar o comité de sanções para identificar os indivíduos e entidades responsáveis pelo tráfico [de humanos] em todo o território líbio".

O representante de Emmanuel Macron na ONU pediu o apoio de todos os membros do Conselho para encontrar os responsáveis e levá-los à Justiça. "contamos com o apoio de todos para percorrermos este caminho até ao fim."

Em 2011, ano em que Muammar Kadhafi foi deposto por uma invasão liderada pelos EUA, as Nações Unidas aprovaram um programa de sanções à Líbia que permite ao Conselho de Segurança aprovar sanções contra quaisquer "indivíduos ou entidades envolvidos em ou cúmplices de [...] abusos de direitos humanos contra pessoas" do país.

Há alguns dias, quando França exigiu ao Conselho que abordasse a questão da escravatura moderna no país no rescaldo das denúncias da CNN, ativistas vieram relembrar que o tráfico humano está a ter lugar na Líbia há vários anos e que não é um fenómeno recente, uma ideia hoje reforçada por Omar Turbi em declarações à Al-Jazeera.

"Isto tem estado a acontecer há bastante tempo", defende o ativista líbio de Direitos Humanos, que trabalhou com o governo norte-americano para salvar pessoas no país. Mesmo durante a era Kadhafi, acrescenta, a Líbia "debatia-se" com tráfico de armas, de droga e também de pessoas.

Desde 2014, o país está mergulhado numa guerra civil sem fim à vista e é atualmente considerado um Estado falhado. Neste momento, o poder continua a ser disputado por governos rivais — de um lado o Conselho Nacional de Transição, reconhecido pela ONU, do outro o autoproclamado governo de Khalifa Haftar, que controla mais território. A par disso, há grupos extremistas como a al-Qaeda e o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) infiltrados no país que também estão a tentar conquistar terreno.

Na semana passada, membros do Conselho de Segurança já tinham condenado o fenómeno de escravatura moderna na Líbia, entre eles a embaixadora dos EUA na ONU.

"Ver imagens destes homens a serem tratados como gado, ouvir o leiloeiro descrevê-los como, e cito, 'rapazes grandes e fortes, bons para trabalho agrícola' devia chocar as consciências de todos nós", declarou Nikki Haley. "Existem poucas violações de Direitos Humanos e da dignidade humana tão graves como esta."

Questionado sobre se aplicar sanções aos responsáveis vai ajudar a resolver o problema, Turbi lembra que "será extremamente difícil controlar as fronteiras" na Líbia, sobretudo numa altura em que cada vez mais cidadãos da África ocidental têm estado a rumar até ao país para tentarem atravessar o Mediterrâneo central até à Europa.

"O que é realmente necessário é instituir um governo viável na Líbia, o [atual] governo da Líbia está perdido." Para o ativista, há ainda um outro problema que precisa de ser resolvido — o facto de as redes de tráfico humano que operam no território europeu, especificamente em Itália e em Malta, não estarem a ser confrontadas e desmanteladas pelos governos locais.