Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Avó ia sendo deportada por engano

WPA Pool

Paulette Wilson, que vive desde a infância no Reino Unido e sempre esteve legal, foi apanhada nas malhas da política anti-imigrante, cada mais agressiva

Luís M. Faria

Jornalista

Uma avó de 61 anos que vive no Reino Unido desde 1968 esteve prestes a ser deportada para a sua Jamaica natal após o Ministério do Interior ter considerado que se encontrava ilegal no país. Só a intervenção da deputada da sua região e de um grupo que presta assistência a emigrantes, é que impediu que ficasse com a sua vida destruída, longe da filha e da neta.

O caso é mais um exemplo dos abusos a que a política britânica, cada vez mais dura nas questões da migração, tem dado origem. Paulette Wilson, a mulher de origem jamaicana cuja história foi agora noticiada, sempre esteve em situação legal. Quando chegou ao Reino Unido, os cidadãos de antigas colónias britânicas que mantém a Rainha como soberano não precisavam de autorização oficial para lá residir. Uma lei de 1973 mudou o regime, mas declarou expressamente que a situação de quem já residia no país não era afetada.

Apesar disso, em 2015 Wilson foi notificada de que não tinha direito legal a viver na Grã-Bretanha. Seguiu-se uma batalha burocrática que teve desenvolvimentos dramáticos recentes, com Wilson a ser enviada para um centro de detenção durante uma semana – após comparecer a um encontro marcado com funcionários do Ministério do Interior – e a ser depois enviada para um outro local, em Heathrow, onde ficam pessoas na véspera de serem deportadas do país.

Décadas a trabalhar e descontar

Para ela, o pior de tudo foi a semana no centro de detenção. “Senti que não existia”, disse ao jornal “The Guardian”. “Pensava no que me ia acontecer. Tudo o que fazia era chorar, pensar na minha filha e na minha neta, a pensar que não ia voltar a vê-las. Não conseguia comer nem dormir”.

Mesmo agora, que já se encontra no apartamento da filha, comer e dormir de forma normal permanece difícil. O trauma foi demasiado grande. Ser detida e levada numa carrinha fechada para um lugar onde lhe dizem que a vão expulsar do país. E sem razão nenhuma. Wilson não só entrou legalmente no país como criou lá os seus descendentes, pagou impostos e contribuições sociais durante mais de trinta anos. Chegou a trabalhar no restaurante da Câmara dos Comuns, e ultimamente fazia voluntariado.

Uma vida normal, exceto pelo facto de, como noutros casos semelhantes, poder ser difícil provar o momento exato em que ela entrou no país. Assim explicou ao Expresso Steve Hynes, diretor do Legal Action Group (LAG), uma organização que defende pessoas em situações semelhantes às de Wilson. São sobretudo oriundas de países da Commonwealth, que têm de provar o seu status no Reino Unido”, diz. “Temos encontrado casos assim, embora não seja frequente tratar-se de gente que vive aqui há tanto tempo. Indivíduos que chegaram aqui em crianças, sim, mas não com a mesma idade”.

“A burocracia aqui não tem remédio”

A política oficial tem vindo a endurecer sistematicamente ao longo dos anos. Em 2012, Theresa May, então ministra do Interior, declarou a sua intenção de “criar, aqui na Grã-Bretanha, um ambiente realmente hostil para os imigrantes ilegais”. Desde então tem insistido nessa ideia, ciente de que o seu partido perde votos quando se constata que o saldo das entradas sobre as saídas continua muito acima do que foi prometido aos eleitores. Em vez de dezenas de milhares, há centenas de milhares pessoas a ir viver para o Reino Unido do que aquelas que saem. A vitória do Brexit no referendo do ano passado foi encarada como uma ordem para acelerar os esforços contra esse estado de coisas.

Para pessoas como Paulette Wilson, que acabam por pagar por um problema pelo qual não têm responsabilidade – chegou ao país aos dez anos de idade tendo ido viver com os avós –, tentar contestar a ordem de deportação em tribunal não é fácil. Hynes explica que o processo é extremamente burocrático e tem custos substanciais, não acessíveis a toda a gente.

“Não é obrigatório ter um advogado para fazer requerimentos”, diz. “Mas ajuda, pois trata-se de procedimentos complexos. A maior parte das pessoas acabam por precisar”. E também há custos de outra natureza, judiciais e administrativos. “A maioria das pessoas não legaliza a sua situação porque não tem meios para isso”.

“A burocracia aqui não tem remédio”, conclui Hynes. Para muita gente, a única solução é recorrer ao seu deputado [o Reino Unido usa o sistema de círculos uninominais, que responsabiliza diretamente o deputado perante os eleitores da sua zona] ou arranjar uma organização que faça lóbi em sua defesa.

“A burocracia aqui não tem remédio”

A política oficial tem vindo a endurecer sistematicamente ao longo dos anos. Em 2012, Theresa May, então ministra do Interior, declarou a sua intenção de “criar, aqui na Grã-Bretanha, um ambiente realmente hostil para os imigrantes ilegais”. Desde então tem insistido nessa ideia, ciente de que o seu partido perde votos quando se constata que o saldo das entradas sobre as saídas continua muito acima do que foi prometido aos eleitores. Em vez de dezenas de milhares, há centenas de milhares pessoas a ir viver para o Reino Unido do que aquelas que saem. A vitória do Brexit no referendo do ano passado foi encarada como uma ordem para acelerar os esforços contra esse estado de coisas.

Para pessoas como Paulette Wilson, que acabam por pagar por um problema pelo qual não têm responsabilidade – chegou ao país aos dez anos de idade tendo ido viver com os avós –, tentar contestar a ordem de deportação em tribunal não é fácil. Hynes explica que o processo é extremamente burocrático e tem custos substanciais, não acessíveis a toda a gente.

“Não é obrigatório ter um advogado para fazer requerimentos”, diz. “Mas ajuda, pois trata-se de procedimentos complexos. A maior parte das pessoas acabam por precisar”. E também há custos de outra natureza, judiciais e administrativos. “A maioria das pessoas não legaliza a sua situação porque não tem meios para isso”.

“A burocracia aqui não tem remédio”, conclui Hynes. Para muita gente, a única solução é recorrer ao seu deputado [o Reino Unido usa o sistema de círculos uninominais, que responsabiliza diretamente o deputado perante os eleitores da sua zona] ou arranjar uma organização que faça lóbi em sua defesa.