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Candidato a presidente da Fed vai a exame no Senado

Getty

Começa esta terça-feira no Senado norte-americano a audição de Jerome Powell para ocupar a cadeira mais importante dos bancos centrais do mundo, a de presidente da Reserva Federal (Fed). A dúvida é se vai demonstrar ser uma “Yellen de calças”, tranquilizando os Democratas e os Republicanos moderados, ou se vai mostrar que quer deixar uma pegada diferente, indo ao encontro dos desejos de Donald Trump que quer a sua ‘marca’ na Fed

Esta terça-feira vai ser o dia D para Jerome Powell, o escolhido por Donald Trump para presidir a partir de fevereiro à Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos, o mais importante banco central do mundo.

Este Republicano, jurista de formação com uma carreira no sector financeiro e na Administração de George Bush pai, vai começar a ser ouvido durante a tarde (hora de Portugal) no Comité sobre Banca do Senado norte-americano. Um procedimento indispensável para o seu nome poder ser depois votado pelos 100 senadores e, se recolher a maioria dos votos, sentar-se na cadeira de presidente da Fed a partir de 4 de fevereiro, por coincidência, o seu dia de aniversário. Janet Yellen, a atual presidente, a primeira mulher à frente do banco central, termina o mandato a 3 de fevereiro.

O nativo de Washington não é um novato na Fed. Foi nomeado pelo presidente Obama para o conselho de governadores em 2012 e reconduzido para um segundo mandato em 2014. Tem, portanto, tarimba no banco central. Mas a sua indicação para substituir Yellen é fruto de dois rompimentos da tradição nas últimas quatro décadas.

Um não doutorado em Economia em quarenta anos

Trump optou por romper com o hábito de nomear para um segundo mandato o chefe do banco central, mesmo que ele tivesse sido nomeado pela Administração anterior e ser de cor diferente da do presidente. Colocou um fim, também, à tradição de nomear um economista reputado, doutorado na área, em Harvard, Yale, MIT ou New York, como acontecia desde 1979, desde a nomeação de Paul Volcker.

A minoria Democrata no Senado vai querer avaliar se esse rompimento com a tradição vale a pena. Muitos analistas consideram Powell uma espécie de 'Yellen de calças', uma opção pela continuidade da estratégia imprimida à Fed pela economista desde fevereiro de 2014. Deste Republicano não se conhece nenhum voto contra nas reuniões do Comité de Política Monetária em que participou. Mesmo quando expressou críticas à terceira ronda do programa de estímulos monetários avançada por Ben Bernanke, o então presidente da Fed em 2012, ele não votou contra.

Nas suas intervenções em anos mais recentes, em 2016 e 2017, foi um defensor do “gradualismo” defendido por Yellen na estratégia de subida das taxas de juro desde final de 2015 e no momento e forma de iniciar a redução do balanço do banco central anunciada em setembro passado. Num discurso de abertura, em outubro passado, na reunião anual do Institute of International Finance, usou as mesmas expressões que Yellen e revelou as mesmas preocupações que esta quanto às incertezas e riscos.

A pegada de Trump

No entanto, Trump alegou que optou por indicar Powell porque quer deixar a sua “marca” no mais importante banco central do mundo até fevereiro de 2022 (final do mandato de Powell, que vai para além do próprio mandato do presidente dos EUA que termina em janeiro de 2021). Os Republicanos vão querer saber o que Powell vai trazer de diferente de Yellen.

Os analistas admitem que Trump esteja mais interessado em deixar a sua ‘pegada’ na revisão da dura legislação de regulamentação financeira adotada depois do colapso de 2008, uma mexida que Powell tem apoiado, do que propriamente nas taxas de juro e na redução dos ativos do banco central. O compromisso de continuidade pode ser esse mesmo – gradualismo na descontinuação da política monetária e mexidas urgentes na regulação financeira.

Powell é, curiosamente, o mais risco dos membros do conselho de governadores. Está na mão dele convencer os senadores a darem-lhe antecipadamente uma prenda de anos.

A pegada do presidente norte-americano não se vai limitar, contudo, apenas à indicação de Powell, mas também ao preenchimento dos quatro lugares vazios no conselho de governadores. Yellen já declarou que sai do conselho de sete membros logo que o seu sucessor tome posse, Além deste lugar vago, Trump tem de preencher a saída do vice-presidente Stanley Fisher, e outros dois lugares que continuam por ser ocupados desde a Administração Obama.