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Brexit, uma cortina de ferro na Irlanda

Paulo Nunes dos Santos

Em 2019, a linha de 499 quilómetros que separa as duas Irlandas passará a ser a única fronteira terrestre entre o Reino Unido e a União Europeia. Uma fronteira praticamente invisível, atravessada por milhares de pessoas todos os dias. Mas será que continuará assim depois do ‘Brexit’?

Paulo Anunciação, no norte da Irlanda (texto), Paulo Nunes dos Santos (fotos)

John Deighan, de 28 anos, vive em Muff e trabalha numa agência de comunicação no centro de Londonderry. Todos os dias ele faz a viagem de ida e volta, de carro, com a namorada — uns 20 ou 25 minutos de cada vez, se não houver complicações na estrada. John é da Irlanda do Norte e tem passaporte britânico. Vive há quatro anos em Muff, uma aldeia sem charme no condado de Donegal, na República da Irlanda. Londonderry (ou só Derry, para os católicos) é a segunda maior cidade da Irlanda do Norte. Todos os dias John e a namorada atravessam a fronteira para ir para o trabalho.

Mas John e milhares de outros residentes nos dois lados da fronteira irlandesa não sabem como será a partir de 2019. No dia 23 de junho de 2016, os eleitores do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte votaram maioritariamente a favor da saída da União Europeia. O ‘Brexit’ entrará em vigor, em definitivo, em abril de 2019. Nessa altura, a linha contorcida de 499 quilómetros que separa os territórios da Irlanda do Norte e da República da Irlanda será a única fronteira terrestre (juntamente com uma pequena faixa de 1,2 quilómetros em Gibraltar) entre a União Europeia e o Reino Unido.

“É um assunto que nos preocupa a todos. Falamos nisso todos os dias”, diz John, sentado num banco de madeira do The Workshop Coffee Co., um café inesperadamente cool na aldeia de Muff. “Ninguém sabe o que vai acontecer com o corte [com a União Europeia]: fronteira aberta, fronteira rígida, alfândegas, burocracia? Estamos numa embrulhada que quase ninguém, nesta região, realmente quis.”

Empecilho. A linha divisória na fronteira atrapalha a vida dos habitantes da Irlanda desde 1922

Empecilho. A linha divisória na fronteira atrapalha a vida dos habitantes da Irlanda desde 1922

Paulo Nunes dos Santos

Ao contrário do que aconteceu na Inglaterra e País de Gales, os eleitores da Irlanda do Norte votaram maioritariamente (56%) contra o ‘Brexit’. Nas zonas mais próximas da fronteira, a percentagem foi ainda maior: quase dois terços votaram a favor da manutenção do Reino Unido na União Europeia.

Duas décadas de paz na Irlanda do Norte trouxeram crescimento económico e uma conexão cada vez maior entre as populações dos dois lados da fronteira. Jovens britânicos, como John, preferem viver na República porque as casas são mais baratas. O pai da namorada, agricultor, tem dois terrenos contíguos perto da linha de fronteira — um pertence à República, o outro à Irlanda do Norte. Vacas e ovelhas pastam num e noutro livremente. A mãe, irlandesa, foi recentemente tratada no novo centro oncológico do Hospital Altnagelvin, em Londonderry — do outro lado da fronteira.

De acordo com um relatório parlamentar recente, 177 mil camiões (e 1,85 milhões de carros) atravessam a fronteira por mês. Um terço das exportações da Irlanda do Norte vai para a República da Irlanda. Quase 50 milhões de litros de leite atravessam a fronteira todos os meses. A cerveja Guinness, produzida em Dublin, é transportada em longos camiões-cisterna, conhecidos como “silver bullets”, para engarrafamento em Belfast. Depois é transportada de volta para a República.

“Nenhum empresário quer voltar a ter uma fronteira rígida, com alfândega, papelada e tempo perdido. Seria um regresso ao passado”, diz Seamus McGarrigle, de 65 anos, importador de sapatos portugueses e espanhóis. McGarrigle tem duas lojas na Irlanda do Norte e uma na República da Irlanda. Sentado com outros empresários no café do centro de congressos de Strabane (Irlanda do Norte), ele mostra com orgulho a carteira com duas secções separadas — uma para libras esterlinas, outra para euros.

Uma fronteira praticamente invisível

A fronteira percorre o norte da ilha aos ziguezagues, sem grande lógica. Como se a linha tivesse sido desenhada a lápis por uma criança de oito anos. Por vezes, os dois países estão separados por algum acidente geográfico, como o rio Foyle ou o lago Melvin. Mas estas são as exceções. Na maior parte dos casos, a fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda atravessa, sem cerimónia, pontes, herdades agrícolas ou simples campos de pasto. Corta aldeias e paróquias ao meio. Por vezes separa casas onde é possível dormir num país e tomar o pequeno-almoço noutro — e tudo isto debaixo do mesmo teto.

A demarcação da fronteira feita na década de 1920, quando a República se tornou independente, formalizou anomalias como o Drummully Polyp, um pedaço da República da Irlanda encravado dentro da Irlanda do Norte. Este Drummully Polyp, também conhecido por Coleman’s Island ou The Connons, parece-se com uma pequenina peça de um puzzle. Tem 11 quilómetros de extensão e um máximo de cinco de largura, em certos pontos. Menos de 100 pessoas vivem nesta “ilha” que está ligada ao território da República por uma faixa estreita com pouco mais de 100 metros. Provavelmente Usain Bolt conseguiria atravessar estas duas fronteiras em menos de 15 segundos.

Em 1924, uma comissão de revisão da linha fronteiriça ainda tentou extrair este pólipo e corrigir a aparente deformidade. Sem êxito. A fronteira manteve-se intocada, ziguezagueando para norte e para sul, respeitando as antigas divisões que resultaram das guerras medievais entre o clã McMahon (cujos terrenos deram origem ao atual condado de Monaghan, na República da Irlanda) e o clã Maguire (que deu origem ao condado de Fermanagh, na atual Irlanda do Norte).

O Drummully Polyp é atravessado pela estrada A3/N54, uma das vias principais da Irlanda do Norte. O trajeto mais curto entre as cidades irlandesas de Clones e Belturbet, por exemplo, implica utilizar esta via — e implica, portanto, atravessar território que pertence ao Reino Unido. Em pouco menos de dez minutos percorrem-se 11 quilómetros e atravessa-se a fronteira quatro vezes. A linha do comboio, que segue por perto, atravessa a fronteira seis vezes no espaço de oito quilómetros.

Nesta zona não é fácil descobrir qual dos dois países se está a atravessar. Os campos são iguais, as árvores e as casas com os seus telhados escuros também. Os drumlins — os montes pequenos e redondos que deram o nome a este enclave — são parecidos nos dois lados da fronteira. A linha fronteiriça coincide durante umas centenas de metros com uma das estradas secundárias do Drummully Polyp. Isso significa que quem circula para norte está em território britânico e quem circula no sentido contrário, para sul, está em território irlandês.

“Antigamente conseguia adivinhar-se a religião de cada agricultor [protestante, predominante no norte, ou católico, no sul] consoante a forma como eles cortavam as sebes e cercas vivas que delimitavam cada terreno. Mas agora nem isso”, explica Frank McNally, colunista do diário “Irish Times” e autor do livro “An Irishman’s Diary”. “Mesmo para alguém como eu, que cresci numa zona fronteiriça — e sou supostamente mestre, portanto, naquilo a que Sigmund Freud chamava ‘o narcisismo das pequenas diferenças’, que ajuda a forjar o sentimento de identidade —, é difícil dizer em que território nacional se está”, diz ainda McNally.

Trauma. Quase 20 anos após a assinatura do Acordo de Belfast que pôs fim ao conflito, o fantasma da guerra continua no ar

Trauma. Quase 20 anos após a assinatura do Acordo de Belfast que pôs fim ao conflito, o fantasma da guerra continua no ar

Paulo Nunes dos Santos

A fronteira é praticamente invisível. A qualidade das estradas costumava ser um indicador do país (antigamente, as estradas da República da Irlanda tinham muito mais buracos do que as da Irlanda do Norte), mas isso deixou de acontecer. Não há bandeiras nacionais nem placas a dar as boas-vindas. Quem faz aquele trajeto de automóvel entre Clones e Berturbet ou qualquer outro através dos dois territórios notará ocasionalmente que a sinalização passa a ser feita em milhas (quando se está na Irlanda do Norte) ou em quilómetros (na República da Irlanda). O alcatrão por vezes muda de cor na linha da fronteira. Outras vezes as marcações no limite da faixa de rodagem passam a ser amarelas (na República) ou brancas (no Reino Unido) e nada mais.

Para os mais distraídos, as lojas de foguetes e as gasolineiras com reclames em letras e números garrafais — e preços simultaneamente em euros e libras — serão um dos indicadores mais óbvios de que se está a entrar em terreno fronteiriço. Os foguetes e o fogo de artifício ainda hoje não podem ser comprados sem licença na República. Muitas lojas vendem-nos livremente do outro lado da fronteira, em território britânico. O gasóleo é muito mais barato na República da Irlanda e muitos motoristas do norte atravessam regularmente a fronteira para encher o depósito de gasóleo.

“Atravesso a fronteira dezenas de vezes por semana. Para quem vive aqui, é impossível não o fazer”, diz Michael McCaffrey, à porta da igreja de Santo Afonso, num dos pontos mais altos de Drummully Polyp. “Antigamente era um pesadelo ir ao mercado em Clones. Tínhamos de fazer circuitos muito elaborados para evitar o risco de sermos acusados de entrar em território do Reino Unido.”

Ninguém quer o relógio 
a andar para trás

Crossmaglen é uma pequena cidade no condado de Armagh, na Irlanda do Norte, a poucos quilómetros da fronteira. A zona foi uma das mais afetadas por “The Troubles” (Os Problemas), a expressão algo eufemística que descreve o período de conflito brutal, nas três últimas décadas do século passado, entre a comunidade unionista (de religião protestante, maioritária na Irlanda do Norte) e a comunidade nacionalista e republicana (católica). Os unionistas, concentrados nas zonas urbanas, defendem a manutenção dos laços históricos com o Reino Unido. A comunidade nacionalista, ao contrário, é partidária da integração da província na República da Irlanda e ocupa sobretudo as zonas rurais perto da fronteira.

Os “Troubles” causaram quase 3500 vítimas mortais entre 1969 e 1998. Nesse período, 124 soldados britânicos e 58 polícias morreram na zona sul de Armagh, muitos deles na cidade de Crossmaglen. O exército tinha uma presença enorme numa região que era conhecida, na altura, como “terra de bandidos”. Apesar das múltiplas torres de vigia e dos checkpoints nas estradas e nas ruas, os ataques e emboscadas por comandos terroristas republicanos do IRA eram frequentes. Na praça principal havia sinais onde se podia ler, com uma ironia macabra, “Snipers at work” (Atiradores a trabalhar). “Em Crossmaglen, até os cães são do IRA”, dizia-se na altura.

Ainda hoje, quase 20 anos após a assinatura do Acordo de Belfast (ou Acordo da Sexta-Feira Santa) que pôs fim ao conflito, a cidade não esconde as suas simpatias. Crossmaglen tem cerca de 1500 habitantes e a população pertence na sua esmagadora maioria à comunidade nacionalista católica. A Praça Cardeal Ó Fiaich, no centro da cidadezinha, tem uma placa que comemora o local “onde se rezou o rosário todas as noites durante a greve da fome [dos presos do IRA] de 1981”. Ali perto, na North Street, a parede do Murtagh’s — um dos pubs mais acolhedores da terra — ainda tem as marcas das balas que atingiram Daniel Blinco, o último soldado britânico assassinado pelo IRA, na região sul de Armagh, antes do cessar-fogo de 1994. Ao lado da igreja de São Patrício, uma bandeira tricolor da República da Irlanda adorna outra pedra memorial em honra dos 12 grevistas da fome que entre 1974 e 1981 “sacrificaram as suas vidas durante esta fase da luta pela liberdade na Irlanda”.

“Se daqui a dois anos voltarmos a ter fronteiras com guardas britânicos armados e controlos alfandegários, tenho a certeza de que dentro de cinco anos as bombas regressarão [a Crossmaglen]”, diz Séamus Murphy, um antigo jornalista financeiro que atualmente edita o blogue ‘Brexit Border’. “A fronteira seria vista como uma barreira inaceitável, com os seus óbvios símbolos britânicos. Seria um convite para a ação armada. Faria despertar o que ainda resta dos grupos republicanos mais extremistas.”

A praça principal de Crossmaglen deixou de ser dominada pela enorme torre de vigia montada no quartel vizinho (a torre foi demolida depois de 1998, mas o quartel ainda tem o aparato de antigamente e a muralha metálica com mais de cinco metros de altura). O centro das atenções passou a ser o Cross Square Hotel, um bar-restaurante-hotel cuja clientela é uma mistura de turistas de passagem e residentes que vêm à procura de um dedo de conversa e dois copos de Guinness. “A nova geração não se lembra dos ‘Troubles’. Mas eu cresci nessa altura e não quero voltar ao tempo em que se perdiam horas nas fronteiras e se enfrentavam barragens de controlo”, diz Gerald McMonagle, de 53 anos, patrão da casa desde 2015. “Seria como pôr o relógio a andar para trás.”

Marcas. Antigamente a qualidade das estradas costumava ser um indicador do país (antigamente, as estradas da República da Irlanda tinham muito mais buracos do que as da Irlanda do Norte). Mas isso deixou de acontecer

Marcas. Antigamente a qualidade das estradas costumava ser um indicador do país (antigamente, as estradas da República da Irlanda tinham muito mais buracos do que as da Irlanda do Norte). Mas isso deixou de acontecer

Paulo Nunes dos Santos

Paulo Nunes dos Santos

Ao longo do século XXI, quando a fronteira passou a ser praticamente impercetível, a vida destas comunidades que vivem perto da fronteira transformou-se por completo. Os residentes de um país por vezes vão à missa, frequentam uma escola ou usam os serviços de assistência social do outro lado da fronteira. As carrinhas do Royal Mail muitas vezes circulam pelas estradas do condado de Lough, na República da Irlanda. Os bombeiros da Irlanda do Norte atravessam a fronteira para dar assistência a acidentes no sul. Aos fins de semana, os jovens de Crossmaglen divertem-se nas discotecas de Dundalk, uma cidade que fica a 20 minutos de distância, na República da Irlanda.

“Uma mão-cheia dos meus empregados vive no sul e atravessa todos os dias a fronteira para trabalhar no Cross Square Hotel. E quase metade dos meus fornecedores vem da República [da Irlanda]”, diz ainda McMonagle. “O que nos vai acontecer se voltarmos a ter fronteira rígida? No dia em que voltarmos a ter uma fronteira com agentes, câmaras de vigilância, burocracia e controlos, derrubamos em menos de 24 horas tudo aquilo que foi construído, passo a passo, nos últimos anos.”

Uma fronteira eletrónica 
entre os dois Estados

A linha divisória na fronteira é um empecilho que atrapalha a vida dos habitantes da Irlanda desde 1922 e ameaça voltar a fazê-lo agora, quase 100 anos mais tarde. Durante grande parte do século passado, os controlos alfandegários eram uma dor de cabeça — exceto, talvez, para as famílias de contrabandistas que floresceram com o transporte ilegal de mercadorias tão variadas quanto manteiga, chá, contracetivos, cigarros, livros proibidos, sapatos ou, inclusive, automóveis. Em cada pub de aldeia na raia ouvem-se, ainda hoje, histórias rocambolescas sobre o negócio do contrabando.

Durante os “Troubles”, as dificuldades aumentaram. Além das inspeções alfandegárias, as pessoas tinham de submeter-se a demorados controlos de segurança, com agentes dos dois lados da fronteira a verificar bilhetes de identidade e a questionar para onde se ia, por quanto tempo e porquê.

Esta dor de cabeça fronteiriça chegou ao fim na década de 90. A grande mudança começou com a criação do mercado único europeu, em janeiro de 1993, e a institucionalização da livre circulação das mercadorias — e consequente destruição das barreiras alfandegárias — entre países membros da União Europeia. No ano seguinte, o IRA anunciou um cessar-fogo, o primeiro gesto de uma série de iniciativas de pacificação que culminaria com a assinatura do Acordo de Belfast, em abril de 1998.

Pouco a pouco, as alfândegas foram desmanteladas. Os pontos de controlo, os arames farpados e as torres de vigia foram desaparecendo ao longo da fronteira. Muitas vias transfronteiriças — bloqueadas ou destruídas anteriormente pelo exército britânico, por razões de segurança — foram reabertas. Atualmente pode atravessar-se livremente a fronteira entre a Irlanda do Norte e o Reino Unido em mais de 200 pontos oficiais. “Só dou conta de que atravessei [a fronteira] e estou noutro país quando recebo a mensagem no telemóvel”, diz Megan McCabe, uma adolescente que trabalha ocasionalmente na única mercearia da aldeia de Pettigo, no condado de Donegal, na República da Irlanda.

A aldeia é atravessada pelo rio Termon, que nesta região serve de fronteira entre os dois países. Megan nasceu e cresceu em tempo de paz, mas como todas as pessoas que vivem na fronteira tem uma história para contar: “O IRA uma vez pôs uma bomba na loja dos Johnstons, que são protestantes e vivem no outro lado da aldeia [na Irlanda do Norte]. A explosão foi tão grande que os estilhaços voaram sobre o rio e quase mataram a minha mãe, que estava a dormir em casa [na República da Irlanda].”

Perto dali, Belleek é outra aldeia cortada pela linha de fronteira. A terra tem uma fábrica de cerâmica famosa e um museu que recebe mais de 150 mil visitantes por ano. A fábrica/museu fica na Irlanda do Norte. Os turistas e os camionistas enchem o depósito numa das gasolineiras a poucos metros de distância, no outro lado da fronteira — mas ainda em Belleek.

O desaparecimento das divisórias fronteiriças aproximou comunidades vizinhas como Belcoo (na Irlanda do Norte) e Blacklion (na República da Irlanda). As duas aldeias estão ligadas por uma ponte e, como em tantas outras zonas da fronteira, muitos residentes vivem num país e trabalham, estudam, rezam ou fazem as suas compras diárias no outro. Belcoo/Blacklion passaram a organizar em conjunto o desfile anual de São Patrício, em honra do santo padroeiro da Irlanda — aparentemente é o único desfile de São Patrício, no mundo inteiro, que é transfronteiriço.

Para os britânicos, a fronteira é (ou foi) uma questão de segurança — uma proteção física, mas também uma garantia da identidade política e cultural da maioria protestante que vive no norte. No referendo de 2016, 44% dos eleitores da Irlanda do Norte votaram a favor do ‘Brexit’. Este resultado, apesar de minoritário na província, reflete o sentimento dos unionistas protestantes que olharam para o referendo como uma oportunidade de reafirmação da divisão e do orgulho britânico-não-irlandês. Para os irlandeses, a fronteira era (e é) uma linha de delimitação artificial e temporária, imposta por estrangeiros. Graças ao ‘Brexit’, a possibilidade da reunificação da Irlanda voltou a ser um assunto legítimo de discussão, pela primeira vez em 20 anos.

Numa entrevista ao “Financial Times”, Peter Leary, autor de um livro recente sobre a história da fronteira (“Unapproved Routes”, 2016), explica: “A fronteira nunca foi realmente criada para controlar a circulação de pessoas, mas foi feita, sim, para controlar a circulação de mercadorias, gado e armas. Para as pessoas que criaram a fronteira, talvez ela fizesse algum sentido. Mas quanto mais nos aproximamos da linha de fronteira, mais complicada fica a situação.”

Ninguém sabe muito bem o que vai acontecer com o ‘Brexit’. Comentadores nos dois lados da fronteira, mas também em Londres e Dublin, têm sugerido a manutenção de uma fronteira soft ou aberta — tal como ela existe atualmente —, mas com novos controlos fronteiriços que seriam instalados nos aeroportos e nos portos marítimos que ligam a Irlanda ao Reino Unido. Outros têm sugerido o conceito de uma “fronteira eletrónica” entre os dois Estados. Nenhuma destas soluções, no entanto, impedirá que contrabandistas, refugiados ou imigrantes — um dos “flagelos” mais agitados pelos propagandistas do ‘Brexit’ — entrem com facilidade no território da Irlanda do Norte e atravessem uma fronteira que a partir de 2019 passará a ser a única grande fronteira terrestre entre a União Europeia e o Reino Unido.