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Saad al-Hariri: um detido “livre” ou um refém em liberdade?

FOTO ANWAR AMRO/AFP/GETTY IMAGES

Uma reunião de surpresa, uma chegada à Arábia Saudita em circunstâncias questionáveis e um anúncio de demissão, no mínimo, estranho. Uma sucessão de acontecimentos inesperados que levam a uma única questão: Saad Hariri, primeiro-ministro demissionário do Libano, é ou não um homem livre?

Helena Bento

Jornalista

Enquanto Saad al-Hariri, primeiro-ministro libanês, falava no domingo à noite, na sua primeira entrevista à televisão desde que viajara para a Arábia Saudita, eram muitos aqueles que tentavam perceber, pelas suas palavras, mas também pelas seus silêncios e pausas e expressões faciais, o que tinha afinal acontecido para o primeiro-ministro ter anunciado a sua demissão do cargo já em território saudita.

Na cabeça daqueles que assistiam à entrevista, pairava apenas uma pergunta: estaria Hariri ali sentado contra a sua vontade, frente a uma jornalista a quem o próprio tinha perguntado se queria entrevistá-lo? Ou estaria ele, afinal, tão “livre” quanto parecia – e dizia, de facto – estar? Na ausência de palavras ou explicações que ajudassem a esclarecer a dúvida central, a jornalista adotou outra estratégia, na esperança de desarmar o primeiro-ministro e fazê-lo revelar mais do que à partida quereria.

Lembrando-se de que, à chegada a Arábia Saudita, fora confiscado o telemóvel a Saad al-Hariri (segundo apurou a Reuters), a jornalista perguntou-lhe porque é que naquele momento não estava a usar o seu relógio da Apple. No entanto, a única coisa que obteve de volta foi a garantia de que o relógio “ainda” estava ali. Dez dias depois de ter viajado do Líbano para a Arábia Saudita, onde fora solicitada a sua presença para um encontro com Mohammed bin Salman, nomeado herdeiro do trono há quatro meses, continua a não haver uma resposta à pergunta: Saad Hariri é ou não um homem livre?

A chamada telefónica e as primeiras suspeitas, à chegada ao aeroporto de Riad

No dia 2 de novembro, uma quinta-feira, Saad al-Hariri recebeu uma chamada telefónica. Foi-lhe dito (não se sabe por parte de quem) que, dali a dois dias, deveria viajar para a Arábia Saudita, para um encontro com o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman. Eleito primeiro-ministro do Líbano em 2016, Saad al-Hariri é um aliado da Arábia Saudita, onde aliás nasceu e onde a sua família mantém, há vários anos, importantes negócios. Antes de partir, o ministro libanês combinou com assessores e outros membros da sua equipa que, quando regressasse, na segunda-feira, iriam em conjunto retomar uns dossiês que haviam ficado pendentes. Até aqui, tudo normal.

Foi na chegada a Riade, capital da Arábia Saudita, que a intriga começou a ganhar forma. Porque é que não fora ninguém esperar o primeiro-ministro ao aeroporto?, questionava-se recentemente uma fonte próxima do ministro à Reuters. “Não havia ninguém à espera dele.” Horas depois, o ministro anunciava a sua demissão do cargo, numa declaração transmitida pelo canal televisivo “Al-Arabiya”, com sede no Dubai, e reproduzida por televisões locais e pela agência oficial NNA. “Anuncio a minha demissão do cargo de primeiro-ministro.” Foram exatamente estas as palavras de Saad al-Hariri, que obviamente não poderia deixar de explicar, logo de seguida, por que razão decidira abandonar as suas funções assim tão abruptamente. “Sinto que a minha vida política está em risco”, disse o ministro, afirmando que o Líbano vive uma situação semelhante à que existia em 2005, antes do assassinato do seu pai, o ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, no qual estiveram envolvidos quatro membros do Hezbollah, organização política e militar apoiada pelo Irão. Em declarações ao Expresso, Shaul Shay, diretor de investigação no Interdisciplinary Center (IC), em Herzliya, Israel, diz não ter dúvidas de que Hariri “estava, de facto, sob ameaça do Irão e do Hezbollah no Líbano, até porque a demissão foi anunciada um dia depois de um encontro entre o primeiro-ministro e representantes iranianos”, no Líbano.

Já de si estranha, ou pelo menos inesperada, a demissão do primeiro-ministro teria também de vir a ser analisada à luz de outro acontecimento ocorrido no mesmo dia - o disparo de um míssil balístico a partir do Iémen, alegadamente por rebeldes houthis (acusados pelos sauditas de receberem armamento do Irão), que teria como alvo o aeroporto de Riade. O míssil foi intercetado e evitados quaisquer estragos. A Arábia Saudita considerou o lançamento um “ato de guerra”.

Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, dirige-se a centenas de apoiantes xiitas, em Beirute, capital do Líbano

Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, dirige-se a centenas de apoiantes xiitas, em Beirute, capital do Líbano

FOTO JOSEPH EID/AFP/GETTY IMAGES

A explicação do primeiro-ministro libanês pareceu pouco credível aos olhos de muitos, sobretudo no Líbano. Houve quem tivesse, de imediato, levantado dúvidas sobre os verdadeiros motivos para a sua demissão e até quem tivesse sugerido ter-se tratado de uma saída forçada. Mas porque é que a Arábia Saudita haveria de querer afastar o ministro libanês? Não há obviamente uma só resposta – até porque não é claro, ou oficial, que tenha sido essa a intenção do país sunita – mas há hipóteses - e suspeitas. Primeiro-ministro de um país que tem como Presidente um antigo general aliado do Hezbollah (Michel Aoun) e um Parlamento em que têm assento membros daquela organização, Saad al-Hariri é visto como demasiado moderado. Ou, se não demasiado moderado, pelo menos incapaz de se opor ao Hezbollah com a firmeza que a Arábia Saudita desejava. Shaul Shay acredita que a renúncia ao cargo deu-se “em coordenação com as autoridades sauditas, para evitar que o Irão, assim como o Hezbollah, continuem a manter a sua influência no Líbano”.

Num encontro recente entre o ministro libanês e representantes da Arábia Saudita, entre os quais se encontravam Thamer al-Sabhan, ministro saudita dos Assuntos do Golfo, Hariri terá aliás tentado convencer os seus interlocutores da necessidade de manter uma aliança com o Hezbollah, de modo a garantir a estabilidade e segurança no Líbano. A ideia desagradou aos sauditas, revelou uma fonte próxima do ministro libanês à Reuters, acrescentando que isso terá também contribuído para para a “demissão forçada” de Hariri.

Há também a suspeita de que a Arábia Saudita pretende substituir o ministro libanês pelo seu irmão mais velho, Bahaa Hariri, na esperança de que este reúna em si o maior número possível de características apreciadas pela Arábia Saudita: força, determinação e, sobretudo, implacabilidade no trato com o Irão. Sendo ou não certo que desejem esta substituição, os sauditas foram já avisados pelo Movimento Futuro, de que é líder Saad al-Hariri, e pelo ministro do Interior, Nohad Machnouk, de que não vão poder contar com o seu apoio para o fazer.

Instáveis e conflituosas desde 1979, ano da revolução islâmica iraniana, as relações entre a Arábia Saudita, sunita, e o Irão, xiita, entraram numa nova fase de crispação em 2015, quando os EUA, em conjunto com os restantes países do P5+1 (China, França, Reino Unido, Rússia e Alemanha), assinaram um acordo nuclear com o Irão para forçar o país a abandonar os seus planos de desenvolvimento de armas nucleares, em troca da suspensão das sanções impostas anteriormente e de uma autorização para a venda de petróleo nos mercados internacionais. Estas concessões têm permitido ao Irão aumentar a sua influência na região do Médio Oriente, nomeadamente na Síria, onde tem sido, assim como a Rússia, um importante aliado de Bashar al-Assad no combate ao autoproclamado Estado Islâmico (e, segundo uma investigação do “The Guardian”, no repovoamento de algumas áreas, mobilizando populações xiitas para zonas anteriormente ocupadas por sunitas). Algo que, evidentemente, não tem agradado à Arábia Saudita.

Uma demissão “ilegal e inconstitucional”, a visita surpresa de Macron e o apelo de Trump

Mais do que dividir o país, a demissão do primeiro-ministro juntou vários setores da sociedade e política libanesas no coro de críticas aos sauditas. Michel Aoun, Presidente do Líbano, garantiu que não iria aceitar a decisão a não ser que a mesma venha a ser transmitida pessoalmente pelo próprio ministro demissionário. Aoun disse ainda não ter quaisquer dúvidas de que Hariri está “detido”. Já o xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, qualificou a demissão de “ilegal e inconstitucional”, por ter sido conduzida “sob coerção”. Como forma de manifestar o seu apoio ao primeiro-ministro, centenas de pessoas presentes, no último domingo, na maratona anual de Beirute, usaram t-shirts e exibiram cartazes onde se liam mensagens como “Queremos o nosso PM de volta”.

Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, é o homem forte de Riade neste momento

Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, é o homem forte de Riade neste momento

FOTO JONATHAN ERNST/GETTY IMAGES

A quase nove mil quilómetros dali, em Manila, capital das Filipinas, Donald Trump manifestou no passado sábado o seu apoio a Saad al-Hariri, que descreveu como “um parceiro de confiança dos EUA”, e pediu que a “soberania, a independência e o processo constitucional do Líbano” sejam respeitados.

Já o Presidente francês, Emmanuel Macron, deslocou-se de surpresa à Arábia Saudita para um encontro com o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, o homem forte de Riade neste momento, que tem vindo a cimentar o seu poder de influência ao liderar um comité responsável por investigar casos de corrupção no país (dezenas de príncipes, ministros e ex-ministros, assim como alguns dos homens mais ricos do reino foram já detidos por alegados crimes de corrupção, numa purga sem precedentes).

Ninguém deseja uma guerra no Líbano, sobretudo quando a situação ali perto, na Síria e no Iémen, é já tão má. “Não vejo nenhuma parte interessada numa escalada da violência, apesar de haver uma grande tensão e as coisas poderem ficar fora de controlo rapidamente”, afirma Shaul Shay. Se isso vai acontecer ou não, ninguém sabe. Do mesmo modo que não se sabe o que vai acontecer quando o primeiro-ministro demissionário regressar ao Líbano, já daqui a “dois dias”, conforme o próprio anunciou a partir da Arábia Saudita.