Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Nova Zelândia sob crescente pressão para intervir na crise de refugiados da Austrália

Centenas de australianos continuam a manifestar-se em Camberra e Sidney contra inação de Malcolm Turnbull

WILLIAM WEST / GETTY IMAGES

Ativistas estão a pedir a Jacinda Ardern, a nova primeira-ministra neozelandesa, que tome decisão unilateral de acolher centenas de homens detidos num campo offshore da Austrália, na ilha de Manus

Ativistas de Direitos Humanos da Nova Zelândia estão a pedir ao novo governo trabalhista do país que contorne o proforma de conversações oficiais com a Austrália para resolver a crise humanitária na ilha de Manus — uma das ilhas da Papua Nova Guiné onde Camberra tem estado a colocar os refugiados que lhe pedem asilo mas cujo centro de detenção foi encerrado sob ordens do Supremo Tribunal local.

Face ao finca-pé da Austrália, que tem um dos mais restritivos programas de acolhimento de refugiados do mundo, a primeira-ministra neozelandesa, Jacinta Ardern, disse que está disponível para receber no país 150 dos 600 requerentes de asilo que estão atualmente barricados no centro de detenção de Manus, a viver há mais de uma semana sem eletricidade, sem instalações sanitárias e sem acesso a tratamentos médicos, dizendo que temem pela sua segurança caso sejam transferidos para outras zonas da Papua Nova Guiné.

Há uma semana, o chefe do governo australiano, Malcolm Turnbull, recusou a oferta de Ardern numa altura em que a situação dos refugiados continua a deteriorar-se, com a Amnistia Internacional a avisar que há agora 90 homens doentes no local.

Face à recusa, a primeira-ministra neozelandesa prometeu pressionar Turnbull a aceitar a sua proposta, durante a cimeira da ASEAN, a decorrer esta segunda e terça-feira em Manila, sob o argumento de que falar diretamente com o governo australiano é “a rota mais rápida” para resolver a crise.

Hagen Hopkins

“Fizemos esta oferta porque entendemos que existe uma grande necessidade”, declarou Ardern no Vietname antes de partir para a capital filipina. “Não interessa que etiqueta lhes pomos, existe uma absoluta necessidade e nenhum mal está a ser feito. Vejo os rostos humanos disto e vejo o papel urgente que a Nova Zelândia tem de desempenhar. Penso que é claro que olhamos para o que está a acontecer como algo inaceitável, é por isso que apresentámos a proposta.”

Futuro incerto, pressões a aumentar

Esta manhã, os dois líderes ainda não se tinham encontrado para debater formalmente o assunto. Em entrevista à rádio neozelandesa, também esta terça-feira, um deputado da Papua Nova Guiné, Charlie Benjamin, sugeriu que o governo da Nova Zelândia deve contornar a Austrália e discutir a proposta diretamente com o governo do seu país e com a ONU — uma sugestão já feita por ativistas neozelandeses que prestam apoio a requerentes de asilo.

Arif Said, do Conselho Neozelandês para os Refugiados, defende que Ardern tem “liberdade” para contornar o governo australiano quando o que está em causa é uma obrigação humanitária. “A Nova Zelândia é uma das signatárias da Convenção da ONU para os Refugiados e, se a Austrália não aceita a oferta neozelandesa, então a Nova Zelândia deve ir diretamente à Papua Nova Guiné”, defende Said. “A situação está a ficar pior de dia para dia. Antes que algo horrível aconteça, a Nova Zelândia tem de intervir.”

Michele Cox, CEO do Asylum Seekers Support Trust, com sede em Auckland, defende o mesmo, tendo declarado esta manhã que a primeira-ministra neozelandesa não deve esperar mais que alguns dias até tomar uma decisão. “Somos um país rico, podemos encontrar forma de apoiar [os refugiados] se for necessário e isto é uma crise, portanto seria bom que a Nova Zelândia desse um passo em frente e mostrasse as suas verdadeiras cores humanitárias.”

Citada pelo jornal “The Guardian”, Cox diz que “o governo da Nova Zelândia está a fazer o barulho que tem de fazer” e que a atual situação representa um “teste muito rápido para saber se [o governo de Ardern] está preparado para passar das palavras à ação”.

Entrevistada pelo mesmo jornal, a deputada d’Os Verdes, Golriz Gharaman, que foi a primeira pessoa a obter estatuto de refugiada na Nova Zelândia, diz que a Austrália parece estar a “empatar” a tomada de decisão sobre o futuro dos refugiados de Manus e a recorrer a “táticas de adiamento” para que a atenção dos media esmoreça.

“A indicação do Centro de Refugiados de Mangere [em Auckland] é que podem acolher entre 150 e 194 pessoas em condições normais e 250 com algum esforço; se podem acolher 250, temos os recursos para o fazer”, defende a advogada de direitos humanos que trabalha para a ONU.

Também segundo a deputada, há ONG australianas que, face à tomada de posição de Turnbull, já se ofereceram para viajar até à Nova Zelândia para ajudar no acolhimento dos refugiados de Manus caso o país acolha os 600 homens que continuam retidos na Papua Nova Guiné.

Esta terça-feira, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) pediu à Austrália que aceite a oferta inicial neozelandesa para que 150 desses requerentes de asilo sejam acolhidos imediatamente no país. “Pedimos à Austrália que reconsidere isto e que aceite a proposta”, disse o representante regional Nas Jit Iam.

Atualmente, a Nova Zelândia aceita 750 refugiados por ano, mas durante a última campanha eleitoral o novo governo trabalhista comprometeu-se a duplicar esse número nos próximos três anos. A Cruz Vermelha neozelandesa, que ajuda a integrar os requerentes de asilo acolhidos no país, já disse que está preparada para receber os refugiados de Manus.