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“Na Idade Média havia o direito de pernada, no assédio sexual é um bocadinho o mesmo espírito”

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Vítor Amorim Rodrigues, psicólogo e professor universitário no ISPA – Instituto Universitário, diz que há formas de tratar o comportamento dos assediadores mas sublinha que têm de estar genuinamente empenhados: “Muitos deles não acham que têm de mudar, acham que a sociedade é que está mal”. Denúncias de assédio sexual em Hollywood, no mundo do desporto, no universo da moda e noutras áreas de atividade continuam a vir a público todos os dias

O que é assédio sexual?
Por assédio sexual entende-se a tentativa de obtenção de vantagens sexuais num contexto de desequilíbrio. Pode ser, por exemplo, um patrão em relação a um empregado.

Os toques e apalpões são considerados assédio sexual?
Se são intencionais e sem o consentimento do outro , são assédio sexual. Pode haver aqui uma fronteira difícil de perceber, quando há a tentativa de conquista ou de manifestação de interesse por alguém. Mas apalpões e toques, quando sem consentimento, são sempre assédio.

Como é que se define essa fronteira?
É muito difícil. É preciso ver caso a caso. De facto, existem situações de fronteira. Acho que não se pode cair num certo puritanismo no sentido de confundir aquilo que seja uma manifestação de interesse romântico com aquilo que é o assédio. É preciso cuidado. Todo este mediatismo e as denúncias não me parece que seja banalizador, pelo contrário, acho muito positivo. Durante muitos anos, foi uma situação que era silenciada, um pouco à semelhança da violência doméstica. Muitas pessoas aproveitavam-se disso e até achavam que era quase inerente aos seus cargos de poder, uma espécie de cotada sexual, e até ficavam admirados quando não havia correspondência.

Quem assedia tem exatamente noção do está a fazer naquele momento?
De modo geral, sim. A certa altura pode entrar no processo psicológico em que racionaliza, em que dá justificações racionais para os seus atos quando a verdadeira motivação é outra. À posteriori, começa a racionalizar e a dar as explicações do género “ela também queria” ou “ela não recusou”. Na maioria das vezes, a vítima não recusou mas também não mostrou interesse, fica numa posição em que não sabe o que fazer, uma vez que existe este desequilíbrio de poder. Quem assedia sabe muito bem que está a tentar obter gratificação sexual com pessoas que não estão a dar consentimento.

O que passa na cabeça de uma pessoa destas? Habitualmente quem são estas pessoas?
De modo geral são personalidades narcísicas, que acham que são especiais, únicas e superiores às outras, que têm estatuto especial. A partir dessa situação, querem ter um tratamento único e diferenciado e acham que têm direito a ele. Na Idade Média havia o direito de pernada, em que os nobres tinham direito sobre as mulheres dentro do seu feudo, mesmo que fossem casadas com ouras pessoas. No assédio sexual, é um bocadinho o mesmo espírito: se sou dono de uma empresa, então porque não terei direito em gratificar-me? A pessoa está centrada em si, não está interessada no dano que isso está a causar ao outro. Os ofensores são completamente egocêntricos, o protótipo seria Dominique Strauss-Kahn [ex-diretor do FMI que em 2011 foi acusado de assédio sexual]. Falo sempre em homens, porque na maioria dos casos são homens em relações de poder sobre mulheres.

Estes comportamentos são tratáveis?
Sim, se a pessoa se empenhar. As personalidades narcísicas são tratáveis. Habitualmente, as pessoas só procuram tratamento quando estão deprimidas, não conseguem obter o reconhecimento dos outros, têm problemas com a justiça, são apanhadas ou a vida não lhes corre bem. Se estiverem genuinamente interessadas em mudar, há tratamentos eficazes. No entanto, muitas delas não acham que têm de mudar, acham que a sociedade é que está mal, porque as regras sociais não se aplicam. Enquanto mantiverem esta ideia, o tratamento está condenado ao fracasso. Quando se empenham, o centro do tratamento é psicoterapia.

E a vítima, o que lhe acontece? O que passa pela cabeça?
Tem medo. Muitas vezes fica assustada e, por vezes, sente-se culpada porque o primeiro pensamento é um pouco semelhante ao das crianças abusadas: porquê eu? Há vergonha de que as pessoas saibam e isso contribui também para silenciar. Por outro lado, têm medo das consequências, devido à relação de poder. A longo prazo, tudo isto evolui para quadros de ansiedade, depressão, desmotivação e às vezes também quadros de stress pós-traumático. Há consequências danosas deste tipo de situações.

A vítima precisa de tratamento?
Claro que sim, deve ser acompanhada. Há que ver qual o grau de assédio a que pessoa esteve sujeita: pode ter sido aquele assédio que aconteceu uma vez e que não se voltou a repetir ou que é continuado – e esse é o mais grave.

Existe alguma explicação para se falar tanto do assédio sexual?
Há uma mentalidade diferente a nível sócio-cultural, as coisas estão a mudar há algumas décadas. Há uma muito maior atenção à violência doméstica, que está relacionada com uma mudança positiva na sociedade sobre a igualdade de género. Aquilo que era entendido quase como um comportamento masculino normal - assediar mulheres - hoje tem outro entendimento. Temos de ter em consideração que por vezes pode levar a alguns abusos, no sentido em que pessoas são condenadas pela opinião pública ainda antes de serem condenadas nos tribunais. É preciso cuidado. Isso pode acontecer e, à medida que se dá mais atenção, pode haver falsas denúncias. Mas é diferente ter uma só denúncia ou várias. De modo geral, o assediador repete o comportamento e tem um modus operandi muito semelhante, ou seja, repete o mesmo tipo de comportamento e de frases com várias mulheres. Isso é um indício forte, que depois tem de ser provado em tribunal que estamos perante um crime.