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Exército de Myanmar isenta-se de responsabilidades na crise dos Rohingya

O Bangladesh já acolheu mais de 600 mil refugiados de Myanmar, desde o final de agosto

MUNIR UZ ZAMAN / GETTY IMAGES

O exercício de auto-exoneração surge na véspera da visita do chefe da diplomacia dos EUA ao país e a uma semana de os birmaneses acolherem o 13.º encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros do Diálogo Ásia-Europa, que integra 51 nações dos dois continentes

As forças armadas de Myanmar divulgaram, esta terça-feira, os resultados de uma investigação interna à sua atuação no estado de Rakhine, um relatório no qual o Exército se isenta de responsabilidades pela “operação de limpeza” que já levou mais de meio milhão de muçulmanos da etnia Rohingya a fugirem para o Bangladesh, desde o final de agosto.

No documento, as forças armadas — que mantiveram a antiga Birmânia em ditadura militar durante mais de 50 anos e que continuam a controlar importantes ministérios do governo civil — rejeitam todas as acusações de que os soldados tenham executado pessoas Rohingya, queimado as suas aldeias, violado mulheres e crianças e roubado as propriedades da minoria.

As conclusões internas contradizem provas no terreno observadas pelo correspondente da BBC e por outros enviados estrangeiros desde que o Exército lançou uma proclamada campanha de “combate ao terrorismo” em Rakhine — uma operação que a ONU já classificou como um “exemplo de limpeza étnica por definição”.

A Amnistia Internacional, que há um mês acusou as forças birmanesas de crimes contra a humanidade, já reagiu ao relatório, dizendo que o Exército está a tentar “lavar a sua imagem” e voltando a exigir que os investigadores da ONU sejam autorizados a entrar em Rakhine para recolherem informações concretas sobre o que aconteceu desde 25 de agosto.

Tem sido impossível a funcionários humanitários e jornalistas acederem ao estado onde a minoria Rohingya vive concentrada. Nos últimos dois meses e meio, apenas alguns repórteres internacionais foram autorizados a entrar em Rakhine uma vez guiados pelas autoridades.

Durante essa visita, e apesar das suas muitas restrições, o correspondente da BBC, Jonathan Head, viu civis budistas pegarem fogo a uma aldeia Rohingya diante de agentes da polícia armados que nada fizeram para os travar.

Muitos dos refugiados que já chegaram ao Bangladesh, alguns deles com ferimentos de balas, dizem que as tropas birmanesas têm estado a colaborar com multidões de civis budistas na queima das aldeias e nos ataques e execuções de muçulmanos Rohingya.

“Falta credibilidade”

No Facebook, o Exército de Myanmar garantiu, esta manhã, que entrevistou milhares de pessoas de Rakhine e que todas concordaram que as forças de segurança: não mataram “civis inocentes”; não exerceram “violência sexual contra mulheres”; não “prenderam, espancaram nem mataram habitantes”; não roubaram prata, ouro, carros ou animais aos habitantes; não pegaram fogo às mesquitas dos Rohingya; não “ameaçaram, assediaram ou expulsaram os habitantes”; e que não pegaram fogo às suas casas.

Na mesma publicação, as forças armadas voltaram a sublinhar que “terroristas” dentro da comunidade Rohingya (‘Bengali’ para a maioria budista de Myanmar) são responsáveis pelas queimas de casas e aldeias e que as centenas de milhares de pessoas que já fugiram para o Bangladesh só o fizeram porque receberam instruções para tal e porque temiam esses “terroristas”.

Um porta-voz da Amnistia Internacional diz que, com estas alegações, o Exército “deixa claro que não tem qualquer intenção de apurar responsabilidades” e que “resta agora à comunidade internacional garantir que estes abusos apavorantes não ficarão sem punição”.

Na sua análise ao relatório, o correspondente da BBC no terreno defende que não é uma “surpresa para ninguém” que “o Exército se tenha exonerado de praticamente toda a culpa”. As suas conclusões, acrescenta Head, “não são credíveis, não só porque o inquérito foi exclusivamente conduzido pela mesma instituição que é acusada de cometer os abusos, mas também pela quantidade esmagadora de testemunhos de Rohingya em que descrevem as terríveis atrocidades”.

A “operação de limpeza” iniciada pelas forças birmanesas a 25 de agosto seguiu-se a um ataque de um grupo de insurgentes Rohingya, o autoproclamado Exército Arakan de Salvação Rohingya (Arsa), a postos de segurança. O International Crisis Group (ICG) diz que o grupo nasceu em reação à repressão que os Rohingya enfrentam na antiga Birmânia há décadas e que integra sobretudo homens jovens com armas caseiras e algum treino estrangeiro.

A atual crise dos Rohingya em Myanmar tem levado a um crescente coro de críticas a Aung San Suu Kyi, laureada com o Nobel da Paz na década de 1990 pela sua resistência pacífica à Junta Militar que, em 2016, venceu as primeiras eleições totalmente livres do país.

Apesar de estar impedida de ser Presidente, Suu Kyi é tida como a atual líder de facto de Myanmar e, ao longo destes meses, tem rejeitado as acusações dos grupos de Direitos Humanos e da ONU, garantindo que a maioria dos Rohingya não fugiu do país. Antes disso, chegou a acusar várias ONG como a Amnistia e a Human Rights Watch de estarem a “ajudar terroristas”.

Os resultados do relatório interno do Exército surgiram um dia antes da chegada de Rex Tillerson, secretário de Estado dos EUA, a Naypyidaw. O chefe da diplomacia norte-americana vai encontrar-se com as autoridades birmanesas na capital, esta quarta-feira, uma semana antes de os ministros dos Negócios Estrangeiros de 51 nações asiáticas e europeias, incluindo Portugal, se reunirem na mesma cidade para a cimeira do Diálogo Ásia-Europa (ASEM).