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Internacional

UE está a preparar-se para colapso das negociações com Londres

Barnier mantém que ainda não houve “progressos suficientes” para se começar a discutir o futuro

AFP

Michel Barnier, chefe da delegação comunitária que está a negociar a saída do Reino Unido, diz que “todos devem preparar-se para essa possibilidade”

Michel Barnier, o homem escolhido pela Comissão Europeia para negociar a saída do Reino Unido, diz que está a preparar-se para o possível colapso das conversações com o governo de Theresa May.

O aviso foi deixado este domingonuma entrevista ao "Le Journal du Dimanche", dias depois de Barnier ter dado à delegação britânica um prazo de duas semanas para esclarecer pontos importantes da saída – e depois de David Davis, secretário britânico para o Brexit, ter declarado na sexta-feira que é altura de os dois lados "trabalharem em conjunto para encontrarem soluções" para "algumas questões importantes" que ainda estão por resolver.

No final da semana passada, Davis tinha insistido que as negociações com Bruxelas estão a progredir, isto depois de vários representantes dos interesses comunitários terem passado o último mês a alertar para a falta de avanços e para os seus riscos inerentes.

Face a isto, e discutindo a possibilidade de as negociações falharem antes de estarem concluídas, Barnier voltou a avisar este domingo: "Não é a minha escolha, mas é uma possibilidade. Toda a gente deve preparar-se para isto, tanto os Estados-membros como as empresas. Tecnicamente, também estamos a preparar-nos" para o eventual falhanço, que, a concretizar-se, "terá consequências em múltiplos domínios".

Bruxelas diz que o governo britânico e o ministro para o Brexit, David Davis, ainda não fizeram concessões suficientes

Bruxelas diz que o governo britânico e o ministro para o Brexit, David Davis, ainda não fizeram concessões suficientes

Carl Court

Neste momento, a grande questão ainda sem consenso está relacionada com as obrigações financeiras assumidas pelo Reino Unido para com a UE antes do referendo de junho de 2016, quando cerca de 51% do eleitorado britânico que foi às urnas votou pela saída do bloco europeu.

O Reino Unido quer começar já a negociar a futura relação com o bloco pós-Brexit, mas Barnier deixou claro que tal só irá concretizar-se a partir de dezembro se até lá todas as questões problemáticas do divórcio estiverem resolvidas.

Nas suas declarações na sexta-feira, Davis sugeriu que o Reino Unido ainda não tem um valor a propor para acertar a chamada "fatura do divórcio", relacionada com obrigações financeiras como os fundos que Londres se comprometeu a alocar para o Orçamento comunitário da UE até 2020 – e que não o terá antes de a futura relação começar a ser negociada.

Este domingo, em entrevista à Sky News, o ministro britânico sublinhou: "Em todas as negociações, cada lado tenta controlar o calendário. O verdadeiro prazo é, naturalmente, dezembro" – altura em que terá lugar a próxima cimeira da UE. Questionado sobre o dinheiro que o Reino Unido terá de desembolsar, Davis voltou a referir que os contribuintes britânicos "não querem que eu simplesmente chegue lá e ofereça milhares de milhões de libras" à Europa. "Temos sido muito, muito cuidadosos, está a levar tempo e vai levar o tempo que for preciso até encontrarmos a resposta certa."

Na sexta-feira, Davis também tinha feito referência à questão da fronteira com a Irlanda, outro ponto de contenda nas negociações. Depois de mais uma ronda de conversações com a equipa de Barnier em Bruxelas, a sexta desde o início das negociações em março, Davis disse que qualquer solução para a fronteira irlandesa não pode ser alcançada à custa da integridade constitucional do Reino Unido.

O choque de posições coincidiu com a intensificação das tensões internas no governo de Theresa May quanto à melhor forma de concretizar a saída da UE, numa altura em que ministros como Boris Johnson e Michael Gove continuam a defender uma saída "dura" e menos concessões a Bruxelas – e em que outros ministros os acusam de estarem a fazer uma série de exigências secretas à primeira-ministra "ao estilo de George Orwell".

May está cada vez mais enfraquecida e a enfrentar a crescente possibilidade de ver o seu projeto-lei de saída chumbado no Parlamento. Há algumas semanas, diplomatas da UE já tinham manifestado preocupações com a possibilidade de a primeira-ministra britânica não resistir no cargo até janeiro, quando as negociações da futura relação Londres-UE deveriam ter início.