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Filho de português que morreu em atentado arrasa Macron

Philippe Wojazer/Reuters

Em Saint-Denis foi lembrado Manuel Dias, o motorista português que morreu há dois anos junto ao Stade de France. O filho, Michaël Dias, recusou-se a cumprimentar Macron, critica a banalização do terrorismo e acusa o Presidente de esquecer as vítimas dos atentados

Dois anos após os atentados em Saint-Denis, homenageou-se esta segunda-feira Manuel Colaço Dias, uma das vítimas portuguesas do terrorismo em França. Numa cerimónia que contou a presença do Presidente francês Emmanuel Macron, cumpriu-se esta manhã um minuto de silêncio na cidade dos subúrbios de Paris e foi depositada uma coroa de flores junto da placa com o nome do motorista alentejano, nascido há 65 anos em Mértola, e emigrante por mais de quatro décadas em França, que morreu no dia 13 de novembro de 2015 quando levava clientes para assistirem a um jogo de futebol entre França e Alemanha, no Stade de France.

Emmanuel Macron cumprimentou a viúva e a filha de Manuel Dias, que se encontravam na primeira fila, mas o filho manteve-se estrategicamente atrás dos familiares para não ter de cumprimentar o chefe de Estado francês. A sua atitude, explica, consistiu numa forma de protesto cívico, em nome da “liberdade coletiva.”

Num artigo publicado no “HuffPost”, Michaël Dias confessa que pensava mesmo em não comparecer à cerimónia, uma vez que na sua opinião Macron “tem agido para com as vítimas do terrorismo e com os mais desfavorecidos do país de uma forma simplesmente desprezível e inaceitável.”

“O Presidente Macron esforçou-se por fazer esquecer as vítimas após a sua eleição, eliminou o cargo de secretário de Estado de Ajuda às Vítimas. Mais recentemente reduziu as ajudas a algumas vítimas, relativizando desta forma, mais uma vez, o sofrimento e as múltiplas feridas causadas”, afirma Michaël Dias.

O consultor, de 30 anos, – que defendeu há um ano, por ocasião do 1.º aniversário do atentado, a importância da educação e da tolerância para travar a radicalização de jovens jiadistas – critica agora a banalização dos atos terroristas e acusa as autoridades francesas de esquecerem as vítimas, que lutam pelos seus direitos e são um exemplo diário de resiliência.

“Depois dos atentados na redação do “Charlie Hebdo’, os atos terroristas no nosso território não pararam de se multiplicar, mas estranhamente as vozes das vítimas fazem-se ouvir cada vez menos. Nós esquecemo-nos dos nomes e dos lugares. A estratégia de banalização começou”, acrescenta.

O lusodescendente aponta diretamente o dedo ao governo de Emmanuel Macron, sublinhando que demonstra “uma clara falta de soluções” e um “desejo de minimizar a indignação legítima das vítimas”, contrariando as promessas do anterior executivo de François Hollande. “O discurso do nosso Presidente e do seu governo para as vítimas também mudou, falando agora de assistência às vítimas, como se fosse um ato de caridade, quando deveria ser visto, pelo contrário, como uma responsabilidade assumida por esses mesmos políticos e este necessariamente herdeiro de anterior executivo, para essas vidas destruídas, por sua própria ação (ou inatividade)”, insiste.

Philippe Wojazer

Críticas à governação do Presidente francês

Por último, Michaël Dias tece duras críticas à governação em geral do Presidente francês, acusando-o de ser responsável por injustiças sociais, sobretudo pelo aumento da precariedade no país. “Não podemos mais ser complacentes com os mais afortunados, mantendo essa falta de honestidade intelectual que consiste em acreditar que a desregulamentação do direito do trabalho e os benefícios fiscais permitem o regresso ao crescimento e ao pleno emprego, enquanto todos os economistas sérios demonstram que essas medidas são principalmente sinónimo de mais dívidas e precariedade”.

“Quem justifica os cortes orçamentais na educação, na segurança e na saúde, sob o pretexto de uma racionalidade económica ainda por demonstrar, merece oposição e é isso que eu apelo a todos a fazerem também”, conclui.

No ano passado, Michaël Dias proferiu um discurso emotivo quando foi inaugurada a placa que recorda o seu pai, em Saint- Denis. Na altura, o então Presidente François Hollande chegou inclusivamente a agradecer o seu apelo à tolerância e à educação como forma de lutar contra o terrorismo.