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Para Javier Cercas, o independentismo catalão é uma “ficção narcísica”

Esta semana, o escritor espanhol criticou duramente a crise na Catalunha num artigo para o jornal francês “Libération”

O escritor Javier Cercas nasceu em Cáceres, em 1962, mas é catalão por adoção. Há décadas vive na comunidade autónoma que em outubro se tornou alvo das atenções do mundo, quando um referendo a questionar a vontade independentista dos catalães foi convocado com a oposição do Governo espanhol. Autor de romances como “O Impostor” e “Os Soldados de Salamina”, e um dos maiores escritores espanhóis da atualidade, Cercas escreveu esta semana um texto de opinião no jornal francês “Libération”, onde quebrou o silêncio sobre o que pensa do conflito por que atravessa o seu país.

No estilo direto que o caracteriza, não deixou pedra sobre pedra ao dizer que considera a agitação separatista na Catalunha “um golpe ou autogolpe de Estado”, “a última chicotada, se não a mais grave, do populismo nacionalista que engendrou Trump ou o Brexit”. Para Javier Cercas, os independentistas violaram “todas as regras democráticas” na votação do próprio referendo, ao negligenciarem tanto a oposição - que esvaziou o Parlamento - como os juristas.

“A expressão ‘golpe de Estado’”, opinou Cercas, “só parecerá inapropriada àqueles que não sabem que os melhores golpes de Estado se fazem sem violência, justamente porque não se assemelham a golpes de Estado”.

O escritor qualificou também de “mentiras massivas” os argumentos dos nacionalistas, assentes numa “fábula” segundo a qual “os catalães somos o contrário dos espanhóis: gente alegre, cultivada, boa, trablhadora pacífica, europeizada, oprimida histórica e culturalmente, e asfixiada pela brutal rapina espanhola”.

“Esta ficção narcísica tem sido alimentada por sucessivos governos nacionalistas, que, desde o regresso à democracia, beneficiaram de um enorme poder e de uma grande quantidade de dinheiro.” Este dinheiro, disse Javier Cercas, foi utilizado como argumento pela causa independentista, que assim mostrou “uma absoluta deslealdade face ao Governo de Espanha, um dos mais descentralizados do mundo”.

“A desintegração de Espanha colocaria em perigo a unidade e a estabilidade da Europa”, culminou Cercas na sua crónica para o “Libération”. “Vivemos na Catalunha um fenómeno que já vimos com frequência na História, em particular na recente e desafortunada história da Europa: intoxicadas por fantasias venenosas, as melhores pessoas são capazes de cometer erros terríveis.”