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No país de Bergman, as mulheres acusam

É o efeito Weinstein. Depois do produtor de Hollywood ter sido acusado de assédio sexual, por mais de 100 mulheres, sucedem-se novas denúncias, novos nomes. O escândalo já ultrapassou Hollywood. Agora rebentou na Suécia

São já quase 600 as atrizes e artistas suecas a romperam o silêncio. Depois de numa carta publicada, na quinta-feira, no diário “Svenska Dagbladet”, 456 mulheres acusarem os homens que trabalham com elas de assédio sexual e até de violação, outros nomes se juntaram. É mais um efeito do caso Harvey Weinstein, um mês depois de o produtor de Hollywood ter sido acusado dos mesmos crimes, na sequência de uma investigação realizada pelo jornal “The New York Times”.

Mesmo que Harvey Weinstein nunca o tenha desejado (e tenha feito tudo para o encobrir), o fundador da Miramax não vai ficar na história apenas pelos filmes que fez. Ficará também como predador sexual; e provavelmente como a primeira carta que fez desmoronar um velho castelo, deixando à mostra a prevalência de um poder patriarcal que permite que se exerçam práticas de abuso sexual. Não apenas em Hollywood. Mas também no meio artístico mundial. Nomeadamente, no cinematográfico, televisivo e teatral. Nas últimas semanas, ao nome de Weinstein juntaram-se os de James Toback, Ed Westwick, Ben Affleck, Brett Ratner, Dustin Hoffman, David Guillod, Louis C. K, Steven Seagal e Kevin Spacey.

O texto das 456 atrizes suecas conta com a assinatura de nomes importantes do país, como Lena Endre, atriz na série “Millennium”, e já gerou uma reação da ministra da cultura da Suécia, Alice Bah Kuhnke. “Chocada, enojada, chateada e furiosa”, a ministra marcou uma reunião com carácter de urgência com representantes do sector e quer tomar medidas para que se quebre a regra do silêncio e se deixe de proteger os infratores.

No texto das atrizes pode ler-se: “O assédio sexual está ligado à estrutura do poder do meio, e à assimilação de um culto de génio, que ao longo da era de Ingmar Bergman permitiu aos génios masculinos qualquer comportamento, desde que as suas obras tenham um grande valor artístico.”

A denúncia das mulheres suecas surgiu depois de se ter formado um grupo para falar sobre assédio sexual, a propósito da hashtag #metoo. Em 24 horas, o grupo recolheu onze testemunhos em que os agressores são os seus colegas ou diretores, ainda que não apareçam os seus nomes.

O jornal “Le Monde” publicou algumas passagens desses testemunhos: “Ele estava bêbado e mandou-me segurar no seu pénis (…) Numa festa, seguiu-me até ao quarto de hotel, atirou-me violentamente ao chão, saltou sobre mim e segurou-me, rindo (…) Quando estávamos a ensaiar ele perguntou-me baixinho, apertando contra mim o seu pénis ereto, se poderia sugar o leite dos meus seios, já que eu estava a amamentar”.

Um dos casos acontece aliás à frente do público. A mezzo-soprano Birgitta Svendén, que dirige a Royal Opera em Estocolmo, contou que durante um espetáculo na Metropolitan Opera House, em Nova York, o cantor com quem contracenava achou que poderia brincar com os seus seios. “Todos viram o que estava a acontecer. Ninguém reagiu.”