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Internacional

UE avisa Reino Unido: têm “menos de um mês” para fazer concessões no Brexit

Bruxelas diz que o governo britânico e o ministro para o Brexit, David Davis, ainda não fizeram concessões suficientes

Carl Court

Informação está a ser avançada em exclusivo pelo “The Guardian” com base num documento onde é dito que é virtualmente impossível o governo britânico conseguir fechar um acordo de trocas com o bloco até março de 2019

O governo britânico tem menos de um mês para fazer concessões quanto ao Brexit se quer garantir que as conversações sobre a futura relação entre Londres e a UE a 27 começam em dezembro, isto numa altura em que as negociações de saída continuam num impasse e em que ainda não há um calendário definido para o acordo de transição a implementar após a saída.

Assim avança esta quarta-feira o "The Guardian", com base num documento comunitário obtido pelo jornal britânico que "confirma que é impossível o Reino Unido ter um acordo de trocas pronto em março de 2019", quando termina o prazo para completar o processo de saída da União Europeia.

Fontes em Bruxelas dizem que as negociações continuam num impasse desde o agora famoso discurso de Theresa May em Florença e avisam que será muito difícil que as conversações sobre a futura relação comecem na cimeira da UE em dezembro, a menos que a primeira-ministra britânica apresente propostas mais satisfatórias quanto ao divórcio.

Na terça-feira, depois de se encontrar com o ministro britânico para o Brexit, David Davis, foi a vez de o ministro italiano dos Assuntos Europeus, Sandro Gozi, sublinhar que "ainda há muito a fazer quanto às obrigações financeiras" do Reino Unido para com Bruxelas — leia-se, quanto à chamada "fatura do divórcio", o dinheiro que o país prometeu atribuir ao Orçamento comunitário até 2020.

Ao "The Guardian", um diplomata de Bruxelas disse sob anonimato que a UE não vai ceder no que toca ao calendário de negociações nem no que diz respeito às responsabilidades financeiras do Reino Unido para com a Europa, em particular a alocação de fundos para saldar dívidas e contribuir para o fundo europeu de pensões. "Quando preparámos as diretrizes sabíamos que íamos chegar a este momento" de impasse, disse o diplomata, garantindo que Bruxelas ainda não definiu o valor que o Reino Unido terá de desembolsar.

Neste momento, e perante a discórdia entre membros do governo de May e do seu Partido Conservador quanto à saída, Bruxelas está a começar a especular sobre que futuro aguarda a primeira-ministra, havendo diplomatas a questionar se continuará no cargo em janeiro e preocupados com a possibilidade de ser Boris Johnson, o atual chefe da diplomacia, a substituí-la na chefia do governo, o que aumentará a confusão nas negociações do Brexit.

Johnson lidera uma barricada dentro do Executivo britânico que defende que o Reino Unido deve optar por um "Brexit duro" e não fazer quaisquer cedências face às exigências da UE. Apesar das preocupações, o bloco europeu continua a preparar as negociações sobre um futuro acordo de trocas com o país a implementar depois da saída, que tem de estar concluída em março de 2019.

O documento de oito páginas a que o "The Guardian" teve acesso confirma aquilo que Bruxelas tem vindo a sublinhar há vários meses, sobre a impossibilidade de o Reino Unido concluir a negociação desse acordo dentro do prazo estipulado. A par disso, a UE também tenta congeminar formas de "assegurar que tem um campo de jogo nivelado" para que questões ambientais, laborais, de saúde e do Estado social não sejam minadas pelo Reino Unido no pós-Brexit.

São questões particularmente gritantes tendo em conta o que o secretário do Comércio dos EUA, Wilbur Ross, pediu ao Reino Unido — que, após a saída, abandone os padrões regulatórios implementados pela UE numa série de áreas. Se quiser firmar um bom acordo de trocas com os norte-americanos, avisou Ross, o governo de May deve permitir que coisas como frango com cloro sejam comercializadas no Reino Unido apesar de serem proibidas na UE.

O documento em questão emergiu depois de o ministro alemão das Finanças, Peter Altmaier, ter declarado numa recente conferência em Bruxelas que o Brexit nunca poderá ser uma "situação em que os dois lados ganham". O chefe de gabinete de Angela Merkel também citou uma conversa recente com um diplomata britânico que lhe terá pedido que pressione Bruxelas para que se alcance um cenário favorável para os dois lados "para sairmos desta confusão".

"A minha resposta", relatou Altmaier, "foi: 'ouça, quando há um casamento de 40 anos e o casal tem três filhos e uma casa, um lar, dois carros e um barco e decide divorciar-se, é muito difícil para esse casal encontrar uma solução em que ambos ganham. Na melhor das hipóteses é uma situação em que os advogados dos dois lados ganham."