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Mulher, mãe e agora desempregada: Juli Briskman, a ciclista que mostrou duas vezes o dedo do meio a Trump

BRENDAN SMIALOWSKI/ AFP/ Getty Images

Uma fotografia fez de Juli Briskman heroína das redes sociais. Essa mesma fotografia fez também com que fosse despedida. Quem é a mulher de 50 anos, com dois filhos e agora desempregada que levantou o dedo do meio a Donald Trump? Em casa tem colado na parede um autocolante que versa assim: “I’m an Obama Democrat”

Se visse o Presidente da República, dava-lhe um beijinho ou um abraço? E se o seu Presidente fosse Donald Trump, o que faria? Juli Briskman, uma norte-americana de 50 anos, aproximou-se e mostrou-lhe o dedo do meio. “Foi a oportunidade para dizer alguma coisa”, justificou mais tarde. O momento foi fotografado e partilhado nas redes sociais. Se por um lado houve elogios ao gesto e até quem apoiasse uma candidatura à Casa Branca em 2020, a nível profissional as coisas não correram tão bem: Juli foi despedida. Mas ela não está preocupada (“de certa forma, estou melhor agora do que nunca”).

“Não é algo que faça com frequência [mostrar o dedo do meio às pessoas]. Estava ali de bicicleta e, naquele momento, era a única forma de expressar a minha opinião. Não me iria ouvir através de vidro à prova de bala. Só assim podia dizer o que tinha a dizer”, explicou Juli Briskman, numa entrevista publicada esta quarta-feira pelo jornal britânico “The Guardian”.

Nunca pensou que aqueles segundos imortalizados numa fotografia tomassem as proporções que tomaram. No mês passado, Juli (@julibriskman) tinha 24 seguidores no Twitter. Até ao fecho deste texto, já era seguida por 16 mil pessoas.

“Acho que a questão de ter ressoado é porque milhões de pessoas sentem-se exatamente da mesma forma que eu… Não acho mesmo que tudo isto seja por minha causa. Não estive à frente de três tanques nem coloquei uma flor no cano de um espingarda”, disse, fazendo referência a duas fotografias icónicas: a do homem parado em frente aos tanques de guerra na Tiananmen Square, em Pequim, e a da jovem que enfrenta a Polícia Nacional durante a marcha contra a Guerra do Vietname. “Mas houve alguém que me disse que eu não percebia [a importância] porque estava na situação”, acrescenta Juli Briskman, que nasceu há 50 anos em Columbus, capital do Estado do Ohio. Foi lá, nos anos 90, que estudou jornalismo. Mais tarde, fez um MBA em Marketing na cidade de Baltimore, em Maryland. Atualmente, vive na Virgínia, não muito longe do campo de golfe de Donald Trump, com os filhos - uma jovem de 15 anos e um rapaz de 12 - e o cão.

Segundo a página de Juli Briskman no Facebook, durante dois anos trabalhou na embaixada norte-americana em Riga, na Letónia. Em 2009, regressou aos Estados Unidos. É democrata e isso está bem visível em casa. O “Guardian” descreve que na garagem de Juli há vários autocolantes colados: “I’m an Obama Democrat” e “I’m a Proud Democrat”.

Apesar de agora ter ficado conhecida como ciclista, Juli diz que é mais corredora do que outra coisa. Como celebração dos 50 anos, correu 50 quilómetros. Já completou cinco maratonas e detém um recorde pessoal de cinco horas e 17 minutos.

A história da imagem

Recuemos até sábado 28 de outubro, 15h12 (20h12 em Portugal Continental). Donald Trump regressava de mais uma partida de golf no Trump National Golf Club, no norte da Virgínia. No caminho de saída do campo, a comitiva do Presidente norte-americano passou por duas pessoas a pé, que apontaram o polegar para baixo em sinal de desagrado. Mais à frente estava Juli Briskman, que levantou a mão esquerda e mostrou o dedo do meio ao líder dos EUA.

A comitiva continuou a andar, mas teve de abrandar por causa de um sinal vermelho. Então, Briskman insistiu, acelerou e pedalou ao máximo até voltar a alcançar Trump. E, uma vez mais, levantou a mão esquerda e mostrou o dedo do meio ao Presidente. Segundos depois, Juli seguiu o seu caminho e virou à direita, enquanto os carros foram para a esquerda.

“Quando passei a segunda vez, havia um homem de rosto muito redondo e cabelos brancos a olhar para mim. Não sei quem era, mas ele estava a olhar e eu olhei para ele, que não teve qualquer reação. Estava nervosa porque não sabemos quais as crenças políticas daquelas pessoas que estão na comitiva com ele [Trump]”, recorda Briskman.

Teria sido apenas um encontro caso o momento não tivesse ficado registado em fotografia, partilhada vezes sem conta nas redes sociais e dando origem a um artigo no “The Guardian”. A imagem foi tirada por um jornalista freelancer que costuma cobrir assuntos da Casa Branca.

Segundo fonte da administração norte-americana, é possível que o chefe de Estado nem tenha reparado em Juli Briskman. No relatório da Casa Branca está escrito que “a comitiva do POTUS [Presidente of the United States] partiu do Trump National Golf Club, passou por dois pedestres, um deles colocou o polegar para baixo. Depois, alcançou uma mulher ciclista, que usava uma t-shirt branca e um capacete, que respondeu levantando o dedo do meio”.

Horas antes, quando entrava no campo de golfe, Trump deu de caras com uma outra mulher que levantava no ar um cartaz: “Impeach”, podia ler-se. Na zona norte do Estado, a Presidente não é muito popular. Olhando para as eleições de 2016, os democratas venceram na Virgínia por uma diferença de 5,37 pontos. Este é um dos “swing state”, isto é, Estados oscilantes, cuja preferência varia de eleição para eleição e que, por isso mesmo, são determinantes para o desfecho das presidenciais.

#Her2020

No dia seguinte, Juli acordou com uma mensagem de uma amiga que trazia um link. “Estou muito orgulhosa de ti.” Estranhou, porque só tinha contado à família o episódio. Abriu a ligação e percebeu que alguém tinha registado o momento e que a fotografia se tinha espalhado.

Ao ver a proporção e o mediatismo que a imagem estava a tomar, na segunda-feira Juli informou a direção da empresa onde trabalhava há seis meses, a Akima LLC (construtora que por várias vezes assinou contratos com o governo norte-americano), que era ela na fotografia. No dia seguinte, foi despedida. “Não foram brutos, até foram muito práticos e o que pensam não vai mudar.” Segundo contou ao “Huffington Post”, a chefia explicou que o melhor seria manter a distância para não prejudicar a reputação da empresa nem colocar em causa possíveis negócios no futuro.

“Disseram que eu não podia publicar coisas indecentes e obscenas nas redes sociais. De certa forma, agora estou melhor do que nunca”, conta Juli, que após ter sido identificada pelos amigos e ter colocado a fotografia como imagem de perfil no Facebook e Twitter. Até agora, a empresa não comentou o caso.

Mesmo sem arrependimentos do que fez, considera que a decisão da Akima LLC era “particularmente injusta”, uma vez que uma situação semelhante, que envolveu um colega da direção (que fez publicamente um comentário ofensivo num fórum online sobre Black Lives Matter), a empresa pediu que o comentário fosse apagado mas o homem não foi despedido.

O outro empregador de Juli, um estúdio de ioga, não a despediu. No entanto, por estar a receber constantemente cartas com ameaças, pediu-lhe que tirasse da sua página no Facebook que trabalhava lá. Se, por um lado, a partilha da imagem nas redes sociais foi acompanhada de comentários como “heroína” e “#Her2020”, numa referência de apoio a uma candidatura na corrida à Casa Branca em 2020, por outro também levou a várias críticas.

Um ano depois da eleição de Donald Trump, Juli só consegue descrever os últimos 365 dias de uma forma: “horrível”. “Tenho vergonha. Algumas pessoas dizem que devemos respeitar o cargo mesmo que não se respeite a pessoa. Desculpem, mas Donald Trump não respeita o cargo. Se respeitasse, estaria a servi-lo de forma honrada. Apesar das minhas diferenças políticas, consigo respeitar o cargo. Respeitei, quando os Bush e Reagan eram Presidentes. [O que Trump faz] é política através do Twitter. Para mim, isso não é presidencial.”