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Não foi astronauta mas quer voar até à soberania. Quem é Puigdemont?

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O líder da Catalunha que esta sexta-feira declarou a independência da região autónoma chegou ao cargo de forma ‘acidental’, mas é um independentista de longa data. Retrato de um ex-jornalista disposto a ir para a prisão pelo país que sonha fundar

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

O homem que proferiu (ou não) a declaração de independência da Catalunha no passado dia 10 é um protagonista recente da crise constitucional, mas não é um converso tardio. Embora lidere a região há menos de dois anos, o 130º presidente da Generalitat da Catalunha (governo regional) sempre quis fazer dela um Estado soberano. Ainda os antecessores Artur Mas e Jordi Pujol se satisfaziam com o ‘toma-lá-dá-cá’ entre nacionalismos periféricos e poder central e já Carles Puigdemont (pronuncia-se “putx-da-mon”) bradava que “Catalonia is not Spain”. A Catalunha não é Espanha, assegurava, em inglês, para tentar — como faz hoje — internacionalizar o conflito e dar a ideia de disputa entre dois países, dois povos, duas legitimidades que se equivalessem.

Passou-se isso nos anos 80, quando o nacionalismo que preocupava Madrid e o mundo era o do País Basco, onde a ETA matava a tiro e à bomba. Na Catalunha também houve terrorismo separatista nessa década, às mãos do movimento Terra Lliure (Terra Livre), mas sem dimensão comparável (cinco vítimas mortais, quatro delas membros do movimento, e dezenas de feridos, face aos 829 mortos e centenas de feridos da ETA). Em todo o caso, as origens ideológicas de Carles não podiam ser mais distantes das da Terra Lliure. Se esta era violenta e ia beber à cartilha marxista-leninista, ele militava na Juventude Nacionalista da Catalunha (JNC), filial da Convergência Democrática da Catalunha (CDC), partido democrático do centro-direita liberal, ligado à burguesia catalã, ao empresariado e à indústria e próximo da Igreja Católica.

Independência. Embora lidere a Catalunha há menos de dois anos, Puigdemont sempre quis fazer dela um Estado soberano

Independência. Embora lidere a Catalunha há menos de dois anos, Puigdemont sempre quis fazer dela um Estado soberano

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As tentações de soberania de franjas da JNC, cuja secção em Girona o jovem Puigdemont ajudou a fundar, não tiravam o sono a Pujol, presidente da Generalitat entre 1980 e 2003. Viva-se o período hegemónico da Convergência e União (CiU), coligação que aliava a CDC à União Democrática da Catalunha (UDC, mais conservadora e menos nacionalista) e que durou até há menos de dois anos. Pujol ia negociando com Madrid privilégios e dotações orçamentais em troca de apoio a governos sem maioria absoluta (González nos anos 80, Aznar nos 90). Foram anos de afirmação da região e da capital, Barcelona, na Europa e no Mundo, muito devido aos Jogos Olímpicos de 1992. Que houvesse sectores mais radicais numa juventude partidária era natural e não gerava ralações.

“Pugdi”, como lhe chamam os íntimos, aprendera o independentismo desde o berço. Além da JNC, aderiu à organização Apelo à Solidariedade em Defesa da Língua, da Cultura e da Nação Catalãs (“Crida a la Solidaritat”, ou “Crida”, para os amigos), surgida em 1981 para combater a discriminação contra o idioma catalão, brutalmente proibido durante a ditadura de Franco, que há pouco terminara. A Crida contestava aspetos da lei que criou as regiões autónomas espanholas, como aliás a CiU, mas se Pujol adotava como divisa “Som uma nació” (Somos uma nação, sem referência a Estado nem a independência), a Crida preferia “No a l’harmonització, autodeterminació”, rejeitando qualquer ideia de igualdade entre as 17 comunidades autónomas instituídas no país vizinho. O governo regional não gostou da ousadia da agremiação de Puigdemont. As relações com Madrid eram cruciais e o desejo de um Estado independente não seduzia sequer 15% da população. Entre essa minoria estava Carles, que ainda organizou atos de apoio a separatistas detidos, acusados pelo juiz Baltasar Garzón de pertença à Terra Lliure, em 1992.

A PASTELARIA DO AVÔ

Carles Puigdemont i Casamajó nasceu a 29 de dezembro de 1962, na Selva. Para não induzir o leitor em erro, explique-se que é esse o nome da comarca da província de Girona onde fica a sua terra natal, Amer, com 2000 habitantes. O nome vem de ‘silva’, por ser zona rica em bosques. No número 6 do Carrer de Sant Miquel, veio ao mundo e cresceu este segundo de oito irmãos, numa família catalã e católica (com algum laivo andaluz), mais próxima de Franco do que da República durante a Guerra Civil (ao ponto de o avô paterno, Francisco Puigdemont, ter preferido o exílio à linha da frente da Batalha do Ebro) e, em todo o caso, menos versada em política do que em bolos: Francisco fundara uma pastelaria que também servia de drogaria e ervanária e onde hoje pontifica Anna, irmã de Carles, que sucedeu nessas funções aos pais, Xavier e Núria. Ainda assim, o bisavô José Oliveras e o tio Josep Puigdemont foram presidentes da Câmara. Josep, também padrinho do agora presidente catalão, foi o primeiro autarca de Amer em democracia, eleito pela CDC.

Se o pequeno Carles — assim batizado em memória do avô materno, Carles Casamajó, que fugiu para França no fim da Guerra Civil e deixou de dar sinais de vida em 1943 — sonhava ser astronauta, hoje tem na independência uma gesta tão difícil como a de pousar um foguetão na Lua. Fã de Beatles, Stones ou Pink Floyd (destes tem a discografia completa), foi baixista na banda Zènit, que tocava em festas de aldeia. Na escola interessava-se pela disciplina de História. Estudou em Amer e depois no colégio interno religioso de Santa Maria de El Collell, onde aos 12 anos, ainda Franco vivia, escreveu na bata da escola “Queremos o Estatuto” (de autonomia, leia-se). Face à incredulidade de um padre que lhe censurou a audácia, soube explicar exatamente o que aquilo queria dizer.

Ainda que ajudasse os pais ao fim de semana, Carles queria ser jornalista. Fundou a revista “Espelt” (Lança) com o amigo Salvador Clarà, hoje vice-alcaide de Amer. Explicaria mais tarde que via no jornalismo “um fator de democratização e de criação de uma consciência nacional”. “Los Sitios”, “Preséncia” e “Diari de Girona” foram títulos locais para os quais fez biscates e colaborações, antes de entrar para o independentista “El Punt”, onde chegou a redator-chefe. O atual diretor do jornal, Xevi Xirgo, recordou a “The New York Times” que já na altura Puigdemont defendia que se desse espaço a assuntos ligados à autodeterminação ou à cultura, história e língua catalãs. “Fez o diagnóstico de que a Catalunha ia deixar de caber em Espanha mais cedo do que os demais”, explicou o antigo colega. Puigdemont também criou a CAT Edicions, que elaborava boletins e discursos para autarcas, sobretudo da CiU.

O envolvimento político de Puigdemont (já lá vamos) nunca lhe roubou o amor ao ofício, que aprendeu na tarimba e não na faculdade. Frequentou Filologia Catalã na Universidade de Girona, mas o facto de já trabalhar em jornais e uma baixa prolongada, após acidente de viação, fizeram com que não concluísse o curso. Assegura, ainda assim, que a língua é o principal motor do vínculo que sente com a nação e do desejo de independência. E ainda hoje, disse ao Expresso, é um “devorador de hemerotecas digitais” e de jornais antigos.

O desastre de automóvel fê-lo trocar Amer por Girona, para se poupar a deslocações. Viagens, a partir daí, só para o estrangeiro, para conhecer outras “nações sem Estado”. Na década de 90 escreveu “Cata... què?”, livro sobre a Catalunha vista pela imprensa mundial, e fundou a Agência Catalã de Notícias, pioneira no jornalismo digital. Paladino das novas tecnologias, Puigdemont escreveu ensaios sobre o tema, manteve um blogue e já neste século criou a firma Dobe Utopia, dedicada à criação de páginas na internet. Foi dos primeiros catalães a abrir conta no Twitter (@KRLS), onde o seguem centenas de milhares de utilizadores.

Poliglota (fala inglês, francês, espanhol, catalão e romeno), Puigdemont lançou há mais de 20 anos o jornal para estrangeiros “Catalonia Today” (hoje propriedade de “El Punt”), para o qual recrutou então o correspondente de “The Times” em Barcelona, Stephen Burgen. A publicação chegou a ter versão televisiva, apresentada pela mulher de Carles, a jornalista romena Marcela Topor, com quem se casou segundo o rito ortodoxo em 2000. Conheceram-se no Festival Internacional de Teatro Amador de Girona, em que Puigdemont estava envolvido. Marcela, por diminutivo Mars, tem 39 anos e também trabalhou como tradutora. Discreta mas determinada, aprendeu a língua do marido e partilha o seu ideário independentista.

O INTERLÚDIO SOCIALISTA

Foi já volvidos os 40 anos que Puigdemont evoluiu das tertúlias nacionalistas da livraria Les Voltes e da chefia da Casa da Cultura de Girona (2002-2004) para a vida partidária. A CiU atravessava um período mau. Em 2003 perdera pela primeira vez o governo regional para o socialista Pasqual Maragall, que fora presidente da Câmara de Barcelona, artífice dos Jogos Olímpicos, e que encabeçava uma Generalitat tripartida, entre socialistas (PSC, ramo regional do PSOE), a ecologista Iniciativa pela Catalunha (ICV) e a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), presentemente aliada de Puigdemont.

Em 2004, José Luis Zapatero tornou-se primeiro-ministro de Espanha, e Maragall quis aproveitar a abertura do camarada para rever e aprofundar o estatuto de autonomia da Catalunha. Zapatero prometeu apoiar “o que o Parlamento catalão aprovasse”, mas, já em Madrid, acabou por cortar alguns artigos ao documento dos deputados catalães, pressionado pela ala mais centralista do PSOE e com o apoio cínico da CiU, apostada em minar Maragall. Os catalães aceitaram esse estatuto ‘aguado’, sem entusiasmo, num referendo legal em junho de 2006 (78,07% de votos a favor com 48,85% de participação eleitoral).

Agastado com Zapatero, Maragall demitiu-se. Houve eleições regionais antecipadas, e a tríplice aliança socialista continuou a governar, agora sob José Montilla, que nasceu na província de Córdova (Andaluzia) e falava um catalão menos que perfeito. Era um sinal de integração da vasta imigração das regiões mais pobres de Espanha, que em muito contribuiu para a prosperidade económica catalã, facto apontado pelos que criticam os separatistas por se queixarem do contributo líquido da Catalunha para o orçamento nacional, a favor das zonas menos ricas. Na mesma eleição entrou para a bancada da CiU o deputado Carles Puigdemont, que pouco chamou a atenção e que só sairia do Parlamento em 2011, para presidir à Câmara de Girona. Arrebatou-a ao PSC, que governava há 32 anos, à segunda tentativa.

Discórdia. A proclamação da independência da Catalunha no passado dia 10 de outubro abriu uma grave crise constitucional com o poder central de Madrid

Discórdia. A proclamação da independência da Catalunha no passado dia 10 de outubro abriu uma grave crise constitucional com o poder central de Madrid

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Na autarquia, Puigdemont apostou no turismo e na cultura e privilegiou a proximidade com os munícipes. Era visto a utilizar as ‘girocletas’, bicicletas públicas da cidade, e ia ao mercado com as filhas, Magalí e Maria, hoje com 10 e 7 anos. Se o alcaide se regozijava por a urbe ser escolhida para filmagens de “A Guerra dos Tronos”, a oposição criticava-lhe uma gestão “de fachada” e dizia que, apesar da oratória, não sabia trabalhar em equipa. Mais recentemente, a justiça começou a investigar uma fraude de milhões na empresa de águas do concelho. Nada disso impediu a reeleição em 2015, com socialistas e militantes da UDC (que nesse ano se dissociou da CDC) a aceitar integrar a lista de Puigdemont. Nesse ano foi escolhido pelos pares para presidir à Associação de Municípios pela Independência. Ao tomar posse, comprometeu-se “com o futuro político de uma Catalunha livre, independente e socialmente justa”. Nessa altura, porém, tudo mudara na região e em Espanha.

Há que abrir um parêntesis para recordar que, enquanto Puigdemont tratava da cidade, a Catalunha entrara em ebulição. O PP, que nunca aceitara o novo estatuto de autonomia, nem sequer na versão esmorecida do Congresso dos Deputados, apresentou recurso no Tribunal Constitucional, o qual anulou, em 2010, partes importantes do documento. Os juízes não permitiram que nele permanecesse a frase simbólica, mas briosa, que dizia que “a Catalunha é uma nação” e que, à cautela, já fora incluída num preâmbulo sem força jurídica e não no clausulado do estatuto. A população ficou irada.

CONVERSÃO E DEFENESTRAÇÃO

Artur Mas, que recuperou a Generalitat para a CiU nas eleições regionais desse ano, fez cavalo de batalha de um novo pacto fiscal com Madrid. A empreitada era difícil, com as contas da Catalunha no vermelho (a viver de empréstimos de Madrid), a crise global no auge e Mariano Rajoy (PP) a assumir o lugar que fora de Zapatero. O novo primeiro-ministro rejeitou qualquer acordo com Mas e, a 11 de setembro de 2012, um milhão e meio de cidadãos saíram à rua sob o mote “Novo Estado na Europa”. Celebrava-se a Diada, Festa Nacional da Catalunha, que comemora a data de 1714, quando a autonomia foi revogada pelo rei Filipe V de Borbón, na sequência de uma guerra de sucessão espanhola em que a Catalunha apoiou o derrotado arquiduque Carlos de Habsburgo. Passados 298 anos, foi o dia em que Artur Mas assumiu o independentismo, a que em tempos chamara “antiquado e oxidado”.

A sua prioridade passou a ser um referendo de autodeterminação. Quis realizá-lo em 2014, mas a inflexibilidade de Rajoy levou-o a optar por um “processo participativo”, isto é, um simulacro. Votaram, tal como a 1 de outubro deste ano, quase só os separatistas (80,91% a favor da secessão). Ainda que não-vinculativo, o ato valeu a Mas e companheiros uma inabilitação política por dois anos. Na sequência do não-referendo, Mas antecipou as eleições regionais para 2015. A CDC aliou-se à ERC na lista Juntos pelo Sim (JxS), cujo nome indicia o propósito plebiscitário: reunir uma maioria de votos que legitimasse a secessão.

O tiro saiu-lhe pela culatra. Os separatistas ficaram aquém da maioria de votos (47,8%) e, embora o método de Hondt lhes tenha garantido a maioria de deputados, esta depende da formação de extrema-esquerda CUP (Candidatura de Unidade Popular), que exigiu o afastamento de Mas, cujo nome surgira ligado a casos de corrupção. É então que entra em cena um desconhecido autarca de Girona, nº 3 da lista JxS. Puigdemont confessava ao Expresso, há um ano, ter sofrido um “choque emocional”. Não tanto pela comoção de quem quer transformar em Estado soberano como pelo abalo para a sua vida pessoal.

Longe ficaram os torrões e capricis (bolachas típicas de Girona), as ‘girocletas’ e as histórias para as filhas adormecerem. Puigdemont passou a fazer, todos os dias, os 100 quilómetros entre Sant Julià de Ramis, subúrbio de Girona onde mora, e Barcelona. Acatou a responsabilidade de conduzir o seu país à soberania, ainda que chegado ao cargo cimeiro (que compara a uma cadeira elétrica) “no último minuto, acidentalmente e pela porta traseira”. Tomou posse no último dia do prazo legal e foi o primeiro titular a não jurar fidelidade ao rei nem à Constituição, apenas ao povo catalão. “Não é época para cobardes, nem para temerosos, nem para gente de pernas frouxas”, sentenciou.

A cadeira parece ter eletrizado o ocupante. Onde Mas fez um sucedâneo, Puigdemont quis mesmo um referendo, que, de resto, a CUP também reivindicou como condição para aprovar o orçamento da região. Mais do que discutir a independência, os prós e contras, as não-negligenciáveis minudências jurídicas e os incontornáveis riscos (de que é duro exemplo o êxodo de empresas), centrou o debate no “direito a decidir”, que, ao contrário da independência, tem o apoio de uma clara maioria dos catalães, cerca de dois terços. Nos entrementes, foi fazendo aprovar “leis de separação” e “estruturas de Estado” e gerindo como pôde o equilíbrio entre o seu novo Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCAT, sucessor da CDC) — centrista e pró-mercado, campeão da austeridade no mandato de Artur Mas — e os aliados marxistas da ERC e da CUP. Só os une a vontade de virar costas a Espanha.

Amor. O presidente do governo regional da Catalunha casou-se segundo o rito ortodoxo, em 2000, com a jornalista romena Marcela Topor. Discreta mas determinada, ela partilha o ideário independentista do marido

Amor. O presidente do governo regional da Catalunha casou-se segundo o rito ortodoxo, em 2000, com a jornalista romena Marcela Topor. Discreta mas determinada, ela partilha o ideário independentista do marido

FOTO ALBERT GEA/REUTERS

O resto é sabido: Puigdemont marcou o referendo de 1 de outubro, a Justiça espanhola proibiu-o, Madrid mandou a guarda, a consulta fez-se sem valor legal nem garantias democráticas, mas o presidente agarrou-se ao resultado de 92,01% a favor da secessão. No dia 10, declarou a independência da Catalunha, no Parlamento autonómico, para a suspender passados 11 segundos. O gesto, que o próprio justificou como abertura ao diálogo com Rajoy, enfureceu quer este (que exigiu esclarecimentos que Puigdemont não prestou) quer os mais aguerridos separatistas, para quem o recuo foi a “frouxidão” que o presidente prometera não ter. É assim que o homem que afirmava há um ano ao Expresso não acreditar na suspensão da autonomia depara, agora, com a aplicação do artigo 155 da Constituição por Rajoy.

Além da perda de poderes que tal implica, Puigdemont encontra-se, também, em risco de prisão por sedição (destino que já tocou, preventivamente, dois líderes de associações cívicas pró-independência) ou desvio de fundos (por ter usado dinheiro público na celebração do referendo). Já em 2012 fora acusado do mesmo crime, por ter financiado transporte ferroviário para a manifestação separatista. Confrontado com a hipótese do cárcere, respondeu há dias, na televisão, que não lhe parecia boa ideia, mas acrescentou: “Se tiver de acontecer, enfrentarei qualquer decisão.”

É difícil, assim, imaginar o homem que lidera a Catalunha há quase dois anos a recuperar, como almeja, “alguma normalidade”. Parecem longínquos o regresso a Sant Julià, a prática desportiva (hóquei, râguebi, futebol, basquetebol), os jogos do Girona Futbol Club (este ano na primeira divisão), a culinária, a pintura de Gauguin, a banda sonora de “Jesus Christ Superstar”. Há um ano, Puigdemont dizia ao Expresso que só desejava ser presidente 18 meses. “Quererá dizer que tivemos êxito”, precisava. Que amarga ironia pensar que há, de momento, mais possibilidades de deixar o cargo por intervenção de Madrid, ao abrigo da Constituição, do que por ter libertado a Catalunha do que considera ser a grilheta de Castela.