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Boris Johnson conta com uma amizade de há 631 anos

Boris Johnson com a embaixadora britânica em Lisboa, Kirsty Hayes, e o presidente da Câmara de Comércio Portuguesa no Reino Unido, Bernardo Ivo-Cruz

Pedro Cordeiro

Ministro dos Negócios Estrangeiros britânicos esteve em Lisboa para conversar com Augusto Santos Silva e defender acordo entre Reino Unido e os 27 para o Brexit

A primeira memória que Boris Johnson tem de Portugal é de um cartaz com a cara de Mário Soares a celebrar a adesão do país ao então Mercado Comum. Estava-se em 1985 quando o atual ministro dos Negócios Estrangeiros britânico visitou Lisboa. O Reino Unido era Estado-membro da Comunidade Económica Europeia há 12 anos e uma década antes confirmara em referendo querer permanecer na Europa unida. Governava Thatcher e Johnson era jornalista.

Passados 32 anos, é num contexto oposto que o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico está hoje em Lisboa. Afirma, porém, que o espírito que rege os laços entre os dois aliados desaparecerá por este último abandonar a União Europeia. No seu habitual estilo bem-humorado, Johnson afirmou esperar que os pastéis de nata, a que o apresentou uma secretária quando era presidente da Câmara de Londres, continuem a ser “omnipresentes” na capital britânica.

Antes de um almoço com o seu homólogo luso, Augusto Santos Silva, Johnson esteve no Museu da Eletricidade com políticos, empresários, jornalistas, militares e diplomatas, num encontro privado em que participou o ministro da Economia português, Manuel Caldeira Cabral. Em tom consensual, ambos enalteceram as boas relações e prometeram mantê-las mesmo depois de consumado o Brexit.

O ministro britânico posou para fotos no Museu da Eletricidade

O ministro britânico posou para fotos no Museu da Eletricidade

Pedro Cordeiro

“Cedências generosas”

“O que pedimos aos nossos aliados é que ajudem nas negociações”, explicou Johnson, em alusão ao Tratado de Windsor, o mais antigo em vigor entre nações (data de 1386), e num momento em que as conversações entre o seu Governo e os 27 parceiros parecem complicadas. O ministro insistiu que Londres já fez “cedências generosas” nos temas mais prementes da negociação: direitos dos cidadãos europeus residentes no Reino Unido (em busca de reciprocidade) e dinheiro. Londres está disposta a pagar 20 mil milhões de euros de compromissos previamente assumidos, mas há entre os Estados-membros quem defenda uma fatura maior, exigindo que os britânicos a aceitem antes de começar a dialogar sobre a relação futura, nomeadamente comercial.

Johnson acredita que haverá um acordo antes de o Reino Unido deixar a UE, em março de 2019. Tem dito em público não temer que a questão europeia ponha em causa a estabilidade do Executivo de Theresa May. O próprio ministro é visto pela imprensa inglesa como candidato à exoneração, enquanto potencial adversário interno da primeira-ministra, mas tem desmentido ambições de liderança.

Esta manhã em Lisboa, antes de brindar a “mais 631 anos de amizade ininterrupta”, o ministro conservador assegurou que o seu e o nosso país são “atlanticistas, voltados para fora e liberais nos valores” e puxou pelos galões do que nos une. Falou de parques eólicos instalados por firmas portuguesas na costa da Escócia, dos três milhões de turistas britânicos que vêm todos os anos a Portugal (incluindo o seu companheiro de partido e ex-primeiro-ministro David Cameron), dos muitos portugueses que se mudaram para o Reino Unido nos últimos anos e até de um ilustre espião: “Foi num bar do Estoril, creio, que foi concebido James Bond”. As negociações, o sigilo, as conspirações, os avanços e os recuos fazem por vezes, é verdade, recordar o ambiente em que se mova a personagem de Ian Fleming.