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Stephen Lovell: “Nas datas históricas a mensagem tem de ser clara”

Professor de História no King’s College, em Londres, o especialista Da Revolução Russa esteve numa conferência no CCB incluída nas comemorações do centenário da Revolução. Ao Expresso falou da herança bolchevique e de como Moscovo lida com esta memória

Ana Soromenho

Ana Soromenho

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

luís barra

O título da sua conferência — “A Revolução Russa Acabou?” — é uma provocação?
Diria que é uma boa oportunidade para refletir. Se nos detivermos apenas na História da União Soviética, verificamos que essa herança atravessou quase um século e é um acontecimento que ainda marca a Rússia moderna. No entanto, quando estive há pouco tempo em Moscovo, não vi sinais de como se irá celebrar a data, é um tema que não se discute. A minha interrogação surgiu a partir daqui.

O tema tornou-se incómodo?
Tornou-se ambíguo. Nestas comemorações das datas históricas, os países têm de lidar com a ideia de nação e, independentemente do que se comemora, a mensagem tem de ser clara. Em Inglaterra, por exemplo, quando se trata da I Guerra Mundial, a ênfase é dada à ideia da tragédia e do sacrifício. Na II Guerra Mundial temos a versão apocalíptica, o mal tem um rosto. Também na Rússia as comemorações da II Guerra Mundial e a vitória sobre a Alemanha tornaram-se o grande acontecimento nacional identitário do século XX.

Que explicação encontrou para haver essa dificuldade em relação à memória da Revolução de Outubro?
Por um lado, só se passaram 25 anos sobre a queda da União Soviética, onde a revolução foi muito exaltada. Uma explicação possível é as pessoas estarem fartas do tema. Outra, provavelmente a mais verdadeira, terá que ver com a própria palavra revolução. Há, claramente, uma tentativa de manter uma distância dessa imagem dos russos violentos das lutas civis. Nos anos 90, depois do comunismo, a grande preocupação do Governo e dos media era conseguir projetar uma imagem de união nacional. Nessa altura foi criado um feriado, o Dia da União Nacional, que se comemora muito próximo da data da Revolução de Outubro. A ideia que se continua a querer projetar é de reconciliação.

Um dos lados mais sedutores da Revolução Russa para o exterior foi o seu discurso de modernidade, muito veiculado pela propaganda visual da estetização das massas. É sobretudo pela sua vertente artística e cultural que tem sido celebrado o centenário da revolução em vários países do Ocidente?
Precisamente. E penso que também será por esse lado que a Rússia o irá celebrar. A iconografia cultural continua a funcionar.

Não há uma perspetiva de reflexão política?
Muito pouco. Mas, se virmos a extensão do impacto da Revolução Russa em todo o mundo, é importante sublinhar a sua versão como alternativa de mudança social no seu discurso de modernidade. A ideia das pessoas poderem viver de forma diferente, transmitida logo no início da revolução, era profundamente sedutora. E essa ideia não morreu nos anos 20 e 30, nem falhou logo com Estaline. Em termos retóricos, a alternativa do socialismo moderno teve um grande ressurgimento no período pós-Estaline.

É possível separar o advento da Revolução de Outubro como um momento épico de uma nação depois de sabermos no que veio a tornar-se a União Soviética?
É sempre possível extrair outras mensagens. Pode-se, por exemplo, contar como uma história de democratização e de poder popular. E se quisermos enfatizar a História da Rússia como história de grande poder também podemos criar essa narrativa. Teoricamente, esse foi o momento em que os russos foram capazes de se defender de inimigos exteriores, em plena I Guerra Mundial, quando a Rússia estava em grande perigo e o resultado foi não só o ter sobrevivido como ter emergido como uma grande nação. Continua a ser surpreendente verificar que, no momento em que os impérios ocidentais como o otomano e o austro-húngaro começavam a cair, o império russo sobreviveu em forma de comunismo na sua versão soviética.

O que pode ser motivo de análise que ainda traga um novo olhar sobre este período para a História contemporânea?
Uma das coisas que me interessam é precisamente essa perspetiva de construção de império, que desde logo é bastante reveladora. Um dos focos que a historiografia fez sobre a Revolução Russa nos últimos 20 anos foi mover-se do que aconteceu em Petrogrado (São Petersburgo), para analisar a forma como a revolução teve lugar nas províncias e nas margens. Em termos geográficos e territoriais, enquanto a revolução ganhava força em Moscovo nas elites culturais, nas periferias mobilizavam-se os nacionalismos como sustentação do império soviético. O caso da Ucrânia, por exemplo, é pragmático. A revolução bolchevique, e certamente a revolução de Estaline, foi precisamente sobre esta ideia de grande império. Desde logo, a intelligentsia começou a divulgar a ideia de nacionalização, enquanto a propaganda da revolução assentava no grande movimento de massas e na ideia da criação de um novo Estado e um novo sistema político. Neste contexto, a grande modernização da sociedade foi feita a uma velocidade incrível, porque a Rússia era uma sociedade muito gregária. Fez-se uma espécie de atalho num período muito curto de tempo. Basta pensar que no final do século XIX o rácio de iliteracia no império russo era o mesmo que tinha havido 100 anos antes em Inglaterra, e no final do bolchevismo 80 por cento já não eram iletrados. O grande salto dos bolcheviques no novo regime soviético foi fazer em 20 anos o que os outros fizeram em 200.

Depois de tantos anos a olhar para o mundo ocidental como ‘inimigo’, ainda sobra no povo russo algum resquício dessa desconfiança?
Esse discurso anti-Ocidente é visível na maneira como os nacionalistas russos se veem a si e aos outros. Sobretudo depois da Ucrânia, esse discurso é cada vez mais forte nos movimentos de extrema-direita.

Quando começou a fazer as suas viagens para Moscovo no início dos anos 90 foi difícil fazer investigação?
Foi um tempo muito particular porque o regime tinha chegado ao fim. Foi um momento muito instável e perigoso, mas também muito criativo. Mas, para mim, não foi difícil conseguir ter os arquivos à disposição, porque não precisava de mexer nos arquivos militares ou nos negócios estrangeiros. Tratava-se de História, a informação de que precisava não constituía nenhum problema.

Porque começou a interessar-se por este tema?
Posso dizer que fui uma criança da era Gorbatchov, e naquela época a Rússia parecia-me um lugar extremamente exótico. Na adolescência comecei a ler os autores russos, como Tolstoi ou Dostoievski, fiquei fascinado e quis aprender a língua para ler no original.

Cem anos depois, a palavra “revolução”, ou o homem revolucionário, ainda tem o mesmo significado? Ainda é possível?
É uma grande questão. Vivemos num mundo global, mas que é cada vez mais fragmentado. Ligamos a televisão, vemos milhares de conflitos por todo o lado, não sabemos como solucionar a questão dos refugiados, percebemos que o mundo não se transformou num lugar mais estável... Na verdade, não sei responder. Também por isso, uma das coisas notáveis que podemos sublinhar na Revolução Russa, mesmo detestando os bolcheviques, é pensarmos como é que um grupo tão pequeno de homens fez aquela revolução num dos mais perigosos períodos da História mundial contemporânea e conseguiu transformar-se em poder durante quase todo o século XX.