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Presidenciais quenianas envoltas em crescente tensão

Getty Images

A polícia usou gás lacrimogénio para dispersar os manifestantes, que exigiam reformas, no dia em que a comissão eleitoral anunciou que todos os candidatos às presidenciais anuladas podem participar no escrutínio de 26 de outubro, mesmo o líder da oposição que havia comunicado a sua retirada

Todos os candidatos às presidenciais anuladas no Quénia podem participar no escrutínio marcado para o fim deste mês, incluindo o líder da oposição, Raila Odinga — que anunciou a sua retirada da corrida, mas não entregou o formulário necessário para o oficializar —, anunciou, na quarta-feira, a comissão eleitoral.

O anúncio de que serão novamente oito os candidatos presidenciais surgiu algumas horas depois de uma decisão do Supremo Tribunal permitir a participação do candidato Ekuru Aukot, que apenas obteve 27.000 votos dos 15 milhões depositados nas eleições de agosto.

Inicialmente, o escrutínio agendado para 26 de outubro iria opor apenas o Presidente cessante, Uhuru Kenyatta, ao líder da oposição, Raila Odinga, cuja contestação dos resultados da votação de agosto levaram o Supremo Tribunal a anulá-la devido a “irregularidades”.

Odinga retirou na terça-feira a sua candidatura, justificando a decisão com a ausência de reformas na comissão eleitoral, mas aparentemente não formalizou essa retirada.

Nenhum dos candidatos, além de Kenyatta e Odinga, obteve sequer 1% dos votos nas presidenciais de agosto, pelo que o abandono da corrida por parte de Odinga semeou a confusão na maior economia da África Oriental, levando os eleitores a questionarem-se sobre como poderia o ato eleitoral realizar-se.

Esta quarta-feira, o Parlamento aprovou alterações à lei eleitoral, sob pressão do partido no poder e criticada pela oposição e por diplomatas ocidentais por tornar os atos eleitorais mais difíceis de anular e por ter menos salvaguardas contra fraude. As alterações vão ainda requerer a aprovação de Kenyatta.

Entretanto, o clima de tensão tem-se avolumado. Na capital queniana, a polícia usou gás lacrimogéneo para dispersar milhares de manifestantes da oposição que se concentraram à porta das instalações da comissão eleitoral para exigir reformas.

No bastião da oposição, na cidade de Kisumu, quatro pessoas feridas a tiro deram entrada em hospitais depois de a polícia ter usado munições verdadeiras para dispersar manifestantes, indicou um responsável da polícia, a coberto do anonimato.

Em setembro, o Supremo Tribunal anulou a eleição de agosto em que Kenyatta foi declarado vencedor, depois de Odinga ter contestado os resultados, argumentando que piratas informáticos se teriam infiltrado no sistema informático da comissão eleitoral para manipular a votação. No escrutínio, Kenyatta obteve 54% dos votos. O Tribunal ordenou nova votação num prazo de 60 dias.

Kenyatta, que chamou “ladrões” aos juízes do Supremo Tribunal após a decisão destes, tem dito que não quer mudanças na comissão. Em vez disso, o seu partido tem usado a maioria parlamentar para impor alterações à lei eleitoral.

Alguns diplomatas, entre os quais o embaixador dos Estados Unidos no país, disseram que as alterações propostas colocam em risco a capacidade da comissão eleitoral “para realizar melhores eleições” e aumentam desnecessariamente as tensões políticas.