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Nuria Marín: “Não há unidade no lado constitucionalista. Não há um relato, como têm os independentistas”

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Entrevista à presidente da Câmara do segundo município mais povoado da Catalunha, L’Hospitalet de Llobregat (265 mil habitantes)

Angel Luis de la Calle

Angel Luis de la Calle

enviado a Barcelona

Nuria Marín é presidente da Câmara no segundo município mais povoado da Catalunha, L’Hospitalet de Llobregat (265 mil habitantes), desde 2008. Tem 53 anos e dedica-se à política desde os 30, sempre ligada à autarquia da sua cidade natal. Militante do Partido dos Socialistas da Catalunha (PSC) desde 1981, é vice-secretária-geral e, logo, número dois deste ramo catalão do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), liderado por Miquel Iceta. Muito popular em toda a região, Marín ganhou notoriedade há semanas, ao interpelar em público o presidente da região, Carles Puigdemont, pedindo-lhe que parasse de pressionar os autarcas catalães a favor do processo independentista.

A presidente da Câmara recebe o Expresso no seu gabinete dos paços do concelho, numa cidade com laços muito estreitos com Barcelona, de cujo centro a separam apenas uns quilómetros. É um dia muito agitado e pejado de rumores políticos.

O que achou do discurso do Rei?
Sem entrar naquilo que disse, senti falta do que não disse. Esperava mais. Esperava uma porta aberta ao diálogo e ao consenso. Na Catalunha e em Espanha não podemos resignar-nos a que haja apenas duas vias para resolver este conflito: a declaração unilateral de independência (DUI) ou o artigo 155 [da Constituição Espanhola, que permite a suspensão da autonomia e do autogoverno]. Esperava ver na figura do Rei de Espanha a perspetiva de introduzir alguma cordura na insensatez que se instalou entre nós. A pressão social é tremenda. Estamos a vivê-la aqui, em cidades como L’Hospitalet, que não é precisamente uma povoação próxima do independentismo e que nunca se situou nos extremos. Estamos, na realidade, muito preocupados e a precisar de políticos que estejam à altura. Falei muito com muita gente nas últimas semanas e o que deteto é essa crescente preocupação, um grande temor pelo futuro.

O que devia ter dito Felipe VI, na sua opinião? O que pensa que faltou, em concreto, no seu discurso?
Podia ter falado de diálogo, de negociação, de acordos. Ter recordado que Espanha passou por momentos muito complicados que foram superados através do diálogo e da negociação. Aqui há um problema político muito grave que é preciso resolver a partir dessa posição.

Como vê o horizonte após a intervenção do Rei e a resposta de Carles Puigdemont ao monarca?
Sinceramente, não me atrevo a prever o que vai acontecer. Aqui há dois caminhos muito definidos, a ação e a reação. O primeiro começou há anos, lançado por algumas autoridades catalãs. O segundo é bem mais recente, porque em Madrid não eram conscientes, até há muito pouco, da gravidade e do alcance do problema. Puigdemont e a sua equipa decidiram seguir por esse caminho, atropelando mesmo as suas próprias regras de jogo: a Constituição, as leis, o Estatuto de Autonomia, o regulamento do parlamento [catalão], etc. Agora assistimos à reação tardia do Governo [central] a cada um destes passos, enrolando uma meada que não sei onde nos levará. Com todos estes dados creio que, se não houver algo que trave estes dois caminhos, paralelos ou convergentes, como se quiser ver, de ação e reação, chegaremos por fim a um ponto em que os cidadãos acabem mesmo por sofrer. No atual estado de coisas, e se não surgir esse elemento inesperado, haverá nos próximos duas uma declaração unilateral de independência. A consequência mais provável é a aplicação imediata do artigo 155 da Constituição, que suspende a autonomia. Isso vai conduzir-nos ao caos, ao desastre e a fortes perdas para todos. Outra possibilidade que pode verificar-se é que o Estado e o Governo atuem já, por antecipação, coisa que, a meu ver, agravaria a situação. O Executivo central foi sempre reativo, nunca ativo, neste assunto. Espero que não mudem agora de orientação.

Quando fala de um elemento, de “algo” que trave este rumo, está a pensar, por exemplo, numa mediação internacional?
Pode ser uma mediação internacional, uma mediação nacional… não sei, algo que impeça que nos despenhemos por este precipício ruinoso que temos pela frente. Pode ser, também, uma manifestação expressa e pública de muitas figuras importantes da sociedade espanhola que forcem um cenário de diálogo.

Em que tipo de interlocutor está a pensar? Quem crê que poderia exercer esse papel mediador?
Em primeiro lugar, o que mais gostaria era que Madrid e Barcelona fossem capazes de se sentar frente a frente para discutir, a partir das posições respetivas e com espírito aberto e construtivo. Outra hipótese teria sido, noutro momento, a figura do Rei, mas isso agora já não é possível. A terceira opção é que surja, ou que se apresente, ou que seja designada, uma personalidade nacional ou internacional capaz de juntar ambas as vontades.

Depois do desgaste que ambos sofreram, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, e Puigdemont são interlocutores válidos para essa possível negociação?
A meu ver, à partida, numa primeira instância desta fase, terão de estar. São os máximos responsáveis, cada um no seu âmbito, pelo que se está a passar. Devem agir. Mediados, convocados ou autoconvocados, tanto faz. Iniciada a aproximação, se se comprovar que não são capazes de seguir pelo caminho do diálogo, deverão afastar-se e dar lugar a outros atores que tenham essa capacidade. Creio, portanto, que a primeira coisa a conseguir em casos de casos de conflito num país democrático e do primeiro mundo, como é Espanha, é falar, dialogar.

Onde está a sociedade catalã contrária a esta deriva independentista? Onde está a essa suposta metade da população que aparece nas sondagens como defensora da permanência e da unidade de Espanha?
Está em casa. Tem escassos canais para expressar os seus sentimentos. Nos últimos dias, muito timidamente, começaram a sair à rua. Em todo o caso, não se pense que todos os que se manifestam são independentistas extremos. Há muitas pessoas que se sentem ofendidas por ações e atitudes do Governo de Madrid e que quem exprimir isso. No próprio domingo, 1 de outubro [dia do referendo ilegal], muita gente não independentista saiu à rua depois de ver na televisão as imagens das violentas intervenções policiais. Quiseram protestar.

Falta ao lado não independentista da sociedade catalã uma ideia mobilizadora, como a que têm o governo regional e os partidos e coligações mais poderosos do parlamento da Catalunha.
Não existe essa ideia, esse elemento aglutinador, porque, infelizmente, no lado a que se refere não há unidade, não há uma narrativa. Houve muita confusão nas duas fações, chamemos-lhes assim, mas uma delas conseguiu aglutinar em tordo na ideia de independência a vontade de todo um bloco. Essa é uma ideia clara, meridiana, com muita força, que entusiasmou muita gente. Numa época de terrível crise económica, muita gente que não vislumbrava um futuro razoável deixou-se levar por essa promessa romântica de que tudo vai melhorar após a independência. Há que reconhecer que os independentistas fizeram muito bem as coisas, ganharam a batalha da comunicação e da opinião pública. O seu discurso mobilizou muitos cidadãos. O outro lado não soube formar um bloco homogéneo contra a independência. Os partidos constitucionalistas clássicos, de esquerda e de direita, comportaram-se como sempre, agindo de costas uns para os outros.

Nos partidos tradicionais temos visões diferentes sobre como construir um país, sobre o que é melhor para os cidadãos. E houve confusão na mensagem recebida, por vezes misturando aspirações soberanistas com democracia, com direitos cívicos… é evidente que o Partido Socialista não concorda com as posições do Governo central e do Partido Popular, que o sustenta. Embora coincidamos na defesa do Estado de Direito e no cumprimento das leis vigentes — o que explica que o PSOE apoie o Governo nesta questão —, há muitos matizes que nos diferenciam e que impedem essa união tão homogénea como a que exibem os independentistas.
Repare que neste grande teatro em que estamos a viver, o grupo mais coerente foi a Candidatura de Unidade Popular (CUP), a extrema-esquerda independentista e antissistema. Conseguiu implantar a sua ideia e o seu projeto em forças tão díspares como a antiga Convergência e União (hoje Partido Democrata Europeu da Catalunha), que acabou por violar as normas, desrespeitar as leis, ignorar a opinião dos especialistas… isso não existe do nosso lado. Ainda assim, conseguem levar gente para a rua, mobilizá-la, enquanto os nossos ficam em casa.

Que papel tem o PSC, dentro do PSOE, no futuro imediato do controlo da situação?
Tem um papel importante. Temos uma vantagem que, possivelmente, mais nenhum partido político tem: temos um líder, Pedro Sánchez, que ganhou a pulso a sua posição, a sua liderança. É, aliás, um dirigente que conhece muito bem e em pormenor o problema catalão. Conhece-o muito bem, não porque lho tenhamos explicado, mas porque veio cá, falou com as pessoas, reuniu-se com personalidades importantes e menos importantes de todos os setores, com militantes do PSC e com membros de outros partidos, co jornalistas, com intelectuais… num momento como este não podemos ficar encapsulados no nosso próprio ecossistema. Estamos numa situação tão complexa e grave que não podemos pôr os interesses partidários acima dos de toda a nação. É por isso que o PSOE está com o Governo na defesa dos interesses gerais do país.

Como lida com o imparável salto para a fama que deu ao exigir em público a Puigdemont que deixassem em paz os autarcas catalães?
Bom, tudo isso não deixa de ser um mero episódio. Gostaria de ganhar fama por ter feito algo importante para esta cidade de que sou presidente da Câmara, que os munícipes reconheçam a minha entrega para tornar L’Hospitalet mais habitável e mais justa.