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Fuga para a frente debaixo de fogo

FOTO David Ramos/Getty Images

Não é certo que a maioria dos catalães deseje a independência e não será a votação polémica de 1 de outubro a dirimir a dúvida. Mas é inegável que a maioria gostaria de resolver o assunto através de um referendo legal e com garantias que o deste ano não terá. Também é visível que Espanha tem naquela abastada região um problema político que os governos centrais não têm sabido agarrar e que, com instrumentos exclusivamente jurídicos, pode fugir a todo o controlo

Há precisamente uma semana, milhares de pessoas encheram a Via Laïetana, uma das principais ruas de Barcelona. Houve gritos, aplausos, fogo e gente a correr. Não se tratou de mais uma manifestação a favor da independência ou do referendo marcado para depois de amanhã, dia 1 de outubro, mas do Correfoc, um dos pontos altos das Festas de la Mercè (Nossa Senhora das Mercês), que a cidade celebrou no passado fim de semana. Nesta tradição, mantida em povoações catalãs, baleares e valencianas desde o século XII, corre-se por entre indivíduos disfarçados de diabos e outros seres mitológicos que, armados de varões, fazem jorrar fogo de artifício para cima dos presentes. Uns dançam e saltam sob o fogo, ao som de tambores, outros fogem, muitos riem-se, todos festejam.

Talvez a chuva pirotécnica do Correfoc possa servir de metáfora do que se passa na Catalunha, destino cultural e turístico de monta e morada de 7,5 milhões de seres humanos. A região espanhola corre sem destino certo, mas não abranda. O clima é festivo, mas por vezes uma fagulha leva alguém a dizer um palavrão e, em último caso, pode haver queimaduras. O fogo vem de várias direções, sendo as vítimas e os demónios definidos consoante a posição de cada um, num conflito que tem séculos. E até os tambores, que por ora não são de guerra, adaptaram este ano os seus ritmos às palavras de ordem que na última semana marcaram os protestos pela operação policial que a Justiça e o Executivo espanhóis lançaram, a 20 de setembro, contra os organizadores do referendo. “As ruas serão sempre nossas!”, “As urnas não mordem!”, “Isto acontecia com Franco!”, grita-se nestas terras entre montanha e mar.

O presidente da região, Carles Puigdemont, garante que haverá referendo. Não sendo claro que a maioria dos cidadãos deseje a independência (nas últimas eleições regionais, em 2015, 47,8% votaram em listas separatistas), as sondagens indicam de modo consistente que cerca de dois terços querem resolver a questão nas urnas, embora 60% assumam que o referendo de amanhã não será válido. Numa Barcelona coberta de cartazes a favor da secessão, com o lema #empaperem (empapelemos) e bandeiras nas janelas em número crescente, são escassos os pronunciamentos públicos contra o referendo. O único cartaz que diz “não votem” é irónico e independentista: quem diz a frase é o ditador Franco. Em cinco dias de reportagem, o Expresso só viu, numa ocasião, três raparigas a arrancar cartazes pró-independência da parede. Não quiseram falar. No dia 23 houve uma manifestação de extrema-direita pela unidade de Espanha. Incluiu agressões, ao contrário das concentrações separatistas, ‘apenas’ numa das quais houve vandalização de carros da polícia.

Choque. O primeiro-ministro Mariano Rajoy repete sem cessar que a lei não permite o referendo. E ordenou ao presidente da Catalunha, Carles Puigdemont (EM BAIXO), que recue nas suas intenções, de modo a evitar “males maiores”

Choque. O primeiro-ministro Mariano Rajoy repete sem cessar que a lei não permite o referendo. E ordenou ao presidente da Catalunha, Carles Puigdemont (EM BAIXO), que recue nas suas intenções, de modo a evitar “males maiores”

FOTOS Sergio Perez/REUTERs

TONI ALBIR/EPA

Dizia há dias a filósofa Marina Garcès, autora do ‘pregão’ com que começaram as Festas de la Mercè: “Em Barcelona, regra geral, não gostamos que mandem em nós. Nem os de fora nem os de cá. É uma virtude muito catalã que nunca iremos perder, aconteça o que acontecer.” Este ano, anunciou, os festejos seriam excecionais, dada a proximidade do atentado jiadista de 17 de agosto, nas Ramblas, e os últimos gestos do primeiro-ministro Mariano Rajoy para impedir a consulta popular. Garcés tem “alergia a qualquer nacionalismo”, mas critica que “se proíba, reprima e criminalize a expressão pública da palavra livre”. Enquanto discursava, no Salão de Cent da Câmara Municipal, pendia das janelas do edifício uma grande tarja com a expressão “Mais Democracia”. A edil da cidade, Ada Colau, eleita com o apoio do Podemos, é pelo referendo, mas não pela secessão. É daquelas a quem a ação de Rajoy mosqueia.

No dia 20 foram detidos 14 dirigentes regionais (já libertados sob acusação) e confiscados milhões de boletins de voto. Foi a operação Anubis, nome do deus egípcio da morte, e matou na prática qualquer hipótese — e já não havia muitas — de referendo homologável e com garantias democráticas e jurídicas. As organizações separatistas Òmnium e Assembleia Nacional Catalã reagiram imprimindo e distribuindo mais um milhão de boletins. Páginas de internet sobre o referendo são fechadas, umas atrás das outras, por ordem judicial. O ministro das Finanças espanhol assumiu o controlo das finanças da Catalunha, que está sem acesso aos mercados desde 2010, e a polícia local (Mossos d’Esquadra) foi colocada sob o comando de um coronel escolhido por Madrid. O procurador-geral espanhol, José Manuel Maza, afirmou na segunda-feira que, embora até agora não tenha sido “oportuno” deter Puigdemont, essa opção ainda está “em aberto”.

“A ordem para fazer um referendo viola a Constituição [que decreta a “unidade indissolúvel” de Espanha e reserva a soberania e a capacidade de decisão à população no seu todo], mas foi um erro a Justiça ir atrás dos seus destinatários e não dos mandantes: 700 presidentes de Câmara receberam instruções do Governo regional e são citados a declarar”, diz ao Expresso o advogado barcelonês Eugenio Gay Montalvo, ex-vice-presidente do Tribunal Constitucional espanhol. “Durante as buscas policiais houve irregularidades, o que é inaceitável. Lembremo-nos de que a luta contra a ETA não foi ganha pelo GAL [Grupo Antiterrorista de Libertação, esquadrões paramilitares que levaram a cabo a ‘guerra suja’ contra os terroristas bascos].”

Um dos autarcas intimados pela Justiça foi Neus Lloveras, de Vilanova i la Geltrù, a sul de Barcelona. “Foi ultrapassada uma linha que não imaginávamos num Estado democrático”, diz ao Expresso esta militante do Partido Democrata Catalão (PDeCat), de Puigdemont. “Recusei-me a prestar declarações, como todos os companheiros, que são de muitos partidos. E ainda esperamos uma reação da UE.” Bruxelas tem tratado o conflito catalão como assunto interno de Espanha, avisando que quem sai de um Estado-membro também sai da União. O prestigiado juiz Baltasar Garzón, insuspeito de apoiar a independência catalã, considerou “altamente questionável” que se intime autarcas “que ainda não cometeram qualquer delito”.

Ainda que critique o modus operandi de Madrid, Gay Montalvo pensa que é “absurdo” dizer-se que a ditadura voltou e que se distribua cravos nas manifestações, evocando o 25 de Abril português. “Só quem não sabe o que era aquilo e o que é isto!”, desabafa. Há quem veja na ação de Madrid uma aplicação parcial encapotada do artigo 155 da Constituição, que permite suspender a autonomia de uma região. Isso mesmo admitiu o constitucionalista Javier Pérez Royo, da Universidade de Sevilha. A operação Anubis suscitou manifestações, a Universidade de Barcelona foi ocupada pelos alunos e rompeu-se qualquer aparência de normalidade democrática. O Parlamento regional está sem se reunir desde que aprovou o referendo, e a sua presidente, Carme Forcadell (PDeCat), desdobra-se em comícios, fazendo na rua a política que falta nas instituições catalãs e espanholas. Acontece, porém, que na rua a democracia não tem garantias.

Rebelde, mas nunca independente

“Humilhação”, diz-se nesta terra habitada há 450 mil anos, sucessiva e relutantemente dominada por iberos, romanos, visigodos, árabes e carolíngios. A Catalunha nunca foi um reino independente, antes principado comandado pelos condes de Barcelona, vassalos da Coroa de Aragão. Data de 1283 a fundação da Generalitat da Catalunha, ainda hoje nome do sistema de poder regional, duas vezes abolida e outras tantas restaurada.

Aragão uniu-se com o reino de Castela, em 1410, por casamento do seu rei Fernando com a castelhana Isabel (os Reis Católicos). É então que se começa a falar de “Espanha”, o que leva Gay Montalvo a afirmar que “a Catalunha é um claríssimo cofundador” do país vizinho. Formada por reinos vários, por sua vez costurados a partir de pequenos condados e outros territórios, Espanha conheceu sempre nacionalismos periféricos, mormente o catalão e o basco, hoje mais calmo e pragmático, mas atento à atualidade, e que conheceu a versão violenta e assassina com o terrorismo da ETA, que entre 1958 e 2011 matou 829 pessoas. Também na Galiza há partidos nacionalistas, e quase todas as regiões têm forças regionalistas que exercem pressão centrífuga sobre o todo. O efeito dominó preocupa não só Madrid como a Europa, a pensar em regiões como a Flandres belga, a Padânia italiana ou a Republika Srpska bósnia.

O encaixe da Catalunha no grande reino teve altos e baixos, incluindo quatro tentativas abortadas de independência: a República Catalã instituída por Pau Claris (1641), o Estado catalão de Baldomer Lostau (1873, incluindo as ilhas Baleares) e, aproveitando os ventos da II República Espanhola, as proclamações de Francesc Macià (1931) e Lluis Companys (1934). Este último pagou a insubmissão com a vida, fuzilado em Montjuïc por ordem de Franco em 1940.

Mais de dois séculos antes, outro momento difícil da convivência fora a guerra de sucessão espanhola de 1710 a 1714. O trono era disputado por Filipe de Bourbon e pelo arquiduque Carlos de Habsburgo. Os catalães começaram por apoiar o primeiro mas, escaldados por escaramuças passadas com os franceses, trocaram de lado. Correu-lhes mal, pois o austríaco foi derrotado e o novo Filipe V de Espanha dissolveu o autogoverno da região.

As tentativas de o recuperar não cessaram: da Mancomunidade Catalã do século XIX à Generalitat restaurada em 1932 pela II República espanhola e extinta por Franco, para renascer em democracia. Gay Montalvo recorda que a Constituição espanhola de 1978 “foi aprovada pelos catalães em maior grau do que pelos demais espanhóis” (no referendo nacional houve 91,81% de votos ‘sim’ em Espanha, 95,15% na Catalunha). “Foi uma verdadeira reconciliação, que não se deu sob o peso de armas e tanques”, comenta o jurista, para quem a região já tem “mais autogoverno do que muitos estados federais”. Dois dos sete “pais da Constituição” (que a redigiram) eram catalães: Jordi Solé Tura e Miquel Roca. “E já as Cortes de Cádis, onde se fez a primeira Constituição espanhola, em 1812, tinham sido presidias por um catalão”, prossegue Gay Montalvo.

Tensão. Os catalães preparam-se para votar em massa, apesar de o Governo central ter enviado para a região milhares de agentes da polícia, incluindo unidades antidistúrbios

Tensão. Os catalães preparam-se para votar em massa, apesar de o Governo central ter enviado para a região milhares de agentes da polícia, incluindo unidades antidistúrbios

FOTO Miquel Llop/NurPhoto via Getty Images

A transição democrática fez voltar a Espanha e ao seu cargo o presidente da Generalitat, Josep Tarradellas, que a guerra civil e o franquismo tinham empurrado para o exílio. Liderou a Catalunha até 1980. Seguiu-se-lhe Jordi Pujol, da Convergência e União (CiU), que juntava liberais (Convergência) e democratas-cristãos (União), nacionalistas mas não separatistas, apreciados pela burguesia catalã. Perito em obter prerrogativas de Madrid a troco do apoio aos governos centrais, o histórico Pujol chefiou a Catalunha durante 23 anos. “A educação promovida pela CiU era muito nacionalista, foi o gérmen do presente”, diz ao Expresso o vendedor imobiliário Miquel Utge, que a viveu. Residente da vila de Sor, perto de Andorra, destaca a promoção da língua catalã, que estivera proibida durante a ditadura e não unificada. “A minha avó mal percebia a televisão quando começou a haver emissões em catalão”, conta.

A Pujol seguiu-se o primeiro presidente não-nacionalista: o socialista Pasqual Maragall, pai dos Jogos Olímpicos de Barcelona de 1992. Sem maioria, governou com a Esquerda Republicana (ERC, que fora partido de Companys, Macià e Tarradellas) e a Iniciativa (ICV, ecologista). Este trio apostou em reformar o estatuto de autonomia, com os ventos favoráveis do Executivo central, onde o também socialista José Luis Zapatero rendera José María Aznar, do Partido Popular (PP, direita). Zapatero prometeu apoiar “tudo o que viesse” do Parlamento regional, mas borregou. Quando o texto votado por 120 dos 135 deputados regionais chegou ao Congresso, em Madrid, o então primeiro-ministro fez-lhe uma revisão em baixa, em conluio com nada menos do que Artur Mas, sucessor de Pujol na CiU e rival de Maragall. O eleitorado catalão corroborou o estatuto num referendo com fraca participação, mas o presidente da região demitiu-se, zangado. Hoje sofre de Alzheimer.

A um agravo de que a popularidade dos socialistas na Catalunha ainda não se refez juntou-se, em 2010, um corte substancial do conteúdo do novo estatuto de autonomia pelo Tribunal Constitucional, após recurso do PP. Já então Maragall fora substituído pelo seu camarada José Montilla. A sentença do alto tribunal, contra a qual Gay Montalvo votou vencido, amputou do clausulado a frase “a Catalunha é uma nação”, que, à cautela, já só estava num preâmbulo sem força jurídica.

Faça urnas ao estilo IKEA

A subida ao poder de Rajoy em 2011 e os anos da crise e austeridade propiciaram a aceleração separatista, agravada pela inanidade, em anos recentes, dos socialistas, outrora ponte entre o Estado central e o catalanismo e hoje defensores de uma Espanha federal. Na Generalitat, Artur Mas reconquistou o poder no final de 2010, sem maioria e em coligação com uma ERC que as faúlhas da desilusão tinham tornado mais radical. Era o fim da moderação. “A CiU, que estava decadente e acusada de corrupção, agarrou-se ao nacionalismo”, explica Miquel Utge. “Sempre houve um sector independentista de cerca de 15%. Nos últimos anos, foi crescendo sem resposta do Governo central”, recorda Gay Montalvo.

Aos separatistas do ‘sim’ somaram-se os do ‘porque não?’, exasperados com Madrid e ávidos de algo que os entusiasmasse no período lúgubre da crise. “Defender a independência é defender uma utopia, um sonho, uma rutura... A não-independência é manter o statu quo, que é sempre menos entusiasmante”, reconhecia há dias o socialista Josep Borrell, catalão e ex-presidente do Parlamento Europeu. Lastima um clima em que “quem questiona a independência é linchado” e pasma ante o misto de inércia e agressividade com que Espanha — e o seu partido em particular — reagiu à escalada do nacionalismo catalão. “Se a minha namorada se zanga comigo, mando-lhe flores. É preciso criar afeto, que foi coisa que não criámos.”

Rajoy repete sem cessar que a lei não permite o referendo. Incapaz de um discurso positivo para com os catalães (como aquele que o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown ensaiou na Escócia dias antes do referendo de 2014, que rejeitou a secessão), contenta-se em ordenar a Puigdemont que recue para evitar “males maiores”. Se David Cameron dialogou com Edimburgo e apostou com êxito em vencer o referendo, Rajoy preferiu enviar para a Catalunha milhares de agentes da polícia, incluindo antidistúrbios, e fretou navios de cruzeiro para os alojar. “São tão animais que decidiram deixar a maioria das cidades espanholas desprotegidas para mandar a polícia vir para cá procurar urnas”, criticou o presidente da ANC, Jordi Sánchez, cuja linguagem mostra bem a degradação do clima político. “Enlouqueceram”, sentencia sobre o Governo central.

Para Gay Montalvo, o primeiro-ministro erra ao só agir “através dos tribunais, que não podem fazer política”. É o que dá azo a que a autarca Lloveras afirme que “o Governo de Puigdemont tentou tudo para ter um referendo legal”. O problema da Catalunha é político, pelo que a lei “tem de evoluir e procurar alternativas”, diz o ex-juiz do Constitucional. “As leis de trânsito dos anos 50 também já não serviriam a realidade de hoje.” Contrasta o presente impasse com o “momento idílico” dos anos 90 e do início do século XXI, com “coesão linguística, presença internacional da Catalunha e um papel central na democracia espanhola”.

Artur Mas começou a falar de “direito a decidir” e autodeterminação, apesar de o direito internacional só conceder esta última em casos de colonialismo, invasão ou violações graves dos direitos humanos, não aplicáveis à Catalunha. O então presidente reivindicava ainda a autonomia fiscal que têm, sob forais medievais, o País Basco e Navarra. O diálogo com Rajoy, ufano com a sua maioria absoluta, nunca foi a lado nenhum. E a 11 de setembro de 2012, Dia da Catalunha (Diada), 1,5 milhões saíram à rua a pedir “um novo Estado na Europa”. O presidente catalão antecipou as eleições regionais, em defesa do “direito a decidir”, mas a CiU ficou ainda mais dependente da ERC. Nesse ano entrou no hemiciclo a Candidatura de Unidade Popular (CUP), separatista e de extrema-esquerda antissistema, cavalgando a onda da indignação antiausteridade que também favoreceu a ascensão nacional do Podemos.

Com maioria separatista no Parlamento catalão, a 9 de novembro de 2014 houve um simulacro de referendo em que só 40% dos eleitores catalães foram às urnas. Mais de 80% disseram ‘sim’ à independência, mas o resultado foi enviesado, já que os partidários da ligação a Espanha defenderam que não se votasse, para não legitimar uma consulta que o Congresso e o Tribunal Constitucional tinham chumbado e que não cabia — como não cabe a de dia 1 de outubro — no ordenamento jurídico espanhol. Por causa da consulta, e apesar de a terem crismado com o eufemismo “processo participativo”, Artur Mas e vários colegas foram condenados, já este ano, por prevaricação e desvio de fundos. Inabilitado para a política durante dois anos, o ex-presidente da região viu, esta semana, o Tribunal de Contas exigir-lhe uma fiança de 5,3 milhões de euros, sob pena de embargo dos seus bens.

Na sequência daquele sucedâneo de referendo, Mas convocou eleições para 2015, as terceiras em cinco anos. A CiU desfez-se por divergências internas e a sua ala independentista aliou-se à ERC na lista “Juntos pelo Sim”, cujo nome denunciava a intenção plebiscitária. Foi um tiro no pé: o Governo regional ficou dependente da CUP, que exigiu o afastamento de Artur Mas em troca do seu apoio, e Carles Puigdemont foi arrancado ao sossego da Câmara de Girona, a que presidia. A crise política, económica e social uniu o separatismo marxista à burguesia catalanista, conservadora e católica. Resta saber que país poderão construir juntos, a dar-se o caso. Sobre isso pouco se ouve falar nos debates que consomem a sociedade catalã.

“É complicado”, reconhece Neus Lloveras. “Estamos unidos no que toca a fazer um país novo, mas não em relação ao que esse país deve ser. Votamos juntos em questões ligadas ao processo de separação, mas não nos assuntos quotidianos”, diz a também deputada regional. Rejeita, porém, as acusações dos unionistas segundo as quais o Governo regional anda a reboque dos radicais da CUP. “Como em todas as equipas, há negociação.”

A incógnita de domingo

Chegamos ao momento atual. Puigdemont pediu “um pacto de Estado” e um referendo legal, mas Rajoy fez orelhas moucas. Escolhendo a fuga para a frente, a maioria separatista no Parlamento regional atropelou os regulamentos e aprovou a consulta num processo mais do que duvidoso. PDeCat, ERC e CUP não permitiram que a oposição apresentasse emendas, e esta abandonou o hemiciclo, tornando mais visível a fratura política e a insuficiência de uma maioria simples em questões desta magnitude: 72 deputados votaram a favor do referendo à secessão, quando uma mera reforma do estatuto de autonomia requer 90 ‘sins’.

A descabelada sessão gerou as primeiras críticas ao processo vindas de entidades catalãs, desde o Conselho de Garantias Estatutárias (órgão da Generalitat que zela pelo cumprimento do estatuto de autonomia) até ao popular cantor Joan Manuel Serrat (“O referendo não é transparente e não pode representar ninguém”). Até o grupo parlamentar Catalunha Sim É Possível, aliado regional do Podemos e favorável ao referendo, censurou o comportamento dos separatistas. O seu representante Joan Coscubiela criticou Forcadell pelos seus “métodos antidemocráticos” e sublinhou que “meios absolutamente ilegítimos podem chegar a transformar fins legítimos em coisas absolutamente degradantes”.

Um dia depois de aprovado, o referendo foi suspenso pelo Constitucional. Gay Montalvo diz que “era o que tinha de ser feito” e aponta responsabilidades “a todos, pois todos tiveram más intenções”. Mas acrescenta: “Responsabilizo sobretudo o mais forte, que é Rajoy. Até pode não ter culpa de tudo, mas está um nível acima. Se um miúdo faz birra e desata aos pontapés, é dever do adulto não responder da mesma maneira.” O advogado, que esteve no Constitucional entre 2001 e 2012, assegura que “a comunidade internacional não poderá apoiar um referendo que não tem legitimidade democrática”.

O presidente catalão disse ao Expresso, há meses, que “a legitimidade definitiva será dada pelas pessoas, com a sua participação”, frase repetida quase textualmente pela presidente da Câmara de Vilanova i Geltrù. “Podia haver um referendo muito organizado e as pessoas não irem votar. Vai haver este, não nas condições que gostávamos, mas se os cidadãos votarem em massa pode ser vinculativo”, prossegue Lloveras, que assume o dever de “assegurar que os munícipes possam exercer todos os seus direitos”.

Frases bonitas e algo populistas não conferem solidez a uma consulta sem recenseamento, mesas de voto nomeadas, observadores neutros ou, sequer, Comissão Eleitoral: houve uma, mas autodissolveu-se após a operação Anubis, para poupar os seus membros a multas. Em todo o caso, fora eleita apenas pelos deputados regionais separatistas. Puigdemont publicou há dias na internet a lista de locais onde votar, mas a Justiça encerrou a página. É possível que muitos votantes tragam boletins impressos em casa e até há cartazes ao estilo IKEA a ensinar a montar urnas, para o caso de as autoridades espanholas confiscarem as que há e que, à data de fecho desta edição, estavam em parte incerta.

Importante é o dia 2

Sendo certo que vai haver gente a votar depois de amanhã, talvez o número mais relevante da noite seja o da participação, não por legitimar o que é a todos os títulos ilegal mas para aferir a vontade dos catalães de votar num referendo a sério. Vai depender da afluência, mas também de quão longe as forças da ordem estiverem dispostas a ir para impedir o referendo. “Puigdemont adoraria fotos da Guardia Civil a destruir urnas”, diz Utge com um sorriso. Seria mais fogo a fazer correr aqueles que desejam um país. “Não creio que a polícia chegue a ter ações que propiciem a violência, mas, se houver milhões de catalães com boletins e quiserem impedi-los de votar, pode-se perder o controlo”, alerta Lloveras, também presidente da Associação de Municípios pela Independência, que reúne 794 dos 948 concelhos catalães.

Utge está a favor do processo, como quase todos em Sor. “Num país mais pequeno, é mais fácil tomar decisões e, se necessário, corrigi-las”, diz, embora rejeite o “nacionalismo de direita”. A Catalunha tem um PIB per capita (28.929 euros, dados de 2015) superior ao espanhol (23.300 euros) e ao europeu (28.700). Representa um quinto da economia do país de que a querem separar. “Mesmo com a autonomia limitada, como agora, continuamos a funcionar sem precisar de ninguém de fora”, diz este pai de duas crianças e dono, com a mulher, Carol, de uma marca de malas e sacos artesanais.

A secessão obrigaria a negociar a fatia da Catalunha na dívida espanhola, implicaria a sua saída da UE e suscitaria questões sobre zonas de fronteira, trabalhadores que se movem entre regiões, direitos e deveres. “Espanha rouba-nos” é um mantra dos separatistas desde a era de Pujol. Asseguram que 8,4% do PIB catalão vai parar aos cofres de Madrid. Outros cálculos rebaixam a cifra para 4% ou até, no caso de Borrell, num livro recente, 1,6%. São 8 a 10 mil milhões de euros por ano, escreve a revista “The Economist”. A região tem uma taxa de desemprego mais baixa do que Espanha (18,6% contra 22,1%), mais camas de hospital por mil habitantes (4,8-3,0) e menor mortalidade infantil (2,7 por mil, 2,8 em Espanha).

Convicto de que no dia 1 de outubro haverá muito mais gente a votar do que em 2014, incluindo partidários do ‘não’ à independência, Utge lembra as manifestações em 40 cidades espanholas contra a operação Anubis, “incluindo locais como Múrcia e Burgos”, politicamente próximos do PP. “Se fosse um referendo sobre uma ciclovia, não o proibiam”, assegura. Neus Lloveras crê que a Catalunha acordará na segunda-feira “exausta” e que será preciso “analisar se há mandato democrático”. “Dificilmente”, alvitra Utge. A autarca não exclui uma declaração unilateral de independência (tampouco descartada por Puigdemont), mas no limite está disposta a aceitar um pacto que mantenha a região em Espanha, em novos moldes. “Estamos sempre abertos ao diálogo, com base no que acontecer no dia 1. Abertos a tudo.”

Também há quem anteveja que o “votaremos” gritado nas manifestações se aplique não ao referendo atabalhoado de domingo próximo mas a uma antecipação, em breve, das eleições regionais. Utge prevê, nesse caso, uma “maioria esmagadora” para os separatistas, sobretudo os mais aguerridos. Os estudos de opinião não confirmam essa maioria (está dentro da margem de erro) mas coincidem em atribuir o primeiro lugar, hoje do PDeCat, à ERC, que defende a secessão unilateral. Pelo que o comercial teme a “fratura social”.

“Se as coisas continuam como estão, haverá violência e confronto”, prenuncia Gay Montalvo. “É como nos casamentos. Por vezes, tem de haver uma separação amistosa, caso contrário pode acontecer de tudo.” Não crê que entre Espanha e a Catalunha tenha chegado esse momento e, se repudia o imobilismo do PP, frisa que é “imprescindível o respeito pelas normas de convivência”. A seu ver, o bloqueio há de se resolver através de diálogo, “dando um passo atrás e repensando sem complexos o sistema territorial”.

No Congresso dos Deputados, os socialistas já conseguiram que o PP aceite uma comissão de revisão do modelo territorial espanhol. A patronal catalã Foment del Treball sugere um novo estatuto, a aprovar num referendo legal e pactuado com o Estado central, dentro de dois anos. Na semana passada, uma assembleia de militantes, simpatizantes e aliados do Podemos defendeu uma consulta popular à independência com amparo jurídico e acordada com Madrid. Utge sente que qualquer oferta de Espanha já virá tarde de mais e fala de “ressentimento na Catalunha por haver falta de investimento, particularmente em infraestruturas”. Exemplifica com a ferrovia de alta velocidade, que chegou de Madrid a Sevilha em 1992 e é subutilizada e que Barcelona só recebeu em 2008.

“A radicalização dividiu uma sociedade que era coesa”, lastima Gay Montalvo. Se até agora as mobilizações catalãs têm sido pacíficas, o homem de leis vai à obra maior da literatura espanhola para explicar os seus medos. “Já houve na Catalunha guerras civis terríveis. Quando Dom Quixote e Sancho Pança se dirigem a Barcelona, percebem que estão perto quando começam a ver em cada árvore um enforcado.” De corda ao pescoço, como no romance de Cervantes, debaixo de fogos vários, como no Correfoc, valha à Catalunha o seu proverbial seny (bom senso) ou, à míngua deste, a Nossa Senhora das Mercês, que alegrou Barcelona nestes dias enturvados.

Texto publicado na Revista E de 30 de setembro de 2017