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Catalunha à beira da “independência real”? Para já, empresas retiram sedes da região

ALBERTO ESTEVEZ

No dia em que o Governo catalão transmitiu oficialmente ao Parlamento regional os resultados do referendo ilegal de domingo último, o presidente Carles Puigdemont sofreu duros reveses. Além de ter visto o seu antecessor afirmar que a Catalunha não está preparada para a “independência real”, são cada vez mais as empresas a anunciar que tiram as suas sedes da região. Sobre a situação catalã, o Expresso entrevistou entretanto Nuria Marín, presidente da Câmara no segundo município mais povoado da Catalunha

O governo regional catalão anunciou esta sexta-feira à tarde, assumindo-se como Administração Eleitoral da Catalunha, os resultados “definitivos” do referendo. Frisando tratar-se da contagem de “boletins verificados e não sequestrados”, em referência à ação policial ordenada pela justiça espanhola, informa que votaram 2.286.217 pessoas, de um total de 5.313.564 potenciais eleitores.

A abstenção foi, portanto, de 56,97%. Tendo havido 19 mil votos nulos, os sufrágios a favor da independência foram 90,18%, os votos não foram 7,83% e houve 1,98% em branco. O diário “El País” afirma que há incongruências entre estes valores e os que estavam apurados com 95% dos votos contados, no domingo.

A relevância da divulgação dos resultados não reside tanto na vitória do “sim”, dada como adquirida, como no facto de a lei de rutura aprovada pela maioria separatista no parlamento regional, a 6 de setembro (e suspensa pelo Tribunal Constitucional espanhol) prever um prazo de 48 horas entre esse anúncio e a declaração da independência. Sabe-se que a sessão marcada para segunda-feira foi suspensa por ordem judicial e que Puigdemont pediu para se dirigir aos deputados na terça-feira, 10 de outubro.

Ao mesmo tempo que empresas importantes, como os bancos Sabadell e CaixaBank, a Gas Natural Fenosa, anunciam mudança da sede social para cidades espanholas fora da Catalunha, temendo as consequências da secessão, crescem os apelos à não precipitação, isto é, contra uma declaração unilateral da independência. O mais recente veio do improvável Artur Mas, antecessor e companheiro de Puigdemont no Partido Democrata Europeu Catalão, o homem que deu impulso ao atual surto separatista, há cinco anos, na sequência da anulação de partes do estatuto de autonomia da Catalunha pelo Constitucional e da recusa do primeiro-ministro Mariano Rajoy em rever o modelo de financiamento regional.

Em entrevista ao “Financial Times”, Artur Mas declarou que, embora tenha conquistado, a seu ver, o direito à soberania, “a questão é como exercer esse direito”. O ex-presidente, que governou entre 2010 e 2015, crê que “decisões destas devem ter um objetivo em mente: não é só proclamar a independência, mas converter-se num país independente”. Aí, reconhece, “faltam coisas”. A Catalunha “ainda não está pronta para a independência real”, uma vez que “não assentou ainda as bases para ser independente”.