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Republicano pró-Rússia encontrou-se com advogada do Kremlin que queria “ajudar” Trump a ser eleito

Chip Somodevilla

O congressista Dana Rohrabacher encontrou-se com Natalia Veselnitskaya dois meses antes de a advogada próxima do Kremlin se ter reunido com o filho e o genro do agora Presidente norte-americano, para lhes entregar informações “incriminatórias” sobre Hillary Clinton

Dana Rohrabacher, membro do Partido Republicano que representa o estado da Califórnia na câmara baixa do Congresso dos EUA, encontrou-se com Natalia Veselnitskaya durante uma viagem a Moscovo em 2016, dois meses antes de a advogada russa com ligações ao Kremlin se ter reunido com Donald Trump Jr. e Jared Kushner para, nas palavras do intermediário que agendou esse encontro, "ajudar" Donald Trump a derrotar Hillary Clinton nas presidenciais de novembro.

A revelação foi feita por Veselnitskaya a uma revista pró-Rússia da Crimeia na terça-feira. A "Foreign Policy", a primeira a traduzir e a noticiar essa entrevista, diz que o legislador republicano é o membro do Congresso que mais tem defendido um estreitar das relações entre Washington e Moscovo e refere que o encontro entre ambos vem ajudar a descortinar até que ponto operativos políticos russos tentaram influenciar oficiais norte-americanos durante a corrida à Casa Branca no ano passado.

Na entrevista, Veselnitskaya diz que se encontrou com Rohrabacher em abril de 2016 na capital russa para discutir a Lei Magnitsky, o pacote de sanções aprovadas pelo Congresso norte-americano em 2012 para castigar elementos do governo russo suspeitos de violações de direitos humanos, depois de o advogado russo Sergei Magnitsky ter sido morto sob custódia em 2009. Note-se que Veselnitskaya continua a defender que só se encontrou com Trump Jr. para discutir essa mesma lei, que entre outras coisas veio suspender um programa federal de adoção de crianças russas por casais norte-americanos.

"Só pedimos [a Rohrabacher] que ouvisse a nossa versão alternativa", explicou a advogada na terça-feira, antes de lançar ataques aos apoiantes das sanções e de argumentar que o legislador republicano foi "enganado" por colegas do Congresso que defenderam a medida. "Não deixe que golpistas o usem", foi o que Veselnitskaya pediu ao representante americano.

Veselnitskaya é tida como intermediária dos serviços de segurança do Kremlin

Veselnitskaya é tida como intermediária dos serviços de segurança do Kremlin

YURY MARTYANOV

Contactado pela "Foreign Policy" no rescaldo da entrevista, o porta-voz de Rohrabacher, Kenneth Grubbs, disse que a advogada foi apenas uma "das várias pessoas" com quem ele se encontrou no âmbito da visita de uma delegação do Congresso americano a Moscovo e garantiu que o seu patrão "não estava focado na identidade" da advogada nem se lembra da reunião em causa.

Apesar de a sua visita à capital ter sido alvo de grande cobertura mediática nos EUA, até agora não se sabia que ele se tinha encontrado com a advogada ligada ao Kremlin que é uma das peças centrais das investigações americanas ainda em curso ao alegado conluio entre a equipa de Trump e elementos do governo russo durante a campanha presidencial.

Dana quê? Contornos de um mistério

Logo a seguir à eleição de Trump em novembro passado, já depois de várias agências de espionagem norte-americanas terem revelado que os russos orquestraram uma campanha cibernética para dar força à candidatura do empresário, Rohrabacher tornou-se um íman de controvérsias por defender uma reaproximação de Washington a Moscovo.

Em agosto, encontrou-se com Julian Assange, o fundador da WikiLeaks que, durante a campanha presidencial, publicou documentos sobre Clinton roubados dos sistemas informáticos do Partido Democrata. Logo a seguir, o legislador tentou negociar a libertação de Assange, que continua a viver escondido na embaixada do Equador em Londres. Em troca disso, o fundador da WikiLeaks comprometia-se a entregar à Casa Branca provas de que não foram os russos que lhe forneceram a tranche de documentos roubados.

Dois meses depois do encontro com o republicano em Moscovo, a advogada russa rumou a Nova Iorque para se encontrar com o filho mais velho de Trump, para discutir a Lei Magnitsky e supostamente para lhe entregar informações "incriminatórias" sobre a rival do pai, a ex-secretária de Estado do primeiro mandato de Barack Obama. Esse encontro está a ser examinado à lupa pela equipa de Robert Mueller, o procurador especial encarregado de investigar o conluio Trump-Rússia desde que o Presidente despediu James Comey da liderança do FBI, e também por várias comissões do Congresso.

Numa troca de emails revelada pelo próprio Trump Jr. quando o encontro secreto com Veselnitskaya foi noticiado, o agente britânico Rob Goldstone, que funcionou como intermediário para esse encontro, disse ao filho do agora Presidente que o governo russo queria "ajudar" o seu pai a vencer as eleições", ao que Trump Jr. respondeu: "Se é assim como diz, adoro isso."

Na entrevista publicada pela "News Front" ontem, Veselnitskaya diz que, nessa reunião na Torre Trump, o filho mais velho do empresário tornado líder dos EUA lhe perguntou se ela estava na posse de "documentos financeiros" que comprovasse que a empresa americana Ziff Brothers Investments tinha transferido o que a advogada descreveu como "fundos roubados" da campanha de Clinton. Ter-lhe-á garantido que não.

Vários membros da família Ziff contribuíram para a Iniciativa Global Clinton a par de Bill Browder, outro americano que fez lobby pela aprovação da Lei Magnitsky. Segundo a "Bloomberg", as autoridades russas abriram uma investigação a investimentos conjuntos de Ziff e Browder, uma informação que Veselnitskaya achou que a campanha de Trump poderia usar contra a candidatura de Clinton à Casa Branca.

Membros das secretas americanas continuam a defender que o encontro em Nova Iorque entre Veselnitskaya e pessoas do círculo próximo de Trump terá, no mínimo, obtido uma aprovação tática do Kremlin. Apesar de não se conhecerem detalhes sobre a relação da advogada com o governo russo, ex-espiões dizem que ela pode trabalhar há vários anos como intermediária dos serviços de segurança do Kremlin.

Em maio deste ano, o "Washington Post" revelou uma gravação na qual se ouve um dos líderes do Partido Republicano, Kevin McCarthy, a dizer a colegas do Congresso que acha que o governo de Vladimir Putin "comprou" Donald Trump e Dana Rohrabacher. Em 2012, segundo informações apuradas pelo "New York Times", o FBI já tinha avisado que o legislador estava na mira de espiões russos que queriam recrutá-lo.