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Internacional

Porto-riquenhos devem estar “orgulhosos” por não terem enfrentado “catástrofe a sério como o Katrina”

MANDEL NGAN

Em visita ao território norte-americano. duas semanas depois de a ilha ter sido devastada pelo furacão Maria, Donald Trump também disse que Porto Rico está “a fazer descarrilar o orçamento federal", apesar de a sua administração ainda não ter dado luz verde à atribuição de fundos de emergência

Num encontro com as autoridades de Porto Rico na terça-feira, quase duas semanas depois de a ilha norte-americana ter sido duramente atingida pelo furacão Maria, Donald Trump declarou ontem que a população do território deve estar "orgulhosa" por não ter havido milhares de vítimas como na "catástrofe a sério" que foi o Katrina, o furacão que varreu a cidade de Nova Orleães, no estado do Louisiana, em agosto de 2005.

No mesmo encontro, o Presidente norte-americano também disse que o território não-incorporado dos EUA veio "fazer o nosso orçamento descarrilar" por causa do desastre, isto numa altura em que a sua administração ainda não aprovou a atribuição de fundos de emergência aos porto-riquenhos.

Antes de embarcar no Air Force One rumo à ilha — que, chegou a dizer, só não recebeu ajuda mais cedo porque fica "no meio do oceano Atlântico" (não fica) — o líder dos EUA já tinha passado os últimos dias a elogiar a resposta "mesmo boa" do seu governo aos estragos causados pelo Maria, uma retórica que foi nota forte da sua visita de cinco horas à capital da ilha, San Juan, contra as inúmeras críticas que lhe têm sido tecidas por causa da inação face à "catástrofe humanitária".

"Cada morte é um horror mas se olharmos para uma catástrofe a sério como o Katrina, e olharmos para a tremenda — centenas e centenas e centenas de pessoas morreram, e olhamos para o que aconteceu aqui, com uma tempestade que na verdade foi totalmente esmagadora, nunca ninguém viu nada assim. A vossa contagem de mortos qual é neste momento? Dezassete? Dezasseis, 16 pessoas contra as milhares", disse em referência às 1833 pessoas que morreram em Nova Orleães. (Horas depois, o governador de Porto Rico reviu o balanço de mortos para 34.)

Depois da visita de Trump, a Casa Branca anunciou que está a preparar-se para pedir ao Congresso que aprove um pacote de ajuda às regiões dos EUA devastadas por vários furacões no último mês avaliado em 29 mil milhões de dólares (24,6 mil milhões de euros) — dos quais $13 mil milhões (€11 mil milhões) serão atribuídos às vítimas dos furacões que devastaram Porto Rico, a Florida e o Texas e os restantes para financiar um programa federal de seguros contra inundações.

Recorde-se que, antes de visitar Porto Rico, Trump passou vários dias sem fazer referência ao desastre natural, dizendo apenas que, apesar de a ilha ter sido atingida pelo Maria, vai ter de saldar a dívida de 72 mil milhões de dólares (quase 62 mil milhões de euros) contraída junto dos EUA após as autoridades do território terem declarado bancarrota em 2015. Foi a mesma ideia que voltou a expressar ontem durante a visita a San Juan. "Detesto dizer-vos isto, Porto Rico, mas vocês fizeram o nosso orçamento descarrilar porque gastámos muito dinheiro com Porto Rico e isso é bom. Salvámos muitas vidas."

Já durante um encontro com sobreviventes na cidade de Guaynabo, ao lado da primeira-dama Melania Trump, o Presidente foi recebido com um cartaz de uma porto-riquenha onde se lia: "Você é um mau hombre." O furacão Maria, a tempestade mais poderosa a atingir Porto Rico em 90 anos, deixou mais de metade dos residentes sem água potável nem eletricidade e destruiu várias estradas e infraestruturas.

Na visita a San Juan, Trump também se encontrou com a autarca da capital porto-riquenha, Carmen Yulin Cruz, dias depois de a ter atacado no Twitter e em declarações públicas, acusando-a de ser uma "mulher desagradável" com fraco espírito de liderança depois de ela ter "implorado" por ajuda e ter acusado a administração Trump de estar "a matar os porto-riquenhos com a sua ineficiência". No encontro de terça-feira, o Presidente absteve-se de críticas a Cruz, elogiando a reunião "produtiva" que mantiveram.