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Catalunha: Eurodeputados não poupam nas críticas e pressionam para que se passe ao diálogo

PATRICK SEEGER / EPA

O Parlamento Europeu apelou esta quarta-feira ao diálogo entre os Governo de Madrid e da Catalunha. A Comissão pede "vontade política". Em Estrasburgo não faltaram as críticas aos dois lados em confronto

O eurodeputado catalão Ramon Tremosa-i-Balcells queria levar cravos para o plenário. Mas não conseguiu encontrá-los em Estrasburgo e acabou por comprar e distribuir rosas vermelhas durante o debate sobre a crise na Catalunha. Ao que o Expresso apurou, as flores simbolizavam "o diálogo" e um povo – o catalão – que quer expressar-se pacificamente através do voto.

Mas a grande maioria dos membros do Parlamento Europeu (PE) não tem dúvidas de que o referendo foi "ilegal" e que o governo regional da Catalunha atuou à margem da lei. Agora, insistem para que as autoridades catalãs passem ao diálogo com Madrid, respeitando a Constituição e o Estado de Direito.

"Não avancem esta noite para a declaração de independência", apelou às autoridades catalãs, o líder dos Socialistas e Democratas. "Uma tal declaração seria um prenúncio de novos confrontos e de novos desastres", alertou o italiano Gianni Pittella.

Já o líder da bancada do Partido Popular Europeu – o maior grupo político no PE, e a que pertence o PP do primeiro-ministro Mariano Rajoy – é mais duro nas críticas ao presidente do governo regional da Catalunha, Carles Puigdemon. Manfred Weber fala num "governo irresponsável" que "está a dividir um país".

Só que em Estrasburgo, as críticas são para os dois lados do confronto e o governo de Rajoy também não sai bem na fotografia. A força policial utilizada no domingo, contra cidadãos que tentavam votar, mereceu fortes críticas dos eurodeputados de vários grupos políticos. Falam numa ação "desproporcionada".

"É claro que a estratégia do primeiro-ministro Rajoy falhou. Ele recusou o diálogo", atirou Ska Keller, co-líder dos Verdes. "Devemos pedir ao governo espanhol para parar a escalada de tensão e a utilização da repressão e da força policial e militar", apelou o francês Patrick Le Hyaric do grupo da Esquerda Unitária.

Um desincentivo aos movimentos separatistas

"Deste parlamento sai o apelo à reflexão serena e profunda que favoreça o diálogo em Espanha", concluiu o Presidente do Parlamento Europeu, o italiano Antonio Tajani.

Ao mesmo tempo sai também uma mensagem a desencorajar este e outros movimentos separatistas. "O Futuro da Catalunha, o futuro da minha comunidade flamenga não está na separação brutal mas na cooperação", disse o líder dos liberais. Guy Verhofstadt, que já foi primeiro-ministro da Bélgica, conhece bem as rivalidades entre a Flandres e a Valónia.

Espanha não é o único país da UE a ter de lidar com movimentos independentistas, e a questão catalã torna-se ainda mais sensível pela influência que pode ter noutros estados-membros.

Num projeto que vai perder o Reino Unido, o apelo e a argumentação são para que não haja mais divisões. É que eventual separação de Espanha, deixaria a Catalunha fora da União Europeia. Para voltar a entrar necessitaria que nenhum dos estados-membros recorresse ao poder de veto.

"A União Europeia tem aqui um papel", defendeu ainda Ska Keller, justificando que "este não é apenas um assunto interno" de Espanha, porque o país faz parte da UE. E não é a única entre os eurodeputados a pensar assim e a criticar a passividade da Comissão Europeia.

O executivo comunitário tem repetido que este é um assunto interno de Espanha e escusa-se a falar em mediação entre Madrid e a Catalunha. Bruxelas sabe que o Governo de Rajoy dificilmente aceitaria uma interferência do género, e tem medido as palavras e as declarações para evitar acusações de "ingerência".

O Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, tem estado em contacto com o Presidente do Governo Espanhol, mas para Bruxelas são os intervenientes espanhóis que têm de se sentar à mesa e passar do confronto ao diálogo.

"Não há nada que impeça o diálogo de começar já. A única coisa de que precisam é de vontade política", concluiu o 1º Vice-Presidente da Comissão, Frans Timmermans, durante o debate com os eurodeputados em Estrasburgo.