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Filipe VI acusa governo da Catalunha de “deslealdade inadmissível”

QUIQUE GARCIA / EPA

Após o referendo na Catalunha e a onda de violência que se seguiu, o Rei dirigiu-se aos espanhóis, em especial aos catalães, falando numa “conduta irresponsável” que pode colocar em risco “a estabilidade económica e social da Catalunha”

O rei de Espanha desferiu hoje um duríssimo ataque contra as autoridades regionais da Catalunha, a quem acusou de “deslealdade inadmissível” para com o Estado, do qual são representantes na região. “Vivemos momentos muito graves para a nossa vida democrática”, afirmou Filipe VI, no trono desde 2014, naquela que foi a sua primeira comunicação solene para lá das tradicionais mensagens de Natal.

Sem falar de saídas para a crise catalã, o rei (que, recorde-se, não tem poder executivo) reafirmou o compromisso da Coroa com a Constituição e a democracia, prometendo “entrega ao entendimento e à concórdia entre espanhóis”, jurando defender “a unidade e a permanência de Espanha”. A intervenção mereceu-lhe elogios do Partido Popular (direita, no poder em Espanha) e críticas de forças da oposição, que o censuraram por apoiar um dos lados do conflito e por não ter mencionado os incidentes com forças policiais.

Segundo o monarca, “certas autoridades catalãs” — referência ao Governo de Carles Puigdemont e ao parlamento regional — violam “de maneira reiterada, consciente e deliberada” a Constituição e o Estatuto de Autonomia da região, com o objetivo de proclamar “ilegalmente” a independência. Ao fazê-lo, acusa Filipe de Borbón, “quebrantaram os princípios democráticos de todo o Estado de Direito”.

Numa mensagem que terá encantado ao primeiro-ministro Mariano Rajoy, o rei aponta o dedo aos que “esmurravam a harmonia e a convivência na própria sociedade catalã”. A sua conduta “irresponsável”, acrescentou, menospreza afetos e solidariedade, na tentativa de “apropriação das instituições histórias da Catalunha”. Além de desrespeitarem “a unidade de Espanha e a soberania nacional, que é o direito de todos os espanhóis a decidir democraticamente a sua vida em comum”, podem “pôr em risco a estabilidade económica”, afirmou.

HANDOUT/Reuters

Face ao desafio, diz o monarca, é “responsabilidade dos legítimos poderes do Estado assegurar a ordem constitucional e o normal funcionamento das instituições, a vigência do Estado de Direito e o autogoverno da Catalunha, baseado na Constituição e no seu Estatuto de Autonomia”. Fazendo ver aos catalães (“todos”, frisou) que há vias constitucionais para defender ideias sem desrespeitar a lei, Filipe VI teve uma palavra especial para os habitantes da região que sentem “preocupação e grande inquietação com a conduta das autoridades regionais”, expressando-lhes “apoio e solidariedade do resto dos espanhóis”: “Não estais sós”.

O rei reconhece que são “momentos difíceis”, mas assegura que Espanha os superará. “Acreditamos no nosso país e sentimo-nos orgulhosos do que somos”, disse. Exortando os seus mais de 40 milhões de súbditos a continuar a “conviver em paz e em liberdade”, que permitiu construir “a Espanha das últimas décadas”, afirmou que “nessa Espanha melhor que todos desejamos estará também a Catalunha”.

Reações: do encanto à repulsa

O PP gostou do discurso real. O ministro do Interior, Juan Ignacio Zoido, elogiou no Twitter uma “mensagem clara e contundente” em “defesa da unidade de Espanha”. Entusiasmado, o líder do partido na Catalunha escreveu na mesma rede social “Grande Rei!!! Obrigado por nos defender”. O partido Cidadãos (C’s, centro liberal), que nasceu na Catalunha para combater o separatismo, considerou a preleção do rei “imprescindível” e o seu “diagnóstico acertado”. Já a porta-voz parlamentar do Partido Socialista Operário Espanhol, Margarita Robles, preferiu destacar os apelos à “serenidade, entendimento e concórdia”.

Não houve, porém, unanimidade. O líder do Podemos (P’s, esquerda populista), Pablo Iglesias, dirigiu-se ao rei “como presidente de um grupo parlamentar que representa mais de cinco milhões de espanhóis”. Lembrando a condição de “não eleito” de Filipe, sentencia: “em nosso nome não”. Mais longe foi o porta-voz da aglomeração política catalã que inclui o P’s, de seu nome Em Comum Podemos. “Um chefe de Estado em quem ninguém votou apoia sem fissuras o PP. Fim da monarquia”, escreveu Xavier Domènech.

O vice-presidente da Câmara de Barcelona indignou-se, também no Twitter: “Um rei que nunca criticou a corrupção nem os cortes orçamentais e que agora legitima a resposta repressiva. Para que serve? Adeus, monarquia. Gerardo Pisarello foi eleito na lista da alcaide Ada Colau, apoiada pelo P’s e favorável ao referendo, ainda que não à secessão. A Esquerda Unida, coligação de esquerda que nasceu em torno do Partido Comunista de Espanha, acusa Filipe de agir “como um hooligan às ordens de Rajoy”, adotando “o mesmo discurso incendiário e irresponsável” que o primeiro-ministro.

Na imprensa, o jornal de Madrid “El Mundo” considerou o discurso do rei “valente e arriscado”. Já o independentista “Ara”, publicado em Barcelona, frisou que Filipe VI “evitou pedir diálogo”. Para o esquerdista “Público.es”, a comunicação real estava “carregada de expectativas que não cumpriu”.