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Há cravos mas não há urnas

“Catalunha embrião de Espanha”,
 lê-se no cartaz de um unionista,
 em Barcelona. “Aqui cheira a Franco”, reage um apoiante da independência

FOTO LLUIS GENE/AFP/GETTY IMAGES

Crispação. O referendo divide a Catalunha e Espanha. Opositores da independência querem distância das mesas de voto

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

enviado a Barcelona

Vai haver filas para votar, domingo, na Catalunha. “Gigantes e ordenadas” é como as deseja a Assembleia Nacional Catalã (ANC), organização separatista com cerca de 80 mil membros que tem protagonizado os últimos anos do processo de defesa de um referendo de autodeterminação. “Resistência pacífica, zero violência e máxima audácia”, pede a entidade aos mais de cinco milhões de cidadãos habilitados a votar: catalães com mais de 18 anos, residentes na região ou dela emigrados (estes últimos tiveram de pré-inscrever-se.

O número é uma estimativa baseada nas últimas eleições regionais, já que o Instituto Nacional de Estatística espanhol só fornece dados eleitorais sob autorização do Congresso dos Deputados, fora de questão neste referendo convocado à margem da Constituição do país vizinho. Também não há Comissão Eleitoral, dado que a que fora formada pelo governo regional se demitiu em bloco após a intervenção judicial do passado dia 20 de setembro (ver Revista E).

De nada terá servido o pedido feito ontem pelo secretário de Estado da Segurança espanhol, José Antonio Nieto, ao secretário do Interior catalão, para que a votação fosse desconvocada. Joaquim Forn retorquiu que esta decorrerá e que a Catalunha não precisa dos 10 mil agentes da polícia que Madrid enviou, reafirmando o papel da força local, os Mossos d’Esquadra, na segurança dos cidadãos. Resta saber em que urnas depositarão os catalães os seus votos, dado que as que habitualmente se utilizam em eleições na região, e que estavam num armazém municipal, estão agora sob custódia policial. Da tensão entre a vontade de uns de exercer um direito e o dever de outros de cumprir a lei dependerá o grau de conflitualidade da jornada.

“Penso que o 1 de outubro não deveria suceder”, diz ao Expresso um catalão radicado na China há dez anos. “A minha opinião não é a favor ou contra a independência, mas contra o incumprimento da lei.” Pede o anonimato por se ter instalado na Catalunha “uma identidade supremacista, em que todo aquele que discorde da ideia nacional independentista é apontado a dedo, marginalizado, acossado”. Mesmo emigrado, teme represálias.

Franco erguido da tumba

Em Barcelona, o Expresso testemunhou as cautelas dos opositores da secessão ao conversarem em locais públicos. E, apesar de só 47,8% do eleitorado terem votado em separatistas nas últimas legislativas regionais, em 2015, não se vê nas ações de rua a presença dos 41% que optaram por candidaturas que defendiam a unidade de Espanha. Mesmo sabendo que muitos partidários do “não” à independência tendem a voltar costas às urnas, para não legitimar o referendo, impressiona a ausência de argumentos a favor da permanência. Há uma imagem de unanimismo que não condiz com as sondagens, que dão conta de uma clivagem em partes quase iguais da sociedade catalã.

“Não há espaço para os outros. É curioso que quem mais utilizou o franquismo para acusar os outros tenha, agora, comportamentos próprios de um ditador”, acrescenta o nosso interlocutor. Refere-se às acusações de violação da democracia que os defensores do referendo lançam contra o Governo de Madrid, que tudo fez para o impedir. Em Bruxelas, o secretário de Relações Externas catalão, Raül Romeva, descreveu Espanha como “Estado repressor” e falou da detenção de 14 colegas do governo regional, encerramento de tipografias e páginas de internet e até “assédio” a jornalistas pelo Executivo central. Curiosamente, a organização Repórteres sem Fronteiras queixou-se de pressões das autoridades catalãs sobre profissionais da informação.

Nos protestos de Barcelona distribuem-se cravos, em alusão ao 25 de Abril português, mas não há repressão policial. Há um clima de festa que não era permitido a quem resistiu aos regimes de Salazar e Franco. Que é como quem diz que ações que prejudicam a qualidade da democracia, como a exagerada judicialização pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy de uma questão eminentemente política, não justificam clamores de que a ditadura voltou. Mais acertado será constatar que a normalidade democrática está fragilizada. O Parlamento regional não reúne há três semanas e os deputados discursam em palcos improvisados em praças como a da Universidade de Barcelona, ocupada há dias e ainda ontem ponto de partida de uma marcha de 16 mil estudantes.

Uma semana decisiva

Se no domingo importa ver como decorre a jornada (esmiuçando a participação, a paz social e os sufrágios), só nos dias seguintes haverá indícios do futuro da Catalunha. Romeva garante a “total abertura” do governo regional ao diálogo e à negociação com Espanha, inclusive para deixar cair a secessão caso as pretensões de autogoverno dos catalães sejam atendidas.

Que a inflexibilidade de Rajoy terá de vergar é ponto assente, havendo já uma comissão formada no Congresso dos Deputados para analisar mudanças ao modelo territorial espanhol. Mas Puigdemont não exclui uma declaração unilateral de independência, que extremaria posições (ver textos ao lado). O catalão emigrado com quem o Expresso falou antevê “altercações a partir do dia 3, depois de a opinião internacional se ter pronunciado, com situações de perigo geradas pelos mais radicais” da fação separatista. “As forças de segurança do Estado serão mais duras”, adverte, admitindo que haja agitação durante “vários anos”.

Referindo-se à jornada eleitoral, a ANC desaconselha “enfrentamentos diretos” com os agentes da lei, pois “isso é o que quer o Estado [espanhol]”. Outros dizem que tais imagens beneficiariam o governo catalão. Forn, secretário regional do Interior, explica que os Mossos d’Esquadra consideram “importante o cumprimento da lei e das decisões judiciais, mas há um bem superior, que é a convivência cívica”. Leia-se: a polícia catalã não forçará a mão para evitar que se vote. Quem for impedido de exercer o seu direito, diz a ANC, deve ficar à porta da assembleia de voto “em sinal de protesto”. Recomenda, em todo o caso, que os cidadãos se preparem para “passar horas” nas filas, munindo-se de “comida, bebida e talvez guarda-chuva”.