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Internacional

Macron desenterra eixo franco-alemão

LUDOVIC MARIN / EPA

Paris acha que há uma janela de oportunidade de quatro anos para “refundar a Europa”, apesar do desaire de Merkel

“Há o risco de um desmantelamento da União Europeia e da zona euro se não se fizer nada”, disse esta semana Emmanuel Macron na Universidade da Sorbonne, em Paris, em resposta a perguntas da audiência, depois de uma longa intervenção propondo uma “refundação da Europa”

O Presidente francês acrescentou que o momento que se vive no Velho Continente “é novamente de gravidade histórica” e que há uma janela de oportunidade de quatro anos para que o eixo Berlim-Paris volte a puxar pela União e pelo euro para se afirmar no mundo face à China — que “está a andar rápido” — e aos Estados Unidos.

Quatro anos em que os dois países não terão eleições cruciais cuja agenda doméstica limite o diálogo franco-alemão, explicou. Macron apagou dos seus cenários a possibilidade de uma coligação não se formar na Alemanha e do eleitorado germânico ter de regressar às urnas, como defendem 65% dos alemães numa sondagem da Infratest, caso a chanceler Angela Merkel não consiga formar a tão falada coligação ‘jamaicana’, unindo a CDU/CSU com os liberais do FDP e os Verdes.

O Presidente francês foi mais claro quanto ao que está subjacente à sua estratégia nas respostas às perguntas da audiência de estudantes e jornalistas do que na sua intervenção de mais de duas horas propondo uma “cascata” — como referiu o “Financial Times” – de propostas de reforço da integração europeia para serem discutidas por “um grupo de refundação da Europa”, que fomente “convenções democráticas” nos países-membros ao longo de 2018 de modo a haver uma estratégia comum antes das eleições europeias de 2019.

O veículo para esta dinâmica é trazer de volta “o impulso franco-alemão” numa espécie de ‘vanguarda’ para a “reconstrução histórica da Europa e da zona euro”. Uma espécie de hegemonismo bicéfalo ainda que Macron tenha dito que rejeita o hegemonismo “de um [país] em relação ao outro e sobre os outros”. Mas não escondeu que “tem ambições europeias” e que o eleitorado lhe deu esse mandato, de trazer a França para a ribalta.

O Presidente francês adiou esta sua intervenção de fundo para dois dias depois das eleições alemãs e, apesar do desaire de Merkel, não desarmou em desenterrar o eixo Berlim-Paris e em propor uma “cascata” de propostas que abrange todas as áreas cruciais da União. É uma espécie de menu que permite acordos “com vários formatos” entre os membros da União, mas que assenta no pressuposto que a Alemanha e a França conseguem, até 2019, uma plataforma de entendimento que puxará, depois, pelos restantes, sobretudo numa Europa onde já não haverá as resistências do Reino Unido. E onde governos de países-membros que sistematicamente violam as leis — como no caso da Polónia, que referiu explicitamente em resposta a uma pergunta de uma aluna polaca — deverão equacionar “se não deverão sair se não querem manter as nossas regras comuns”.

Macron rejeitou que o pacote de propostas de reforço da integração europeia deva ser entendido como uma deriva federalista. Frisou que se trata de propor em “alguns” temas transversais soluções de “soberania europeia” (ver caixa). O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, apressou-se a elogiar, no Twitter, “o discurso muito europeu do meu amigo” Macron e, sintomaticamente, o líder dos Verdes alemães, Cem Özdemir, apontado como putativo ministro dos Negócios Estrangeiros numa coligação ‘jamaicana’ na Alemanha, fez o mesmo.

Cascata de propostas

Para acalmar a oposição mais conservadora e liberal dentro de uma possível coligação na Alemanha, Emmanuel Macron aclarou que “não propõe mutualizar as dívidas do passado” nem defender “transferências financeiras sem responsabilização”. Mas não deixou de recordar a sua proposta de “um ministro comum” e de um orçamento para a zona euro com controlo parlamentar e de apontar no sentido de uma “convergência” em matérias como o salário mínimo e a harmonização de impostos e taxas. Admitiu, pela primeira vez, deitar fora o tabu de não se poder mexer na Política Agrícola Comum. Insistiu na proposta de uma taxa europeia para as transações financeiras e sobre a economia digital.