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Porto Rico, racismo, desporto e neonazis. Cinco antigos Presidentes unem-se para fazer o que Trump (ainda) não fez

Barack Obama, George W. Bush, Bill Clinton, George H. W. Bush (Bush pai) e Jimmy Carter

Alex Wong / Getty Images

Barack Obama e quatro antecessores na Casa Branca lançaram uma campanha de recolha de fundos para apoiar Porto Rico e as Ilhas Virgens norte-americanas, dois territórios dos EUA devastados pelo furacão Maria há uma semana – numa altura em que o atual Presidente continua sem nada dizer ou fazer pela população das ilhas, enquanto ataca os jogadores de futebol e de basquetebol que se ajoelham quando ouvem o hino, em protesto contra as atitudes racistas da polícia

Uma campanha de recolha de fundos lançada pelos cinco ex-Presidentes dos EUA ainda vivos pretende apoiar os residentes de Porto Rico e das Ilhas Virgens dos EUA, depois de os dois territórios norte-americanos terem ficado devastados à passagem do furacão Maria na semana passada. A iniciativa acontece numa altura em que o atual líder do país, Donald Trump, continua a fazer sua prioridade não o apoio a essas populações mas os ataques recorrentes a jogadores da NFL (Liga Nacional de Futebol Americano) por causa de protestos pacíficos contra o racismo endémico da polícia na América.

A campanha, intitulada “One America Appeal”, já tinha sido lançada no início do mês, no rescaldo dos furacões Irma e Harvey, que também provocaram estragos e vítimas no sul dos EUA, mas acabou de ser relançada após o furacão Maria ter destruído grande parte das infraestruturas de Porto Rico e também das Ilhas Virgens americanas — neste momento, grande parte dos porto-riquenhos continua sem eletricidade há vários dias por causa do desastre.

“Agora, indivíduos, fundações e instituições que façam doações dedutíveis no IRS para a OneAmericaAppeal.org podem escolher apoiar os esforços de recuperação do furacão Harvey no Texas, do Irma na Florida e do Maria em Porto Rico e nas Ilhas Virgens dos EUA”, anunciou a campanha em comunicado na segunda-feira — uma que está a ser gerida pelos antigos Presidentes Jimmy Carter (1977-1981), George H. W. Bush (1989-1993), Bill Clinton (1993-2001), George W. Bush (2001-2008) e Barack Obama (2008-2016).

Os habitantes de Porto Rico continuam abandonados à sua sorte depois da passagem do furacão Maria

Os habitantes de Porto Rico continuam abandonados à sua sorte depois da passagem do furacão Maria

Joe Raedle / Getty Images

A reformulação da campanha para incluir nos alvos da ajuda as populações dos dois territórios dos EUA sem personalidade jurídica surge perante o silêncio e inação do atual Presidente norte-americano face aos estragos deixados pelo furacão Irma nessas ilhas. Desde o fim-de-semana, e em vez de falar publicamente sobre as tormentas que os 3,4 milhões de cidadãos americanos que vivem em Porto Rico estão a enfrentar, Trump optou por lançar não um nem dois mas 17 tweets contra jogadores da NFL e da Associação Nacional de Basquetebol (NBA) que, em jogos oficiais, se ajoelham quando ouvem o hino.

Os ataques não se ficaram pelo Twitter, com o líder norte-americano a aproveitar um comício no Alabama, na sexta-feira, para exigir que as duas instituições desportivas despeçam todos os jogadores “filhos da put*” que não se erguem com a mão ao peito sempre que ouvem o cântico nacional. Esta atitude, têm apontado vários analistas e eleitores, seria de esperar no rescaldo do ataque lançado por um neonazi contra manifestantes pacíficos em Charlottesville, que culminou na morte de uma mulher de 32 anos e em 19 feridos.

Contudo, não foi isso que aconteceu: logo a seguir ao atentado, o Presidente defendeu — como continua a defender até hoje — que havia “muito boas pessoas” na barricada da extrema-direita responsável pelos episódios de violência naquela cidade da Virginia. Inversamente, mantém há vários dias uma ofensiva de palavras contra os atletas — inicialmente afroamericanos que, agora e face à postura do Presidente, têm obtido o apoio de vários colegas de equipa no seu protesto simbólico.

Em 2013, quando se gerou um debate público nos EUA sobre o nome racista de uma das equipas da NFL, o próprio Trump tinha recorrido ao Twitter para criticar Obama por estar a dedicar tempo e discursos ao assunto. “O Presidente não devia dizer aos Washington Redskins para mudarem o seu nome — o nosso país tem problemas maiores! FOQUE-SE neles, não em disparates”, escreveu o empresário no dia 8 de outubro desse ano. Agora, é ele quem está a dedicar-se a atacar equipas de futebol e de basquetebol, numa onda sem fim à vista que relegou para segundo plano questões importantes como o crescente número de crimes de ódio nos EUA e o facto de dois territórios do país estarem profundamente devastados e sem capacidades de recuperação em plena época de furacões no Atlântico.

Numa onda de solidariedade com os afroamericanos, no mundo do desporto e na sociedade norte-americana, várias figuras importantes têm erguido a sua voz para apoiar jogadores como Colin Kaepernick, um dos primeiros atletas da NFL a iniciar o protesto pacífico contra a violência policial. Até Tom Brady, tido como o maior apoiante do Presidente Trump dentro da NFL, decidiu distanciar-se dele e defender as atitudes dos colegas.

A ele juntou-se ontem Dale Earnhardt Jr., o mais famoso piloto da NASCAR — ao contrário da associação nacional de stock cars, que pediu aos atletas que respeitem o hino, Earnhardt Jr. disse no Twitter que “todos os americanos têm o direito de se manifestar pacificamente”, antes de citar John F. Kennedy numa espécie de aviso a Trump: “Aqueles que impossibilitam a revolução pacífica tornam inevitável a revolução violenta.” Também LeBron James, estrela maior do basquetebol americano, entrou no debate, tendo acusado o Presidente de estar “a usar o desporto para nos dividir”.

Tom Brady, o maior dos apoiantes de Trump na NFL já se afastou do Presidente em apoio aos colegas

Tom Brady, o maior dos apoiantes de Trump na NFL já se afastou do Presidente em apoio aos colegas

Maddie Meyer / Getty Images

No âmbito desta ofensiva de Trump contra os jogadores que se ajoelham, escrevia ontem o “Think Progress”, o Presidente também se apoderou da memória de Pat Tillman, famoso jogador da NFL (branco) que abandonou o futebol para se alistar no Exército e que acabaria por morrer em combate no Afeganistão em 2004. Depois de Trump lançar um tweet a alegar que Tillman é que foi um desportista que representou bem os valores americanos, antigos camaradas do soldado no Exército saíram em defesa da sua memória, garantindo que ele se opunha ferverosamente às políticas do Presidente Bush e ao que classificava como uma guerra “totalmente ilegal”.

A par disso, Tillman era ateu e trocava correspondência com um dos seus pensadores favoritos da América moderna, Noam Chomsky. E quando Trump anunciou o seu primeiro decreto anti-imigração para impedir a entrada de muçulmanos nos EUA, a viúva do atleta tornado soldado já tinha criticado o Presidente no Facebook, ao declarar: “Este não é o país com que [o meu marido] sonhava, o país que ele serviu e pelo qual morreu.”

Desde que Trump relançou os ataques a atletas que usam a sua fama e atenção mediática para protestarem a violência da polícia contra a população negra, vários grupos de extrema-direita alinharam-se com o Presidente — mas não só. Ontem, Trump disse-se “muito orgulhoso” do plano da NASCAR para despedir pilotos que participem no protesto, e um dos seus principais conselheiros religiosos, Robert Jeffress, deitou mais achas à fogueira ao declarar que os jogadores deviam “agradecer a deus” o facto de “ainda não terem sido baleados na cabeça”.

Para “The New York Times”, a retórica de Trump contra os atletas da NFL e da NBA não é mais do que “uma tentativa calculada” de manter a sua base eleitoral numa altura em que a sua popularidade continua em queda nas sondagens.

“As provocações do Presidente são uma expressão em tempo real das suas emoções perante uma multidão”, escreveram ontem os jornalistas Glenn Thrush e Maggie Haberman numa análise aprofundada do que aconteceu nos últimos dias. “Mas acima de tudo, tais lutas refletem o quanto ele está focado no que leva a sua base populista e reativa a continuar a apoiá-lo, um ritual de autopreservação com o intuito de desviar as atenções de outras narrativas mais prejudiciais [para a sua administração].”