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May tem de contrariar “Brexit fantasioso” defendido por Johnson e adotar uma “posição real”

Jack Taylor

São estas as “elevadas expetativas” que Bruxelas tem quanto ao antecipado discurso que a primeira-ministra britânica vai proferir na sexta-feira em Florença para apresentar o seu plano concreto de saída da União Europeia, segundo declarações do ministro-sombra do Brexit ao "The Guardian"

A União Europeia tem "expetativas elevadas" quanto ao discurso que Theresa May vai proferir na sexta-feira a partir de Florença, no qual deverá delinear o seu plano concreto de saída do bloco, mas teme que a chefe do governo britânico surja debilitada e incapaz de cumprir algumas das suas promessas, muito embora veja a recente intervenção do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, como irrelevante.

Assim avançou esta quinta-feira ao "The Guardian" Keir Starmer, ministro-sombra do Partido Trabalhista para o Brexit, com base em discussões que manteve em Bruxelas esta quarta-feira com Michel Barnier, o chefe das negociações de saída do lado da Comissão Europeia, a sua vice, Sabine Weyand, e Martin Selmayr, o "poderoso" chefe de gabinete de Jean-Claude Juncker.

Segundo Starmer, os três representantes do Executivo comunitário estão bastante céticos quanto às capacidades da primeira-ministra britânica "cumprir" qualquer das suas promessas sobre o acordo de saída, que tem de estar fechado até março de 2019 — entre elas propor-se a pagar uma "conta de divórcio" de 20 mil milhões de euros. "Eles querem ver progressos reais e querem que ela cumpra, não querem um discurso e mais nada", declarou o responsável da oposição pela pasta do Brexit sobre o antecipado discurso de May.

Na mesma entrevista, o responsável da oposição britânica pela pasta do Brexit faz referência às declarações da primeira-ministra no congresso do seu Partido Conservador no ano passado, quando reforçou a sua visão anti-movimentação livre de cidadãos, dizendo que "os cidadãos do mundo" são "cidadãos de lado nenhum". Bruxelas, aponta Starmer, teme que May volte a essa retórica no próximo encontro anual do partido, que terá lugar em Manchester no início de outubro.

"Eles ficaram muito preocupados com o que ela disse na conferência do ano passado e estão cautelosos quanto ao que vai dizer no discurso de sexta-feira [por oposição] ao discurso daqui a duas semanas [na conferência dos conservadores]. Será difícil convencê-los que o que for dito amanhã é suficiente se não for [um discurso] consistente. Se for para apresentar uma posição, tem de ser uma posição real." Acima de tudo, acrescenta Starmer, as autoridades da UE querem ouvi-la "falar sobre dinheiro".

A chamada "conta do divórcio" é um dos pontos de contenda nas negociações em curso em Bruxelas. Ontem, o "Financial Times" avançou que o governo britânico notificou a Alemanha sobre a intenção de May em anunciar amanhã que vai desembolsar pelo menos 20 mil milhões de euros para cumprir os seus compromissos com o Orçamento da UE até 2020. Na tentativa de quebrar o impasse nessas negociações, fontes oficiais britânicas têm indicado que nenhum dos 27 Estados-membros terá de pagar mais ou receber menos até esse ano por causa da saída do Reino Unido.

Uma fonte da UE avançou entretanto ao "Guardian" que, apesar de esta proposta estar a ser bem-recebida nos corredores de Bruxelas, o valor continua a não ser suficiente para cobrir as exigências da comunidade europeia. "A oferta pode permitir que comecemos a discutir o acordo financeiro em maior detalhe. Contudo, achamos que continua longe da zona de aterragem."

A par disto, o discurso de May vai estar ensombrado pelo recente artigo de opinião que Boris Johnson publicou no "Telegraph" há uma semana, no qual garantiu que não o Reino Unido não vai pagar para aceder ao mercado único no pós-Brexit, deixando nas entrelinhas a sua iminente demissão se a chefe do governo optar por um "Brexit suave" para manter uma relação comercial próxima com o bloco a 27.

Sobre isto, Starmer diz que ficou com a ideia de que a equipa da Comissão Europeia "não levou a sério" as ameaças do chefe da diplomacia britânica. "Eles querem progresso e estão preocupados com a metodologia [do acordo financeiro]", acrescenta o trabalhista. "Há claramente motivos de preocupação perante a taxa de progresso [das negociações] em Bruxelas, tanto quanto os há aqui no Reino Unido. Mas a bola está nas mãos da primeira-ministra. [...] Ela vai ter de enfrentar Boris Johnson e a sua versão fantasiosa do Brexit, sobretudo em relação ao passivo financeiro. E precisa de abandonar algumas das suas linhas vermelhas inflexíveis."

Para o minstro-sombra, e de acordo com o que lhe foi transmitido pela delegação comunitária, "o pior resultado possível" do discurso de amanhã é a primeira-ministra "não dizer nada e inflamar a situação", reduzindo as "probabilidades de se alcançarem progressos".